'CABINE MUSICAL

Saxofonista cria proteção plástica para fugir da covid e tocar na rua da Bahia

O saxofonista Delmar Teixeira, 39, tem chamado a atenção não só pelo repertório de clássicos…

O saxofonista Delmar Teixeira, 39, tem chamado a atenção não só pelo repertório de clássicos internacionais e da MPB que leva às ruas de Salvador. Para voltar a tocar publicamente e não se expor ao vírus, que já vitimou uma parente sua, o baiano precisou se reinventar: criou uma indumentária anti-covid e chamou a bolha de plástico de “cabine musical”.

Ao UOL, Delmar conta que a ideia surgiu quando entrou no quarto mês de isolamento sem trabalho e as “coisas começaram a apertar” para ele, o filho pequeno e a esposa grávida, que moram na cidade de Ubaíra (a 270 km da capital baiana).

Mesmo no interior, onde o custo de vida é mais baixo, a nossa reserva já estava acabando naquela coisa de tirar sem repor. Foi quando eu vi que precisava voltar a tocar nas ruas, mas sem o risco de me contaminar
Delmar Teixeira, saxofonista

Delmar criou uma proteção que combinava a base de um guarda-chuva acoplado a uma mochila. Não deu certo: a invenção não sobreviveu à força do vento. Ele então improvisou com objetos que encontrou em casa.

“Peguei uns tubos e conexões de PVC, madeira e plástico. Fui adaptando, ajustando, prendendo nas pontas. Foram vários testes em casa, várias simulações, tocando mesmo. Quando testei na rua, o vento atrapalhou um pouco. Mas aí foi fácil de resolver”, explica o saxofonista.

Dentro da “cabine musical”, criada há oito meses, o músico diz que passou a atrair não só a atenção de apreciadores de música instrumental mas também os olhares de curiosos.

Muita gente, além de colaborar com dinheiro, deixa mensagens, bilhetes, palavras de incentivo e, claro, muitos pedidos de música e registro de fotos.
Delmar Teixeira, saxofonista

Demissão para se dedicar à música

Músico há 15 anos iniciado no violão, Delmar já tocou na banda de Ludmillah Anjos, cantora da temporada de 2012 do programa “The Voice Brasil“, da TV Globo. O apreço pelo saxofone só veio em 2016, quando trabalhava numa loja de material de construção e resolveu se aprofundar em outro instrumento.

Ele investiu no aparelho um dinheiro que não tinha, gostou e logo depois pediu demissão. “Foi um pouco duro. Trabalhar numa casa de material de construção não era o que eu queria. Um certo dia me bateu uma louca e acertei minha saída com o patrão. Não era a minha trabalhar com isso”, disse.

Como já conseguia fazer algum dinheiro tocando violão a céu aberto todas as vezes que ia a Salvador, resolveu abraçar o hobby e virou artista de rua.

Hoje, além de tocar na capital, Delmar faz apresentações em destinos turísticos como Morro de São Paulo, distrito de Cairu, e no calçadão de Valença, ambos no baixo sul baiano. “Trabalhava dois dias na semana e tirava mais do que trabalhando um mês com algo que eu não gostava.”

Ao abdicar do emprego formal, o saxofonista diz que também levou em conta ele e a esposa, professora de dança formada pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), prezarem que os filhos cresçam em um ambiente ligado à arte.

Autodidata, Dalmar tem no repertório ícones do jazz que busca inspiração. Entre os mais admirados estão os saxofonistas norte-americanos James Carter, Eric Marienthal e John Coltrane (1926-1967). Fora isso, atende a pedidos.

Mesmo dentro da engenhoca, o saxofonista garante não descuidar do uso de álcool em gel e da máscara facial. O cuidado redobrado, diz ele, não é à toa.

“Em junho do ano passado, eu perdi uma prima de apenas 30 anos. Foram 20 dias de grande sofrimento para a família, porque você não tem contato com a pessoa, só recebe uma informação sobre o estado dela. No dia 21, um domingo, às 5h da manhã veio a pior notícia”, relembra.

O saxofonista entende que, como ele, muita gente não pode ficar em casa. Por isso, pede que as pessoas se resguardem. Enquanto a pandemia não acaba, Delmar até aceita apresentações —desde que seja respeitado o distanciamento social, como aniversários-serenata ou em carreatas.