contradição

País que mais mata pessoas transsexuais, Brasil também lidera consumo de pornografia trans

Homens são mais propensos a buscar pornografia trans do que mulheres

O Brasil, que segue como o país que mais mata pessoas transsexuais no mundo, também aparece no topo do consumo de pornografia trans, segundo levantamentos de entidades de direitos humanos e relatórios de grandes plataformas de conteúdo adulto. A combinação desses dados expõe uma contradição social marcada por violência, hipocrisia e invisibilidade, que afeta diretamente travestis e mulheres trans em todo o território nacional.

De acordo com a nona edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil manteve a liderança no ranking global de assassinatos de pessoas trans, mesmo com uma leve queda no número de mortes registradas. O relatório, no entanto, alerta para o aumento das tentativas de homicídio, o que indica que a violência segue estrutural e persistente.

Entre os estados, Ceará e Minas Gerais lideraram os registros no último levantamento, com oito assassinatos cada. A Região Nordeste concentrou o maior número de casos, com 38 mortes, seguida pelo Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6).

O dossiê também mostra que a violência contra pessoas transsexuais ocorre majoritariamente fora das grandes capitais. Cerca de 67% dos assassinatos aconteceram em cidades do interior, enquanto 32% foram registrados nas capitais, reforçando a vulnerabilidade em regiões com menor acesso a políticas públicas e redes de proteção.

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Perfil das vítimas e vulnerabilidade social

A maioria das vítimas é composta por travestis e mulheres trans jovens, com maior incidência entre 18 e 35 anos. O levantamento aponta ainda que pessoas negras e pardas, em situação de vulnerabilidade social, são as mais atingidas, evidenciando o recorte racial e econômico da violência.

Brasil no topo do consumo de pornografia trans

Em contraste com os altos índices de violência, o Brasil também ocupa posição de destaque no consumo de pornografia trans. O primeiro ano em que o país apareceu como líder nesse tipo de busca foi 2016, segundo dados do RedTube. Desde então, o Brasil permanece entre os principais mercados de plataformas internacionais como PornHub, XVideos e o próprio RedTube.

Termos como “shemale”, “transgender”, “brazilian shemale” e “ladyboy” figuram entre os mais buscados globalmente. No Brasil, palavras como “travesti”, “travesti brasileira” e variações somam milhões de visualizações. Há registros de vídeos com mais de 1 milhão de acessos no RedTube, 20 milhões no PornHub e quase 50 milhões no XVideos.

Segundo o relatório do PornHub de 2023, a pornografia trans cresceu 75% nas pesquisas gerais, alcançando a sexta posição entre as categorias mais buscadas no mundo, uma colocação acima do ano anterior.

Quem consome pornografia trans

Dados demográficos de 2024 mostram que homens são 63% mais propensos a buscar pornografia trans do que mulheres. O interesse também aumenta com a idade: usuários entre 18 e 24 anos têm 31% menos probabilidade de realizar esse tipo de busca, enquanto pessoas com mais de 55 anos apresentam 20% mais chance.

Ainda segundo o PornHub, termos relacionados a transgênero representaram 1,97% de todas as buscas globais em 2024. Países como Argentina (4,1%), Brasil (3,42%) e Colômbia (3,11%) lideram o ranking proporcional de interesse.

Violência, consumo e contradição social

Especialistas e ativistas apontam que os dados revelam uma contradição profunda: enquanto pessoas transsexuais são alvo de violência extrema, seus corpos seguem altamente fetichizados no ambiente digital. O cenário reforça a urgência de políticas públicas, educação, combate à transfobia e proteção efetiva para uma população que segue sendo uma das mais vulneráveis do país.