Do fascínio ao comando: bombeiro que sonhava com a farda na infância inspira crianças em Caldas Novas
À frente do batalhão em Caldas Novas, tenente-coronel que participou de projeto mirim quando criança agora lidera ações para formar futuros bombeiros

O atual comandante do 9º Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás em Caldas Novas, Daniel Batista, transformou em realidade o sonho que surgiu na vida dele ainda na infância: vestir a farda e salvar vidas. Mais de duas décadas após entrar para a corporação, ele lidera operações, coordena equipes e participa de projetos voltados justamente a crianças que desejam seguir o mesmo caminho.
Segundo o comandante, a paixão surgiu cedo, influenciada pela história do pai, que passou a integrar a corporação quando o Corpo de Bombeiros se desvinculou da Polícia Militar após a Constituição de 1988. “Desde pequeno, eu passei a conhecer e admirar a profissão. Meu pai entrou na instituição naquele começo, quando ainda faltava muita estrutura. Ele se especializou em operações com produtos perigosos e acabou adoecendo após uma ocorrência. Eu vi de perto as dificuldades que ele enfrentou, mas, mesmo assim, aquilo não afastou minha vontade. Pelo contrário, só reforçou o sentimento que eu tinha pelo bombeiro”, explica.
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Brincadeira que virou coisa séria
Ele conta que a admiração era tão intensa que virou parte das brincadeiras de infância. “Eu acompanhava cada viatura que chegava ao quartel, fazia perguntas, queria saber de tudo. Em casa, eu improvisava equipamentos: transformava tábua em prancha de resgate, papelão em colar cervical. Eu realmente vivia aquilo”. As brincadeiras, entretanto, logo se transformaram em possibilidade de carreira, com a entrada de Daniel no programa educacional Bombeiro Mirim.

“Um dos amigos do meu pai, o capitão Franco, que era comandante dos bombeiros em Caldas Novas, criou o programa aqui Goiás, inspirado em modelos de outros estados. Naquela época era um pouco diferente do que é hoje, acontecia durante as férias escolares. As crianças iam para dentro do quartel e passavam o mês aprendendo primeiros socorros, noções de combate a incêndio, amarrações, civismo e cidadania”.
Na época, o ingresso surgiu após um convite do capitão Franco. “Como meu pai estava passando dificuldades longe da família, com quatro filhos pequenos, esse capitão disse: ‘deixa eu levar dois dos seus filhos que já têm idade’. Fomos eu e meu irmão. Nós fizemos o Bombeiro Mirim em Caldas Novas e até hoje guardo com muito orgulho o certificado e a camiseta. Essa experiência evidenciou ainda mais minha vocação e o desejo de ser bombeiro”.

O episódio que definiu o destino
A certeza de que seguiria a carreira veio na adolescência, por volta dos 16 anos, depois de prestar os primeiros-socorros a uma familiar, na época com 2 anos de idade. “Uma prima pequena caiu na piscina e foi retirada desacordada. Eu ouvi a gritaria, corri e coloquei em prática o que tinha aprendido no bombeiro mirim. Fiz ventilação de emergência e ela voltou a respirar. Depois meu tio disse que a médica afirmou que aquilo salvou a vida dela. Aquilo me marcou profundamente. Foi o momento em que tive convicção de que era isso que eu queria para minha vida”, relata o Tenente-Coronel.
Conquista da farda
O ingresso na carreira exigiu preparação intensa. O processo seletivo oferecia poucas vagas e cobrava alto desempenho físico e intelectual. “O concurso era muito concorrido. Exigia dedicação integral aos estudos e preparo físico. E a formação depois testa a gente em situações de estresse, justamente para desenvolver equilíbrio emocional e capacidade de decisão”.
Durante os primeiros anos de atuação, ele encontrou outras referências profissionais que moldaram sua visão de missão. Entre elas, o major Leonardo Castro.

“Pessoas precisam de carinho”
Naquela época em que ingressou a carreira, Daniel ressalta que o batalhão possuía poucas viaturas. Por isso, era comum que bombeiros passassem o dia nas ruas, atendendo uma ocorrência na sequência da outra. Ele relembra as primeiras lições que obteve, as quais ainda guarda consigo.
“Toda vez que levávamos uma vítima ao hospital, quando voltávamos lá depois, ele [major Leonardo] fazia questão de passar para saber como aquela pessoa estava. Se visse alguém numa maca no corredor aguardando atendimento, ele mesmo ajudava a encaminhar. E ele sempre me dizia: ‘as pessoas precisam de atenção, precisam de carinho’. Aquilo me marcou profundamente, porque mostrou na prática que salvar vidas também é cuidar, acolher e ter empatia”, conta o comandante Daniel Batista.
Ocorrências que marcam
Mesmo após anos de experiência, o bombeiro explica que algumas situações continuam difíceis de enfrentar. “As ocorrências mais pesadas são aquelas envolvendo crianças. Existe um sentimento muito forte de querer fazer algo e, às vezes, já não é possível. Isso marca a gente e fica na memória”.
Ainda assim, ele afirma que a motivação permanece a mesma de quando era menino. “A profissão é exatamente aquilo que eu sonhava. O que sustenta o bombeiro não é só salário ou estabilidade, é o propósito. Quando você entende que está ali para salvar vidas, tudo ganha sentido”.
De aluno a exemplo
Hoje, no comando do Batalhão de Caldas Novas, na região Sul de Goiás, Daniel participa de ações educativas e acompanha projetos com jovens interessados na carreira. Para ele, ver o entusiasmo das crianças é como voltar ao passado. “Quando a gente vê o brilho nos olhos delas, percebe que pode ser inspiração. Muitas pensam: se ele conseguiu, eu também posso. Isso é muito gratificante.”
Em casa, o reflexo já aparece. O filho mais novo demonstra interesse pela profissão brincando de militar e se vestindo como bombeiro.
“Minha filha mais velha ainda não se decidiu, fala de outras profissões. Já o meu filho mais novo, de 7 anos, demonstra uma vontade muito grande de ser militar. Ele tem admiração pelo militarismo em geral e pelo bombeiro também. Às vezes veste a roupinha de bombeiro, vem até mim, presta continência e diz ‘papai, ordem’. Tem dias que quer ir pra escola vestido assim. Quando vem ao quartel então, fica totalmente à vontade, anda pra todo lado, quer ver as viaturas e pergunta sobre cada uma. Ele tem essa ligação bem evidente, e pra mim é muito marcante ver isso, porque de certa forma me vejo nele”, expressa o comandante.
Sonho de infância pode virar profissão
Para crianças e adolescentes que desejam seguir o mesmo caminho, Daniel deixa um conselho direto:
“Se esse é o seu sonho, estude, cuide da saúde e mantenha o foco na essência da missão, que é servir ao próximo. Não se prenda a fatores externos. Se a motivação for verdadeira, você vai encontrar forças para chegar lá”, diz.
Para o comandante, a trajetória representa mais do que realização pessoal, é a prova de que vocação, disciplina e propósito podem transformar um sonho de infância em missão de vida.
