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Banco Central diz em carta aberta que inflação de dois dígitos é culpa de fenômeno global

Presidente do BC justifica o estouro do teto da meta em 2021

Banco Central diz em carta aberta que inflação de dois dígitos é culpa de fenômeno global - (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Banco Central diz em carta aberta que inflação de dois dígitos é culpa de fenômeno global -(Foto: Raphael Ribeiro/BCB)

Em carta aberta divulgada nesta terça-feira (11), o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, atribuiu o estouro da meta de inflação em 2021, que acumulou alta de 10,06%, aos sucessivos choques de custos e enfatizou que trata-se de movimento observado também em outros países.

“De fato, a aceleração significativa da inflação em 2021 para níveis superiores às metas foi um fenômeno global, atingindo a maioria dos países avançados e emergentes”, disse o texto, endereçado ao ministro da Economia, Paulo Guedes.

Na decomposição do índice de 2021, segundo o BC, a chamada “inflação importada” foi a que mais contribuiu para que o indicador ficasse fora da meta, com peso de 4,38 pontos percentuais. Depois, veio a inércia do ano anterior (1,21 ponto) e 1,02 de demais fatores.

A inflação do período, que foi divulgada nesta manhã pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), fechou em dois dígitos e ficou bem acima da meta definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O indicador poderia chegar até o máximo de 5,25%.

A alta é a maior para o período de janeiro a dezembro desde 2015, quando os preços aceleraram 10,67%. À época, a economia nacional atravessava período de recessão no governo Dilma Rousseff (PT). Sempre que a inflação termina o ano fora do intervalo determinado, o presidente do BC precisa justificar os motivos em carta aberta e detalhar como o problema deve ser resolvido. Esta é a sexta desde a criação do sistema de metas para a inflação, em 1999.

A carta anterior foi escrita pelo antecessor de Campos Neto, Ilan Goldfajn, em janeiro de 2018. O texto era relativo à inflação de 2017, mas, na ocasião, o então presidente do BC se justificava por resultado ligeiramente inferior ao mínimo estabelecido.

As outras foram escritas em 2015, 2003, 2002 e 2001, todas em razão de ter excedido o limite superior da meta de inflação. Desde a implementação do regime, todos os presidentes do BC já tiveram que justificar o descumprimento da meta.

No mês passado, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC elevou a taxa básica novamente em 1,5 ponto percentual, a 9,25% ao ano. No comunicado, o BC indicou nova alta de mesma magnitude para próxima reunião, em fevereiro, para 10,75% ao ano.

Em 2020, o BC levou a taxa básica de juros ao menor nível da história, a 2% ao ano em agosto, e manteve o patamar até março de 2021. O nível “extraordinariamente estimulativo”, como classificou o Copom na época, veio acompanhado da comunicação do BC de que a inflação era temporária, o que levou as expectativas a subirem ao longo do ano passado.

Campos Neto trabalha agora com o risco de descumprir a meta pelo segundo ano seguido em 2022, fixada em 3,5% com tolerância de 1,5 ponto percentual. Para o período, o mercado já espera que o indicador fique acima do máximo permitido no intervalo de tolerância, que é de até 5%.

De acordo com o relatório Focus desta semana, em que o BC divulga expectativas de economistas de instituições financeiras e casas de análise, os preços devem subir 5,03% este ano. Mandatário mais longevo até agora, Henrique Meirelles foi o único presidente do BC a ter que escrever duas cartas ao longo de seu mandato, que durou de janeiro de 2003 a dezembro de 2010, oito anos ao todo.

Campos Neto iniciou seu mandato em fevereiro de 2019 e vai para o terceiro ano no comando da autarquia. Esta é a primeira carta escrita após a aprovação da autonomia do BC, que definiu objetivos secundários à autarquia. Além da inflação, que continua sendo a principal atribuição, a autoridade precisa olhar para a atividade econômica e para o mercado de trabalho.