LEVANTAMENTO

A cada três horas, um cigarro eletrônico é apreendido pela Receita Federal em Goiás

Goiás foi o 6º Estado com o maior número de vapes apreendidos no Brasil, em 2025

Na rota do tráfico de drogas, Goiás também entrou na mira do contrabando de cigarros eletrônicos pela localização geográfica. Apenas neste ano (entre janeiro e fevereiro), a Receita Federal retirou de circulação um vape a cada três horas durante fiscalizações em solo goiano. 

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O valor dos 440 aparelhos apreendidos chega a R$ 18,3 mil, de acordo com levantamento do órgão. No ano passado, o número de apreensões envolvendo vapes, essências e peças chegou a 36,2 mil — média de 99 por dia. Juntos, todo o material chegou à bagatela de R$ 2,3 milhões. 

O número elevado de aparelhos fez com que Goiás ocupasse o 6º lugar no ranking nacional de Estados com a maior quantidade de cigarros eletrônicos apreendidos no ano passado. O Estado perde apenas para Paraná, Distrito Federal, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina.

Embora populares entre jovens, o cigarro eletrônico tem a venda proibida no Brasil desde 2009. Buscando burlar a lei, os criminosos, inclusive, tendem a usar as mesmas rotas usadas por narcotraficantes, de acordo com a Receita Federal.

“Goiás é corredor de passagem entre Paraguai e as regiões Norte e Nordeste do país, além de ter o seu próprio mercado consumidor. A atuação constante da Receita Federal e dos demais órgãos policiais e de fiscalização também colabora para os números das apreensões desse tipo de produto”, explica o auditor-fiscal e chefe da Seção de Repressão ao Contrabando e Descaminho (Sarep), Guilherme Renovato.

Essências de cigarro eletrônico – (Foto: reprodução/Agência Brasil Central)

As principais vias utilizadas pelos contrabandistas são BR-364, BR-153 e BR-060. No entanto, há também caminhos realizados por ônibus, caminhões e carros em rodovias estaduais, as GOs. Além da entrada pelas fronteiras terrestres, os vapes também chegam ao Brasil por meio dos portos, principalmente no Nordeste e no Porto de Santos, conhecido por ser um dos principais pontos de envio de cocaína à Europa. 

Conforme Guilherme, o comércio ilegal de vapes está em ascensão, já se aproximando de R$ 7,7 bilhões em impacto fiscal a nível nacional, de acordo com dados de 2024. No entanto, ainda está longe do mercado paralelo dos cigarros tradicionais, que ainda é maior em prejuízo total, na casa dos R$ 10,5 bilhões.

“Não existe um único perfil, o mercado ilegal é altamente fragmentado, descentralizado e multicanal. O comércio é abastecido por organizações criminosas, mas a revenda é realizada por uma ampla rede de intermediários, incluindo lojistas formais, vendedores informais e canais digitais. No topo da cadeia, quem mais importa e distribui são grupos criminosos estruturados, semelhantes aos que atuam no contrabando de cigarros tradicionais, mas com maior flexibilidade logística devido ao volume reduzido dos produtos”, reforça. 

Combate

O comércio desenfreado e a popularização dos vapes faz com que a integração entre as forças de segurança estaduais e federais seja crucial para inibir a ação criminosa. Em Goiás, as principais forças de combate ao contrabando desses produtos são a Receita Federal, Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Militar (PM) e a Polícia Civil (PC), além da Polícia Federal (PF)

No último dia 20, inclusive, a PF apreendeu 200 aparelhos introduzidos no país de forma clandestina. Uma pessoa acabou presa em flagrante por contrabando, cuja pena pode variar entre dois a cinco anos de prisão.

“Atualmente, as principais ocorrências de apreensões de cigarros eletrônicos em Goiás são em abordagens de veículos nas rodovias e em cargas transportadoras. Estão muito associados à venda pela internet e canais digitais, o que explica as constantes apreensões desses produtos em transportadoras, as quais são usadas para o escoamento dessa carga”, afirma Guilherme.

Vapes apreendidos pela Polícia Federal – (Foto: divulgação/PF)

Riscos à saúde

O vape pode ser a porta de entrada para o tabagismo, fazendo com que a pessoa possa vir a travar uma batalha contra a dependência química da nicotina. Os dispositivos têm tecnologia simples: uma bateria permite esquentar o líquido que, em geral, é uma mistura de água, aromatizante alimentar, nicotina, propilenoglicol e glicerina vegetal.

Eles aquecem a nicotina em vez da combustão dos cigarros comuns. O pneumologista, Matheus Rabahi, conta que o eletrônico tem toxicidade maior do que a do cigarro convencional, devido a forma como é produzido o aerossol inalável, frequentemente confundido com “vapor de água”. Ele também lista:

  • Superdose de nicotina: a absorção é rápida e silenciosa, o que pode levar a quadros de taquicardia, náuseas, hipertensão, insônia, ansiedade e até convulsões;
  • Toxicidade dos flavorizantes e solventes: muitas substâncias utilizadas não têm segurança comprovada para inalação crônica — como o diacetil (ligado à bronquiolite obliterante) e o acetato de vitamina E (relacionado à EVALI);
  • Exposição contínua: diferentemente do cigarro, que é consumido em momentos pontuais, o vape pode ser usado repetidamente ao longo do dia, mantendo o cérebro em constante hiper estimulação dopaminérgica;
  • Falta de regulamentação e controle de qualidade: muitos dispositivos são importados de forma irregular ou falsificados, com rotulagem inconsistente e presença de contaminantes perigosos.
Cigarros eletrônicos são febre entre jovens – (Foto: reprodução/Agência Brasil Central)

Além disso, um vape de 2 mL com 50 mg/mL de nicotina (100 mg de nicotina total) equivale a dois a três maços de cigarro, dependendo da taxa de absorção. Ou seja, um adolescente que consome dois pods por semana pode estar inalando nicotina equivalente de quatro a seis maços de cigarro — mesmo sem nunca ter acendido um cigarro convencional.

“O cigarro tradicional contém nicotina natural do tabaco, alcatrão (resíduo da queima), monóxido de carbono, amônia e metais pesados. O vape utiliza uma solução líquida com nicotina (em sais ou forma livre, muitas vezes em concentração elevada), propilenoglicol e glicerina vegetal (formadores do aerossol), aromatizantes e flavorizantes (como diacetil, associado à bronquiolite obliterante), além de impurezas metálicas oriundas da resistência do aparelho (níquel, estanho, chumbo)”, detalha.

O cigarro eletrônico surgiu como uma promessa de ajudar pessoas que eram viciadas em cigarros a parar de fumar, mas fez com que pessoas que não tinham contato com o tabagismo começassem a consumir a substância por meio do equipamento. Já entre adolescentes e jovens, o pneumologista associa a popularidade dos vapes ao resultado de uma combinação de fatores cuidadosamente explorados pela indústria:

  • Marketing direcionado com sabores doces e atrativos (frutas, baunilha, chiclete), que aumentam a palatabilidade e mascaram o gosto amargo da nicotina;
  • Design elegante, moderno e facilmente ocultável, muitas vezes semelhante a pen drives;
  • Falsa percepção de segurança — muitos jovens acreditam que é “só vapor de água”: o aerossol do vape contém substâncias tóxicas, irritantes e potencialmente cancerígenas;
  • Facilidade de uso: sem cheiro persistente, sem necessidade de acender, e com pouca produção de resíduos, favorecendo o uso escondido em ambientes escolares.

“Há doenças pulmonares relacionadas  ao uso do vape como o EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de produtos de vaping), bronquiolite obliterante (doença do pulmão de pipoca), pneumonite química ou lipídica, exacerbação de asma ou DPOC devido à irritação crônica das vias aéreas. Também há doenças cardiovasculares, neurológicas e psiquiatras”, concluiu. 

Imagem ilustrativa de homem fumando – (Foto: reprodução/Agência Brasil Central)