Apostolado de Anápolis sugere castidade para que homossexuais vivam de acordo com planos de Deus; OAB repudia

Apostolado internacional diz que terminologia LGBTQIA+ estimula relacionamento com pessoas do mesmo sexo; Anápolis é a oitava cidade do país com células de atendimento

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Retiro em São Paulo; em Anápolis, apenas membros conhecem locais de reuniões (Foto: Reprodução Site couragebrasil.com)

O Apostolado Courage Brasil, com células de atendimentos abertas em Anápolis, propõe castidade a homossexuais para que homens e mulheres “vivenciem a masculinidade e feminilidade de acordo com os planos de Deus“. O grupo pretende tratar feridas e traumas que possam surgir a partir do momento em quem uma pessoa se diz homossexual e oferece “apoio espiritual” como meio de combatê-las.

O apostolado, porém, afirma não atuar com a chamada “terapia reparativa”, que supostamente oferece ferramentas de “reorientação sexual”. A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Subseção de Anápolis, repudia veementemente os esforços da comunidade autodenominada Courage Brasil.

Ligado à Igreja Católica, o Courage Brasil explicou ao Mais Anápolis que o apostolado atua independentemente da orientação de qualquer outro movimento católico. O ministério tem como base, 12 princípios e cinco metas.

A primeira é vida casta. “Seguimos também um programa de 12 passos adaptados e baseados naqueles elaborados pelos Alcoólicos Anônimos, que nada mais são do que um programa de crescimento espiritual”, explica o apostolado.

O primeiro princípio é admitir ser impotente perante a homossexualidade e ter perdido o domínio sobre a própria vida. “Não somos um apostolado de terapia reparativa, que busca diretamente a reorientação sexual. Através da prática ascética, a atração pode ser diminuída e mesmo vencida. Ou seja, é necessário ter uma vida santa, mas não prometemos tratamento terapêutico a ninguém”, garante.

“Procuramos ajudar os irmãos e irmãs católicos a sanar suas feridas e traumas com apoio espiritual e com formação humana, para que, de forma plena e satisfatória, possam vivenciar sua masculinidade e feminilidade de acordo com os planos de Deus e os ensinamentos da Igreja Católica acerca da sexualidade humana”, propõe.

Courage diz que terminologia LGBTQIA+ estimula relacionamento com pessoas do mesmo sexo

Segundo o apostolado, algumas pessoas dizem que se identificar como gays ou lésbicas significa, apenas, reconhecer que as atrações emocionais, românticas e sexuais são predominantemente com respeito ao mesmo sexo. “O Courage vê as pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo como homens e mulheres criados a imagem e semelhança de Deus, com a vocação a uma vida casta e santa pela união cada vez mais profunda com Cristo”, afirma.

Para outras pessoas, de acordo com o apostolado, o “rótulo” de LGBTQI+ é sinônimo de “pedra de tropeço”. Isso, segundo o apostado, por estimular a ter um relacionamento sexualmente ativo com pessoas do mesmo sexo e por se tornar mais suscetíveis a adotar políticas de ativismo gay que conflitam com ensinamentos morais da igreja, especialmente na área do casamento.

“A terminologia conduz a um meio mais secular, faz com que sejam mais tentados a ter um relacionamento sexualmente ativo com pessoas do mesmo sexo. Torna mais suscetíveis a adotar as políticas do ativismo gay, que frequentemente entram em conflito com os ensinamentos morais da Igreja, especialmente na área do casamento. Influencia a desrespeitar, ou disfarçar, os ensinamentos da igreja sobre a inclinação para a atividade homossexual ser objetivamente desordenada, porque o mundo frequentemente propõe a ideia de que tudo o que é gay é bom”, afirma.

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Foto: Reprodução Courage Brasil / Facebook

Apoio para famílias

Reclassificado de EnCourage, o programa espiritual também oferece apoio para pais, parentes e amigos de pessoas homossexuais e bissexuais. Anápolis é a oitava cidade do país com células do apostolado. Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Franca e Ourinhos já têm atendimentos.

A vertente direcionada à família também se baseia em cinco metas. Uma delas é “ganhar um profundo entendimento das necessidades, dificuldades e desafios vividos por homens e mulheres homossexuais”. Outra orientação é não rejeitar. “Dar suporte a outros membros da família e amigos para alcançá-los com compaixão e verdade para, não para rejeitar, seus amados que vivem a homossexualidade”.

Em Anápolis, as reuniões ocorrem de forma presencial e virtual. É exigida a confidencialidade dentro do apostolado, tanto sobre quem participa quanto sobre o que é falado. “Respeitamos a privacidade de cada um. Por isso nosso cuidado com a discrição. Os membros das células recebem acompanhamento individual para evoluir na luta contra a atração pelo mesmo sexo”, diz.

Posicionamento da OAB

De acordo com a Comissão de Direitos Humanos da OAB de Anápolis, as práticas adotadas pelo Apostolado consistem em tratar a diversidade sexual como desvio de caráter, trauma ou “ferida” emocional, o que sugere tratar a diversidade sexual como doença. “Tanto é verdade, que a proposta é semelhante à aplicada no programa de Alcoólicos Anônimos, que, evidentemente trata o alcoolismo como doença”, diz. A comissão pontua que a homossexualidade foi desconsiderada doença pela Organização Mundial da Saúde em 1990.

Para a Comissão de Direitos Humanos, o Apostolado oferece tratamento de reorientação sexual disfarçado. “A organização oferece um tratamento de reorientação sexual disfarçado, pois ao propor o celibato, uma vida de abstinência, chega a afirmar que – com o tempo – o indivíduo além de controlar o desejo, também conviverá normalmente em sociedade, conforme lhe for apresentado o estilo de vida cristã para relacionamento entre homens e mulheres”, declara a OAB.

A Comissão afirma que qualquer tentativa que vise diminuir a causa LGBTQIA+, menosprezar a luta ou, ainda, constranger indivíduos à uma prática contrária à própria vontade, é ilegal, imoral e criminosa. “Assim, jamais terá o apoio ou a aceitação por parte desta instituição, que luta constantemente pela justiça, pela diversidade e pelo respeito à todos, incondicionalmente à etnia, credo ou orientação sexual. A Comissão de Direitos Humanos repudia veementemente os esforços da comunidade autodenominada Apostolado Courage Brasil”, pontua.

Movimento LGBTQIA+ se posiciona

A Aliança Nacional LGBTQIA+ afirmou ao Mais Anápolis que vai procurar o Ministério Público para que se investigue possíveis práticas de curandeirismo e charlatanismo na atuação do Apostolado Courage Brasil.