POUCO ANTES DO CRIME

Corretora enviou à amiga últimos vídeos antes de ser morta em condomínio de Caldas Novas

Uma terceira gravação começou a ser registrada, mas não foi enviada

A auxiliar administrativa Giorgiana dos Passos, amiga da corretora Daiane Alves Souza, de 43 anos, foi a última a receber vídeos da mulher, que desapareceu em 17 de dezembro e teve o corpo encontrado em 28 de janeiro em uma região de mata de Caldas Novas. Na gravação recebida pelo Mais Goiás nesta segunda-feira (2), a vítima reclama da luz cortada. “Todas as minhas contas estão pagas.”

A gravação mostra a corretora andando pelo corredor. Ela mostra que há energia no corredor e o padrão está ligado. “Vou lá [no subsolo] ver se desligaram meu padrão”, diz em trecho de um dos vídeos. Em outro, ela chama o elevador. “Vamos ver o que está acontecendo. Se foi igual ontem, igual tem sido esses cortes repentinos.”

Ela encontra outro morador no elevador e explica que faz a filmagem, pois alguém tem desligado a energia dela no padrão, no subsolo. “Deve ter menino aqui, né?”, ironiza. “Vou na recepção perguntar se a Equatorial veio aqui, pois todas as minhas contas estão pagas.” Já na recepção, ela chama o porteiro e o vídeo acaba.

O síndico Cléber Rosa Oliveira, de 49 anos, é acusado de matar a corretora e está preso, assim como o filho dele, Maicon Douglas. Em nota, a defesa informou que ele “respondeu a todas as indagações formuladas e segue contribuindo com as investigações”.

Já os advogados do filho do síndico reforçaram que Cléber confessou o crime sem auxílio ou conhecimento de Maicon. “Durante o interrogatório, o investigado [filho do síndico] respondeu a todos os questionamentos de forma transparente e satisfatória, colaborando ativamente com a elucidação dos fatos e negando veementemente qualquer participação no trágico evento”, reforçou a defesa. Os juristas esperam que o cliente seja colocado em liberdade “o mais breve possível, garantindo o respeito às garantias constitucionais e à verdade real”.

Amiga

Giorgiana e Daiane eram amigas há seis anos. No data do crime, elas pouco conversaram, mas no dia anterior, elas falaram bastante. “A Daiane me contou que o síndico tinha voltado a cortar a energia dela e que ela ia juntar provas para fazer um boletim de ocorrência”, revela.

Segundo a amiga, que hoje vive em Uberlândia, em 17 de dezembro, a corretora enviou o primeiro vídeo às 18h56 e o segundo às 18h59. Após as 19h, ela gravava o terceiro mais foi interrompida. “Dava para ver pelo WhatsApp que ela fazia a gravação.” Giorgiana acredita que o ataque aconteceu neste momento. “19h19 eu mandei outro áudio, mas ela não visualizou. No dia 18, quando a mãe dela me procurou, já preocupada, eu enviei uma mensagem que não chegou. Não tinha sinal.” A família, então, foi à Delegacia de Polícia Civil.

Ela revela que já acompanhava a situação de conflito entre os dois desde 2024. O síndico teria rompido com Daiane após ela insistir em alugar um apartamento, a pedido da proprietária, contra a vontade dele. “Ele não sabia lidar com ‘não'”, ressalta. “Era comum ele tentar atrapalhar os negócios dela, cortando energia, gás, internet e água nos imóveis que ela alugava.”

Para a auxiliar administrativa, Daiane era amiga de todas as horas. “Sempre presente, preocupada com todos. Gostava de reunir os amigos.” De acordo com ela, após a confirmação da morte, ela não conseguiu falar com ninguém por, pelo menos, dois dias. Agora, ela e outros amigos da vítima apoiam como podem a família da corretora. “A mãe dela está muito chateada, pois nunca imaginou que uma pessoa, que deveria ser de confiança, fosse capaz de fazer isso.”

42 dias do desaparecimento às prisões

Em 28 de janeiro, a Polícia Civil prendeu, durante a madrugada, o síndico Cléber Rosa de Oliveira e o filho dele, Maicon Douglas, no âmbito da investigação por homicídio. Um porteiro do prédio também foi levado para prestar esclarecimentos. Pai e filho passaram por audiência de custódia na quinta-feira (31), quando a Justiça decidiu manter as prisões. Somente após a decisão judicial, os dois prestaram depoimento. Cléber afirmou que teria agido sozinho, porém a Polícia Civil sustenta que Maicon tentou atrapalhar as investigações e colaborou para a destruição de provas.

Daiane desapareceu no dia 17 de dezembro, após descer até o subsolo para tentar restabelecer a energia do próprio apartamento, que, segundo a investigação, teria sido desligada pelo síndico para forçá-la a ir até a garagem. A polícia aponta que a vítima e Cléber já tinham um histórico de conflitos, perseguição e episódios de violência. Antes de descer, Daiane gravou vídeos mostrando o imóvel sem energia e enviou as imagens a uma amiga. No dia seguinte, a mãe da corretora, Nilze Alves, não a encontrou no apartamento, dando início às buscas.

A ossada da vítima foi localizada 42 dias depois, em uma área de mata às margens da GO-213, entre Caldas Novas e Ipameri, a cerca de 15 quilômetros de onde Daiane morava, e identificada por exame de DNA. Agora, a perícia trabalha para determinar se houve disparos de arma de fogo, como o crime foi cometido e confirmar a dinâmica do assassinato.

Conforme fontes ligadas ao inquérito ao Mais Goiás, o corpo de Daiane tinha uma bala alojada na cabeça. A presença do projétil no crânio da vítima passou a ser o principal ponto de confronto técnico com o depoimento prestado por Cléber Rosa de Oliveira. Em sua oitiva, o síndico afirmou que discutiu com Daiane no subsolo do condomínio e que, durante o embate, efetuou o disparo que teria provocado a morte da corretora.

No entanto, os primeiros levantamentos da perícia técnico-científica não identificaram vestígios de sangue, marcas de impacto ou qualquer outro indício físico compatível com um disparo de arma de fogo no local apontado por ele. A ausência desses elementos levantou suspeitas de que o tiro pode não ter sido efetuado no subsolo do prédio, como relatado.

Legítima defesa

A primeira versão oficial do síndico Cleber Rosa sobre a morte da corretora Daiane Alves, em Caldas Novas, é de que ele teria agido em legítima defesa. A declaração, segundo informações de fontes ligadas à investigação, consta no inquérito da Polícia Civil sobre o caso. A alegação do assassino confesso é de que ele estava no subsolo do condomínio por acaso, dentro do Almoxarifado, quando a vítima teria aparecido.

No relato, o síndico afirmou que o padrão de energia fica próximo da porta do depósito e que, ao chegar para religar os disjuntores, Daiane teria aparecido com abordagem agressiva. A partir de então, nas palavras dele, ambos teriam entrado em uma luta corporal, a qual terminou com o disparo que atingiu a mulher. A versão, no entanto, vem sendo confrontada por meio de provas e evidências.

Os testes de balística realizados no condomínio na última sexta-feira (30) fazem parte justamente do esforço da Polícia Civil para verificar se a dinâmica apresentada por Cleber é compatível com os vestígios técnicos. Até o momento, porém, a perícia não encontrou rastros de sangue no subsolo, local onde o síndico diz que o disparo ocorreu.

Além disso, o sistema de monitoramento do prédio apresentou um apagão de aproximadamente oito minutos, exatamente no intervalo em que a polícia acredita que o crime possa ter ocorrido. Para os investigadores, se o encontro tivesse sido realmente casual, não haveria motivo para o desligamento das câmeras nesse período.

Outro ponto que enfraquece o relato do síndico é o fato de que as luzes do subsolo estavam apagadas e só foram acionadas quando Daiane saiu do elevador. Caso Cleber já estivesse no local, como afirmou, o ambiente deveria estar iluminado.

A posição do projétil encontrado no crânio da vítima também levanta dúvidas sobre a tese de luta corporal. Cleber afirmou que Daiane era praticante de jiu-jitsu e que, durante a briga, ele teria atirado para se defender. No entanto, peritos avaliam que a trajetória do disparo não é compatível com um confronto físico de curta distância.

Por fim, outros elementos reforçam a suspeita de ocultação de provas, como o fato de o celular da corretora ter sido encontrado dentro da caixa de esgoto do condomínio — um local de difícil acesso — e a ausência de vestígios biológicos no ponto onde, segundo o síndico, tudo teria acontecido.