TAXA ROSA

O peso da estética: mulheres destinam até 15% da renda a cuidados pessoais por mês

Diferença de preços em produtos, variedade maior de consumo e pressão social fazem mulheres destinarem até R$ 600 por mês para cuidados pessoais

Manter uma rotina básica de cuidados pessoais pode representar um gasto significativo no orçamento de muitas mulheres em Goiás e no Brasil. Entre produtos de higiene, maquiagem, depilação, cuidados com o cabelo e itens específicos do público feminino, o custo mensal pode variar entre R$ 300 e R$ 600, o que representa até 15% da renda, segundo estimativas da economista Adriana Pereira de Sousa, presidente do Conselho Regional de Economia da 18ª Região – Goiás. Quando esses valores são acumulados ao longo dos anos, o impacto financeiro pode ultrapassar R$ 300 mil, resultado da soma de pequenas despesas que se repetem mês após mês.

A situação ajuda a ilustrar a realidade de Paula Araújo, de 29 anos. Recepcionista de uma clínica odontológica em Goiânia, ela recebe R$ 2.500 por mês e mora sozinha no setor Novo Mundo. Metade do salário é destinada ao aluguel do apartamento, que custa R$ 1.250. O restante precisa cobrir todas as demais despesas, como alimentação, contas da casa, transporte e também os gastos com cuidados pessoais.

No dia a dia, itens como absorventes, produtos de higiene, maquiagem básica, protetor solar, medicamentos para dores menstruais e cuidados com o cabelo entram na lista de compras mensais. “Quando a gente vai comprando, parece pouco. Mas quando soma tudo no final do mês, percebe que é uns R$ 100, R$ 150 que sai sempre”, conta.

Consumo maior e mais diversificado

De acordo com a presidente do CRE de Goiás, diversos estudos mostram que mulheres tendem a destinar uma parcela maior da renda a produtos e serviços ligados à aparência. Estimativas de mercado apontam que os gastos com estética e cuidados pessoais podem representar entre 5% e 15% do orçamento mensal de muitas mulheres, especialmente nas áreas urbanas.

Segundo a economista, dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, por meio da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), além de relatórios de empresas de análise de mercado e da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, confirmam essa tendência.

“Esses levantamentos mostram que o consumo feminino não é necessariamente maior em um único produto, mas sim, diversificado. Enquanto o consumo masculino costuma se concentrar em poucos itens básicos de higiene, o feminino envolve várias categorias, como cuidados com a pele, cabelo, maquiagem e serviços especializados”, explica Adriana.

Ela acrescenta que esse padrão não está ligado apenas a escolhas individuais. “Quando analisamos o consumo de forma mais ampla, percebemos que ele está profundamente conectado às normas sociais e aos padrões culturais de cada sociedade”, diz.

Relação com desigualdade econômica

Outro ponto levantado pela economista é a relação entre esse padrão de consumo e a desigualdade de renda entre homens e mulheres. “No Brasil, as mulheres ainda recebem, em média, menos que os homens. Quando um grupo tem renda menor e ao mesmo tempo enfrenta uma pressão social maior para determinados tipos de consumo, isso pode gerar um efeito indireto sobre a capacidade de poupança e formação de patrimônio”, afirma.

Segundo ela, esse fenômeno é conhecido na economia como o custo econômico das normas sociais.

“Em muitas áreas profissionais, especialmente aquelas que envolvem atendimento ao público, a aparência pode influenciar percepções sobre profissionalismo, competência ou credibilidade. Isso faz com que muitas mulheres invistam mais em aparência como forma de adequação social ou profissional”, explica.

Pressão social e aparência

Para a economista, historicamente existe uma expectativa maior sobre a aparência feminina. “No caso das mulheres, a apresentação pessoal acaba tendo um peso social maior. Isso aparece tanto nas relações sociais quanto no ambiente profissional. A aparência pode atuar como uma espécie de capital simbólico, que influencia a forma como a pessoa é percebida, aceita ou valorizada em determinados ambientes”, explica.

Por isso, parte desses gastos acaba sendo vista como necessária. “Muitas vezes não se trata apenas de preferência pessoal. Existe um conjunto de expectativas sociais que acabam influenciando o comportamento de consumo”, diz.

“Taxa Rosa”

Além da maior quantidade de produtos consumidos, mulheres também enfrentam diferenças de preços em itens semelhantes aos vendidos para homens, o chamada “Taxa Rosa”. Um levantamento feito pela reportagem do Mais Goiás em três farmácias de Goiânia identificou alguns exemplos.

O medicamento Advil 400 mg em cápsulas, por exemplo, custa em média R$ 28,60. Já a versão Advil Mulher 400 mg, que promete ajudar também no alívio de cólicas menstruais, foi encontrada por cerca de R$ 30,85, um aumento de 7,86%. A diferença também aparece em produtos de barbear. O Prestobarba 3 da Gillette com duas unidades na cor preta custa cerca de R$ 17,90, enquanto o mesmo produto na versão rosa foi encontrado por R$ 23,90, alta de 33,52%.

Outro exemplo está nos cremes depilatórios. O Veet Men Pele Normal, de 200 ml, foi encontrado por R$ 39,19, enquanto o equivalente feminino, da mesma marca e com características semelhantes, custa R$ 48,99, 25% mais caro .

Além disso, existem gastos específicos da rotina feminina. O preço de absorventes, por exemplo, pode variar de R$ 5 em embalagens com oito unidades a até cerca de R$ 30 em pacotes com até 32 unidades, dependendo da marca.

Impacto ao longo da vida

Outro aspecto analisado pela presidente é o efeito acumulativo dessas despesas ao longo dos anos.

“Se considerarmos um gasto mensal relativamente comum, algo entre R$ 300 e R$ 600, ao longo de décadas esse valor passa a ser bastante significativo. Em um período de doze meses, esse consumo pode chegar a R$ 3.600 ou até R$ 7.200. Quando ampliamos essa conta para cerca de 40 anos de vida adulta, o valor acumulado pode variar entre R$ 140 mil e R$ 300 mil”, diz.

Para a economista, o principal ponto é entender que o impacto não vem de uma única compra.“O que pesa no longo prazo é justamente a repetição dessas despesas. Muitas vezes elas parecem pequenas no cotidiano, mas quando observamos o horizonte de décadas, percebemos que representam um montante significativo”, afirma.

Ela explica que esse fenômeno está relacionado ao conceito de custo de oportunidade. “Sempre que gastamos um valor hoje, abrimos mão do retorno que esse dinheiro poderia gerar se fosse investido. No caso das pequenas despesas recorrentes, o impacto vem da frequência com que elas se repetem ao longo dos anos”, diz.

Adriana destaca que a intenção de análises ecônomicas não é criticar o consumo, mas compreender seus efeitos econômicos. “Esse tipo de exercício ajuda a mostrar como hábitos de consumo, muitas vezes influenciados por normas sociais, acabam gerando um custo financeiro invisível ao longo da vida”, conclui a economista Adriana Pereira de Sousa, presidente do Conselho Regional de Economia da 18ª Região – Goiás.