PROTEÇÃO

Estudo mostra riscos ‘baixos’ de formação de coágulos na vacina de AstraZeneca

Um estudo dinamarquês e norueguês publicado na revista científica “British Medical Journal” (BMJ) nesta quarta-feira, dia…

Um estudo dinamarquês e norueguês publicado na revista científica “British Medical Journal” (BMJ) nesta quarta-feira, dia 5, avaliou a relação entre os benefícios da vacina AstraZeneca contra Covid-19 e os riscos de eventos adversos e formação de coágulos sanguíneos que ela poderia causar. A pesquisa, liderada pelo professor Anton Pottegard, concluiu que o imunizante traz riscos “absolutamente baixos” e, portanto, tem seu uso recomendado como forma de proteção.

Pottegard explicou ao GLOBO que os contextos podem variar de país para país e, com isso, a forma de utilização da vacina também é alterada. Ele citou o exemplo de seu país, Dinamarca, que possui outras opções de vacinas e já aplicou doses em boa parte de seus idosos. Considerando uma taxa de transmissão mais baixa do que a de países como o Brasil e a Índia, são levados em conta os riscos maiores de formação de coágulos para a população mais jovem, na faixa de 20 a 39 anos. Em 14 de março, a Autoridade de Saúde Dinamarquesa anunciou a interrupção da AstraZeneca. Naquele país, a campanha é feita com os imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna.

No entanto, quando o contexto é de maior taxa de transmissão da doença, de menor opções e quantidade de vacinas e onde ainda há muitos idosos e pessoas com comorbidades a receberem suas doses, os benefícios superam os riscos, por protegerem os receptores de uma infecção potencialmente fatal. A pesquisa também verificou que há diferença muito baixa entre os resultados para jovens e idosos, mulheres e homens, sendo o risco ligeiramente maior para jovens e mulheres.

— Na Dinamarca, ela (a AstraZeneca) não é mais usada. Esse é, contudo, um país com menor risco de transmissão (da Covid-19), possui outras vacinas e maior parte dos idosos foi vacinada. Neste contexto, faz sentido (determinar essa medida). Entretanto, se estiver em um país com maior taxa de transmissão e vacinas em menor quantidade, os benefícios superam os riscos. Então, a melhor decisão a tomar é usar a vacina (da AstraZeneca) em todos no contexto do Brasil — frisou o pesquisador.

Em uma postagem no Twitter, Pottegard ressaltou sua preocupação de a pesquisa gerar mal entendidos por mencionar os eventos adversos em alguns casos de vacinados com a dose de Oxford.

— Fico preocupado com a má interpretação da pesquisa, porque os riscos são muito baixos — explicou, completando: — Minha preocupação é que a má interpretação leve a crer que a vacina não deva ser usada e isso acabe provocando a morte de muitas pessoas.

A pesquisa liderada por ele contou com participantes de 18 a 65 anos que receberam a primeira dose da AstraZeneca entre 9 de fevereiro e 11 de março na Dinamarca e Noruega. Foram então analisadas as taxas de eventos cardiovasculares e hemostáticos nos primeiros 28 dias após a aplicação e compará-las com os índices observados nas populações em geral.

Os riscos avaliados incluíram incidentes arteriais, tromboembolismo venoso, trombocitopenia ou distúrbios de coagulação e sangramento, considerando comparações por idade e gênero.

O estudo verificou que, no período mencionado, 148.792 pessoas com média de 45 anos, sendo 80% mulheres, receberam sua primeira dose da AstraZeneca na Dinamarca. Já na Noruega, foram contabilizadas 132.472, com média de 44 anos e 78% mulheres.

A pesquisa verificou, entre os 281.264 receptores, um aumento na incidência de coágulos sanguíneos nas veias (coágulos sanguíneos venosos), incluindo um ligeiro aumento na incidência de coágulos sanguíneos nas veias do cérebro, correspondendo a um coágulo adicional por 40 mil vacinados.

No entanto, “os resultados foram amplamente tranquilizadores”, afirmam os autores, justificando que não encontraram um aumento na incidência para a maioria dos eventos adversos estudados.

“Os riscos absolutos de eventos tromboembólicos venosos foram, no entanto, pequenos, e os achados devem ser interpretados à luz dos efeitos benéficos comprovados da vacina, o contexto do país em questão e as limitações à generalização dos achados do estudo”, conclui o estudo.

Pottegard reconheceu ao portal de notícias norte-americano sobre doenças cardiovasculares “TCTMD” que a conclusão pode ser difícil de ser compreendida.

— Eu realmente enfatizo que este é um conhecimento novo, ou melhor, quantifica melhor o conhecimento que temos, mas como isso influencia o perfil de risco-benefício é altamente dependente do país e do contexto, e em muitos casos esta ainda será uma vacina globalmente positiva — afirmou.

Segundo o portal de notícias científicas “Eureka Alert”, os resultados do estudo foram encaminhados às autoridades dinamarquesas, norueguesas e internacionais e já foram considerados nas avaliações feitas pelo órgão regulador dinamarquês.