HISTÓRICO DE PERSEGUIÇÃO

Caso Daiane: Antes do crime, síndico foi denunciado por ofensas em disputa por cargo no condomínio

Conflito pela presidência de associação de moradores terminou em processo judicial movido pela ex-presidente e condenação por danos morais

Antes de se tornar o principal suspeito pela morte da corretora Daiane Alves de Souza, o síndico Cléber Rosa de Oliveira já havia se envolvido em uma série de conflitos judiciais no Condomínio Golden Thermas, em Caldas Novas. Um desses embates ocorreu durante uma disputa pela presidência da associação de moradores em julho de 2018 e resultou em denúncia por ofensas contra a então presidente da entidade, Maria (nome fictício).

Segundo registros judiciais, Maria registrou um boletim de ocorrência após passar a ser alvo de áudios e mensagens enviadas por Cléber em grupos de WhatsApp do condomínio. Nas mensagens, ele acusava a diretoria de desvio de dinheiro, chamava os integrantes de “quadrilha” e “bandidos” e ameaçava levar o caso à imprensa. As ofensas, de acordo com a denúncia, começaram após Cléber não ter sido escolhido para assumir a presidência da associação.

Em depoimento para polícia, o síndico contou que comprou um apartamento no condomínio ainda na planta, em 2013, e que passou a integrar a associação criada pelos moradores para concluir as obras do empreendimento. Em julho de 2018, uma assembleia foi realizada para escolher a nova diretoria. Segundo ele, Maria foi eleita presidente sem a formação de chapas e com poucos participantes. Mesmo frustrado, em 2019, Cléber assumiu o cargo de diretor de obras.

Perseguição

A relação se rompeu quando o síndico passou a questionar a prestação de contas da associação. Ele alegou ter identificado supostos desvios de recursos para a conta pessoal da presidente, acusação que foi negada por ela. Maria apresentou à Justiça documentos e atas que apontam que os valores foram usados para pagamento de engenheiros, contratação de prestadores de serviços, compra de materiais e aluguel de equipamentos necessários para finalizar a obra do condomínio.

Após os questionamentos, as críticas de Cléber se tornaram públicas e frequentes. A presidente reuniu áudios com xingamentos e acusações e apresentou o material para Justiça. Testemunhas confirmaram que o síndico se referia à diretoria como corrupta e criminosa. Uma dessas testemunhas era Nilse Alves, mãe da corretora assassinada que também integrava a diretoria na época. Mesmo intimado, ele não apresentou provas das denúncias nem compareceu a todas as convocações judiciais.

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Em 2022, a Justiça entendeu que houve ofensa à honra e condenou Cléber a pagar R$ 3 mil por danos morais à presidente. Como o valor não foi pago, a defesa da mulher pediu a atualização da quantia para R$ 3.472 com juros. O Judiciário determinou que Cléber fosse intimado para quitar a dívida em até 15 dias, sob pena de multa adicional ou penhora de bens.

Durante o processo, houve tentativa de acordo. Maria chegou a aceitar receber R$ 1 mil parcelado, desde que Cléber fizesse uma retratação formal por escrito aos moradores do condomínio. A proposta não avançou e o caso seguiu na Justiça.

E-mail sem conteúdo

Em carta enviada ao juiz, Cléber alegou dificuldades financeiras, disse que não tinha condições de contratar advogado e afirmou que nunca ofendeu a então presidente. Ele também declarou que teria sido prejudicado por problemas de internet durante uma audiência virtual e pediu que a condenação fosse anulada ou convertida em serviços comunitários. Os pedidos foram negados.

A decisão judicial foi mantida, incluindo a determinação de retratação pública. No entanto, conforme o processo, o síndico chegou a enviar um e-mail aos moradores sem conteúdo, o que foi interpretado como descumprimento da ordem.

Segundo os autos, o processo ainda não foi finalizado.

Preso por matar corretora

O histórico de conflitos, acusações e disputas internas no condomínio agora volta à tona após a prisão do síndico, que confessou ter matado e ocultado o corpo da corretora Daiane Alves de Souza, caso que segue sob apuração.

Daiane Alves de Souza estava desaparecida desde 17 de dezembro de 2025, quando foi vista pela última vez ao entrar no subsolo do prédio onde morava, em Caldas Novas. Na quarta-feira (28), a Polícia Civil encontrou o corpo dela em uma região de mata no município. Além do síndico, o filho dele, Maycon , foram presos. A defesa do suspeito afirma que ainda vai analisar se a confissão dele foi feita de forma voluntária ou sob algum tipo de coação.