JOÃO DO ROSÁRIO

‘Revivendo o pesadelo’: família de homem morto pelo ex-genro se prepara para o júri em Goiânia

Felipe Gabriel Jardim será julgado pela morte de João do Rosário Leão, que tinha 63 anos e foi assassinado por tiro

Passados 1.302 dias desde que matou a tiros o ex-sogro e policial aposentado João do Rosário Leão, de 63 anos, o ex-servidor da prefeitura de Goiânia Felipe Gabriel Jardim vai se sentar no banco dos réus nesta segunda-feira (19). Ao mesmo tempo em que alimenta a esperança de ver a justiça sendo feita, com a condenação de Felipe a muitos anos de prisão, parentes da vítima sofrem porque têm que reviver o pesadelo outra vez.

Em entrevista ao Mais Goiás, Kennia Yanka, filha de João e ex-namorada de Felipe, afirma que o júri obriga a família a recapitular “o pior dia de nossas vidas”.

“É muito difícil. Toda vez que tenho que reviver isso eu entro em pavor. Esses dias, o meu advogado precisou que eu achasse foto de determinado momento do namoro e eu tive que rever as coisas arquivadas. Depois daquilo eu não conseguia dormir. Tentava pegar no sono e ficava apavorada”, diz Kennia.

“É como se meu subconsciente tentasse me sabotar, porque me dá ansiedade, tristeza. Aquele dia [do crime] foi o pior da minha vida. É como se eu estivesse sentindo novamente”. Kennia afirma que será desafiador ter que depor no júri sob os olhares do ex-namorado criminoso. Ela lembra que, na tentativa anterior de se realizar o julgamento, houve um momento em que Felipe ao lado dela para ir ao banheiro e que a proximidade física lhe causou calafrios.

“Ter que olhar para ele no dia do júri me causa ansiedade. São noites sem dormir e choro que vem do nada quando penso meu pai e na possibilidade de o réu ter uma pena baixa”, complementa Kennia. Ela, as irmãs, a mãe e amigos estarão todos vestidos na porta do Fórum com uma camiseta com o rosto de João Leão. E, na hora de entrar para o plenário, trocarão por uma camiseta preta – mais adequada com regras de vestimenta da ocasião.

O crime

João do Rosário foi assassinado na farmácia que pertencia a ele. Em 2022, umas das filhas de João contou à imprensa que, no fim de semana anterior à tragédia, o suspeito ameaçou matar todos eles depois de uma discussão.

Logo depois de cometer o crime, Felipe telefonou para Kennia para avisá-la do que havia feito. “Ele ligou para dizer que matou meu pai e ia atrás de mim”, contou ela na época. A vítima chegou a ser levada para o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), mas teve o óbito confirmado por volta das 13h.

Remarcação do júri

A primeira tentativa de se realizar o júri de Felipe Gabriel Jardim aconteceu no dia 15 de outubro de 2025, mas fracassou porque uma das juradas passou mal e foi levada para o hospital.

O júri foi marcado pelo tom que os advogados de defesa de Felipe Gabriel Jardim usaram para interrogar Kennia Yanka, que, além de filha de João é também ex-namorada do réu. Emanuel Rodrigues, advogado que representa a família na época, considera que as perguntas tinham o único objetivo de constrangê-la e deveriam ter sido impedidas pelo juiz. Perguntaram, por exemplo, se ela saberia dizer quais bens herdaria com o falecimento do paí; se usava drogas; e se havia conhecido Felipe em um motel.

“Se não fosse a forma como os trabalhos foram conduzidos, o júri jamais teria tido o fim que teve no dia 15 de outubro, com uma jurada passando mal. O que a família do João quer não é favorecimento por parte de ninguém, é isenção na condução dos trabalhos”, afirma Emanuel.

Kennia Yanka afirmou ao Mais Goiás, na época, que havia recebido com alívio a notícia da remarcação do júri: “eu me sinto aliviada por já ter uma data, porque achei que a gente ia ficar angustiada esperando que ele marcasse uma data por um tempo, e depois ainda esperar para que a data chegasse. Mas acabou sendo rápido e agora é aguardar esses três meses para que chegue o dia”.

Saúde mental de Felipe

O trâmite processual que vai do fim do inquérito policial até a primeira tentativa de se julgar Felipe Gabriel durou três anos e quatro meses. A maior parte desse tempo decorrido foi gasta com discussões sobre o quadro de saúde mental do réu.

O incidente de sanidade foi aberto pelo juiz Antônio Fernandes de Oliveira a pedido da defesa do autor do crime, e logo depois de recepcionada a denúncia do Ministério Público. O laudo da junta médica do Tribunal de Justiça concluiu que Felipe tem “sintomas sugestivos de transtorno hipercinético possivelmente associado a transtorno mental devido à disfunção cerebral”. Destacou ainda que ele tem “propensão à desorganização psíquica, tanto na sensopercepção, quanto no juízo de responsabilidade, o que aponta para maior probabilidade de episódios depressivos com sintomas psicóticos”.

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