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Qual é, neguinho?

Fala racista de Piquet mostra que neguinho não é termo que possa mais ser usado de forma impune

Nelson Piquet / Reprodução Band
Nelson Piquet - Foto: Reprodução Band

Não gosto de Fórmula 1, tenho zero interesse por automobilismo, considero ver carro correndo em voltas mais entediante do que sala de espera de consultório médico. Além desse meu desinteresse pelo objeto, tenho também birra por quem protagoniza o fato que aqui analiso: minha antipatia por Nelson Piquet chegou na estratosfera desde quando o tricampeão mundial decidiu pagar de motorista de golpista. É importante colocar tudo isso antes de entrar na fala em questão. Em entrevista a um canal que debate Fórmula 1, Piquet disse o seguinte sobre uma manobra de Hamilton que teria como intenção real tirar Verstappen da corrida no Circuito de Silverstone:

“O ‘neguinho’ meteu o carro e deixou. O Senna não fez isso. O Senna não fez isso. Ele foi, assim, ‘aqui eu arranco ele de qualquer maneira’. O ‘neguinho’ deixou o carro. É porque você não conhece a curva; é uma curva muito de alta, não tem jeito de passar dois carros e não tem jeito de passar do lado. Ele fez de sacanagem”.

Piquet sabe o tamanho da bobagem que falou. Tanto que já publicou nota se desculpando da fala que repercutiu no mundo como bem demanda os parâmetros civilizatórios dos tempos atuais. A Federação Internacional do Automobilismo (FIA) e a F1 repudiaram o caso. As equipes Mercedes, Alpine, McLaren, Aston Martin e Ferrari manifestaram apoio ao piloto britânico heptacampeão. As consequências pesadas atingiram ponto tal que o brasileiro não poderá voltar ao paddock (local que abriga as equipes, veículos, oficiais de prova e convidados durante as corridas) da categoria após a polêmica com Hamilton.

Sim, o mundo mudou. E que bom que mudou.

A expressão “neguinho” é muito popular e usada, em parte das vez, sem nenhuma denotação racista. Em particular no Rio de Janeiro, o seu uso não pressupõe racismo direto. Talvez sim o estrutural. Prova disso é que título desse texto eu pego, por exemplo, de uma música do Marcelo D2, a Qual é?. Caetano Veloso tem uma composição gravada por Gal Costa com o nome de Neguinho, na qual o artista ainda tem o cuidado de inserir o verso “Neguinho que eu falo é nós” já prevendo que a expressão poderia causar polêmica.

Talvez com o espírito do tempo de hoje, Caetano e D2 não usassem a expressão nas suas músicas. Não sei. Mas sei sim que o tom que Piquet usou não foi o mesmo dos dois artistas. O ex-piloto visa diminuir Hamilton, menoscaba o piloto. E, é claro, vinculando esse tom pejorativo à etnia.

Que Piquet tenha aprendido a lição. E que nós todos tenhamos o cuidado de não repetir termos racistas sem compreender que as palavras não são inocentes. Elas carregam cargas culturais e discriminatórias e que precisamos estar atentos para não perpetuar o preconceito que habita certas expressões.

@pablokossa/Mais Goiás | Foto: Reprodução / Band