Cirurgia cardíaca inédita em UTI neonatal salva recém-nascida no DF; entenda
Procedimento à beira-leito corrigiu cardiopatia congênita

Uma cirurgia cardíaca inédita realizada dentro de uma UTI neonatal no Distrito Federal foi decisiva para salvar uma recém-nascida, em um procedimento considerado inovador e de alta complexidade. A intervenção ocorreu no Hospital e Maternidade Brasiliense e já é vista como um marco na medicina neonatal da região.
O procedimento, feito em 18 de fevereiro, corrigiu uma persistência do canal arterial (PCA), uma cardiopatia congênita que compromete a circulação sanguínea. A bebê, que nasceu em 29 de janeiro sem intercorrências aparentes, apresentou dificuldades respiratórias ainda na primeira semana de vida, o que levou a família a buscar atendimento médico novamente.
“Foi um baque. A gente não esperava. Quando ela foi intubada, no dia seguinte, entendemos a gravidade da situação”, relatou a mãe, Bárbara Lorena Rodrigues.
De acordo com a médica Roberta Lengruber, coordenadora da UTI pediátrica e neonatal, a condição ocorre quando uma estrutura essencial na circulação fetal não se fecha após o nascimento. “Quando o bebê nasce e dá o primeiro respiro, a circulação começa a se reorganizar. Esse canal deveria se fechar naturalmente, mas, neste caso, permaneceu aberto”, explicou.
Diante da falta de resposta ao tratamento medicamentoso e da piora no quadro clínico, a equipe optou por realizar a cirurgia diretamente na UTI neonatal, evitando o deslocamento da paciente e reduzindo riscos. O procedimento foi minimamente invasivo e guiado por ultrassom, permitindo o fechamento do canal arterial por meio de um pequeno corte lateral, sem necessidade de abrir o tórax.
“É uma cirurgia extremamente delicada, quase um trabalho artesanal. Apesar de menos invasiva, envolve riscos importantes e exige uma equipe altamente integrada”, destacou a especialista. Participaram do procedimento cirurgião cardíaco, anestesista, cardiologista pediátrica, intensivistas, enfermeiros e fisioterapeutas.
A resposta ao tratamento foi rápida. Em menos de 24 horas, exames já indicavam melhora significativa na circulação e na função cardíaca da bebê. “Depois da cirurgia, conseguimos respirar mais aliviados. O pós-operatório foi melhor do que os dias anteriores, quando ela estava bem debilitada”, contou a mãe.
Após semanas de recuperação na unidade, a recém-nascida recebeu alta no dia 26 de março. A expectativa da família é positiva, apesar da necessidade de acompanhamento contínuo. “A cirurgia foi um sucesso. Agora, ela vai precisar de atenção especial, mas tudo indica que poderá ter uma vida normal”, afirmou Bárbara.
Dados do Ministério da Saúde do Brasil mostram que, a cada mil nascimentos no país, cerca de dez bebês apresentam algum tipo de cardiopatia congênita, o que representa aproximadamente 30 mil casos por ano. Desses, cerca de 40% precisam passar por cirurgia ainda no primeiro ano de vida — o que reforça a importância de avanços como esse na rede de saúde.