Sedentarismo é responsável pela morte de mais de 5 milhões de pessoas por ano em todo o mundo
Estudo mostra que cerca de 30% dos adultos e 80% dos adolescentes não cumprem as diretrizes de atividade recomendadas pela OMS

Via O Globo – Fazer atividade física é importante. Ela ajuda a fortalecer o sistema imunológico, reduz o risco de doenças infecciosas, diminui sintomas de depressão e está associada a melhores resultados no tratamento do câncer. Porém, uma grande parcela da população global não a faz e os níveis globais não melhoraram nas últimas duas décadas.
As conclusões são de três artigos publicados nas revistas Nature Medicine e Nature Health, mostrando que, apesar do amplo desenvolvimento e adoção de políticas públicas, os esforços atuais para promover a participação em atividade física são insuficientes e que ações coordenadas são necessárias para garantir que a atividade física contribua para a saúde pública e para objetivos sociais mais amplos.
Segundo os estudos, cerca de um em cada três adultos e oito em cada dez adolescentes não cumprem as diretrizes de atividade recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — que incluem 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada para adultos e 60 minutos diários para crianças.
Estima-se ainda que mais de cinco milhões de pessoas no mundo morrem todos os anos por sedentarismo.
Um dos artigos, escrito pela pesquisadora especializada na área de atividade física e saúde pública, Deborah Salvo, faz um levantamento sobre dados de atividade física de 68 países ao redor do mundo — como: Austrália, Brasil, China, França, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido e EUA — e encontrou desigualdades persistentes nas formas como as pessoas são fisicamente ativas.
O acesso ao lazer ativo, como exercícios recreativos — o único tipo de atividade consistentemente motivado por escolha — foi 40 pontos percentuais maior entre grupos socialmente favorecidos (homens ricos em países de alta renda) do que entre grupos menos favorecidos (mulheres pobres em países de baixa renda). Em contrapartida, atividades físicas motivadas por necessidades econômicas (como ficar horas de pé no transporte público, correr para não se atrasar e até mesmo trabalhos físicos) foram mais comuns em populações desfavorecidas.
O artigo ainda usa dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do Brasil como exemplo de desigualdade em atividade física. No país:
- Há 9 pontos percentuais de diferença entre homens e mulheres que realizam atividade física.
- 13,4 pontos percentuais entre os mais ricos e os mais pobres.
- 2,2 pontos percentuais entre pessoas brancas e pessoas pretas/pardas.
- 26,6 pontos percentuais entre pessoas com alta e baixa escolaridade.
De modo geral, pessoas com mais escolaridade e renda tendem a praticar muito mais atividade física. O Brasil ainda aparece outras vezes nos três artigos como um dos polos mundiais de pesquisa em atividade física e saúde pública. Foram mais de 10 cientistas e pesquisadores brasileiros que fizeram parte da equipe internacional que estuda atividade física, saúde pública e desigualdades globais. Entre as universidades e instituições brasileiras citadas estão:
- Universidade Federal de Pelotas (UFPel) – citada diversas vezes, inclusive em programas de pós-graduação em epidemiologia.
- Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) – programa de pós-graduação em tecnologia em saúde.
- Universidade Estadual de Londrina – departamento de arquitetura e urbanismo.
Outros artigos
Em outro artigo, publicado na revista Nature Health, os pesquisadores mostraram que a atividade física pode contribuir para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Eles explicam que estratégias que incentivem caminhadas, ciclismo e maior uso de transporte público em vez de carros podem reduzir emissões.
Segundo os autores, liderados pela pesquisadora Erica Hinckson, comunidades fisicamente ativas tendem a ser mais resilientes a crises climáticas, como ondas de calor, desastres naturais e interrupções urbanas.
Porém, há quatro grandes obstáculos globais: impactos desiguais, falta de acesso a locais seguros (ciclovias, parques, calçadas), falta de conexão entre ciência, políticas públicas e prática, além de consequências não intencionais, como o fato de que mudanças climáticas podem prejudicar a prática de atividade física, por causa de eventos como ondas de calor extremas.
Como solução, os pesquisadores acreditam que deve haver uma estratégia ampla de sustentabilidade em saúde, transporte, urbanismo, educação e meio ambiente.
No último artigo divulgado, publicado também pela revista Nature Health, os pesquisadores avaliaram 661 documentos de políticas nacionais para promoção da atividade física em 200 países, entre 2004 e 2025.
Eles descobriram que, embora a maioria dos países tenha desenvolvido e adotado políticas de atividade física, as evidências de implementação permanecem limitadas.
256 (38,7%) das 661 políticas analisadas atribuíram ações a três ou mais setores do governo (incluindo, por exemplo, saúde e educação), indicando falta de colaboração intersetorial mais ampla.
Enquanto 53 (26,5%) países com documentos de política pública não incluíram metas mensuráveis para determinar o impacto dessas políticas. Como resultado, os pesquisadores afirmam que é necessária uma prioridade política para a atividade física como uma barreira importante para a implementação.
Os participantes deste último artigo ainda afirmaram que a atividade física continua sendo enquadrada como um comportamento individual de saúde, em vez de um problema sistêmico.
Como solução, o estudo recomenda construir consenso nas políticas públicas, ampliar o reconhecimento dos benefícios da atividade física, clarificar a liderança multissetorial e fortalecer parcerias além dos setores tradicionais da saúde.