DECISÃO

Justiça absolve militar que agrediu estudante com cassetete em Goiânia, em 2017

Para magistrada, policial agiu de forma adequada; assistente de acusação afirma que irá recorrer

A juíza Flávia Morais absolveu, nesta quinta-feira (30), o capitão Augusto Sampaio de Oliveira Neto, policial militar que agrediu com cassetete o estudante Mateus Ferreira da Silva, durante manifestação no Centro de Goiânia em 2017.

Para a magistrada, a documentação dos autos não permite afirmar que as lesões sofridas por Mateus Ferreira da Silva o incapacitaram para ocupações habituais por mais de 30 dias, o que configuraria lesão “grave”, e não “gravíssima”. Além disso, ela argumentou que não houve comprovação de um transtorno do nervo ótico causado pela agressão.

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“Apesar de o Assistente de Acusação [o advogado Bruno Pena] sustentar que houve deformidade duradoura (cicatriz e deformação na face devido à inserção de prótese craniana) e perda do sentido do olfato que, sob o seu ponto de vista, caracterizariam lesão gravíssima, os documentos/relatórios/exames médicos acostados aos autos não demonstram perda ou inutilização de membro, sentido ou função, tampouco comprovam incapacidade permanente para o trabalho. Ao contrário, (…) a documentação constante dos presentes autos permite a conclusão de ‘hipótese de transtorno do nervo ótico’ em um dos olhos (não sendo comprovada se decorrente da lesão sofrida) e incapacidade para ocupações habituais por mais de 30 dias”, apontou.

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Mateus antes da agressão (Foto: Reprodução)

Ela ainda afirmou que no dia do fato, Mateus estava em local “marcado por elevado grau de tensão, caracterizado por ambiente de intensa hostilidade e desordem generalizada, circunstâncias que demandavam, inclusive, a atuação de policiamento especializado, notadamente mediante operações de choque voltadas à contenção da grave perturbação da ordem pública”. Assim, ela observa que “a conduta do Acusado revelou-se juridicamente adequada ao estrito cumprimento do dever constitucional e legal, porquanto orientada à preservação da ordem pública, bem como à proteção da incolumidade das pessoas e do patrimônio”.

Flávia Morais também ressaltou que a vítima estava em agrupamento de pessoas mascaradas, com o rosto coberto, em meio à dispersão desordenada. “O cenário era de intensa pressão, com risco concreto à integridade física dos próprios policiais militares e de terceiros.”

Por fim, ao justificar a absolvição, ela afirma que o cassetete é um instrumento de menor potencial ofensivo, sendo utilizado sem “ânimo de produzir resultado lesivo”. Ou seja, utilizado para conter a “desordem”.

Ao Mais Goiás, Bruno Pena informou que irá recorrer. Ele lembrou, inclusive, que o Estado foi condenado a indenizar Mateus pelo ocorrido.

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(Foto: Reprodução)

Internação de Mateus

O universitário Mateus Ferreira ficou internado por 18 dias após ser atingido durante protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária propostas pelo então governo de Michel Temer (MDB). Com várias lesões, o estudante precisou ficar 11 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Urgências de Goiás (Hugo). Vários ossos que contornam o nariz foram refeitos e parte do osso frontal (testa) foi retirada, exigindo reconstituição cirúrgica das membranas que protegem o cérebro. O manifestante também teve a clavícula quebrada.

Já o militar chegou a ser afastado, mas depois promovido. O advogado Bruno Pena conseguiu reverter a promoção.