NOVO MEIO, MESMA VIOLÊNCIA

De PIX a perfis falsos: veja como agressores usam tecnologia para perseguir mulheres em Goiás

Casos recentes e dados oficiais mostram que ferramentas digitais viraram instrumentos para prática de violência contra as mulheres

Mensagens enviadas com ameaças escondidas em transferências bancárias, perfis falsos criados para vigiar vítimas, disparos massivos de mensagens intimidatórias e divulgação de conteúdo íntimo sem consentimento. Esses são alguns dos mecanismos digitais que vêm sendo usados por agressores para continuar violentando mulheres mesmo após bloqueios, denúncias e medidas protetivas. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, crimes como ameaça, stalking, violência psicológica e divulgação de conteúdo íntimo cresceram no país e também em Goiás, entre 2023 e 2024. No estado, registros de ameaças passaram de 30.738 para 32.026 casos em um ano, enquanto episódios de divulgação de abuso sexual e pornografia aumentaram de 337 para 430, e ocorrências de stalking/perseguição subiram de 3.790 para 4.098.

Para Manoela Miklos, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a violência contra as mulheres no ambiente digital é um reflexo do cotidiano fora das telas. “O que tem na vida tem na rede. Os perigos que existem nas ruas existem nas redes. Uma sociedade misógina terá usos misóginos da tecnologia. Se não forem as ferramentas digitais, ainda assim esse agressor vai encontrar meios de constranger, de causar sofrimento e de praticar violência psicológica. O meio muda, mas a lógica da violência permanece”, afirma a pesquisadora.

PIX como instrumento

Na Defensoria Pública de Goiás, os relatos mostram como as ações dos agressores acompanham a evolução tecnológica. A defensora pública e coordenadora do Núcleo Especializado de Defesa e Promoção dos Direitos da Mulher (Nudem), Tatiana Bronzato, afirma que muitos casos envolvem tentativa de contato após medida protetiva.

“É muito comum que o descumprimento de medida protetiva aconteça via rede social, WhatsApp, Instagram, Facebook, qualquer meio de comunicação. Agora, tem sido comum também o uso do PIX. A mulher bloqueia o agressor nas redes e ele envia um PIX de um centavo para conseguir mandar mensagem anexada. Isso também configura descumprimento de medida protetiva. Mesmo quando não há medida, se ele usa esse instrumento para ameaça ou extorsão, isso com certeza configura crime”, explica a defensora.

Em uma das ameaças enviadas por mensagens via PIX, homem diz que pagou R$ 10 mil para que matassem a ex-namorada. (Foto: Divulgação – PC)

Essa foi a situação vivida pela ex-namorada de um soldado da Aeronáutica que foi preso em flagrante em Valparaíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, por perseguição e ameaça após o término do relacionamento. Conforme a investigação, mesmo bloqueado nas redes sociais, ele passou a criar perfis falsos para manter contato e, depois, utilizou transferências via Pix de pequenos valores para enviar xingamentos e ameaças no campo de descrição das transações. Em uma das mensagens, ele afirmou ter pago R$ 10 mil para que a vítima fosse morta. A mulher já possuía medida protetiva, que foi descumprida.

O mesmo aconteceu com um caminhoneiro de 29 anos preso por ameaçar a ex, de 19 anos, por meio de transferências via Pix em Aparecida de Goiânia. Bloqueado nas redes sociais após o término, ele passou a enviar valores de R$ 0,01 com mensagens com promessas de morte contra ela e possíveis parceiros dela. A investigação apontou que o relacionamento, de cerca de um ano, já era marcado por agressões físicas, injúrias e ciúmes.

Um outro caso de destaque aconteceu em Vicentinópolis, na região Sul de Goiás, quando um homem foi preso suspeito de perseguir e atacar mulheres nas redes sociais por motivação política. Segundo a Polícia Civil, ele passou a assediar as vítimas após elas declararem apoio a um candidato, enviando mais de 100 mensagens, áudios e vídeos com ameaças e tentativas de desestabilização psicológica. O investigado afirmava ter supostos vídeos íntimos das mulheres e dizia que divulgaria o material. Mesmo bloqueado, continuava os ataques por outras contas, ligações e abordagens presenciais.

Suspeito de ameaçar a ex-namorada por PIX é preso em Aparecida de Goiânia
Suspeito de ameaçar a ex-namorada por PIX é preso em Aparecida de Goiânia (Foto: Divulgação/Polícia Civil)

Pedido de ajuda

A orientação é para que mulheres que estejam sofrendo qualquer forma de violência (física, psicológica, sexual, patrimonial ou digital) não enfrente isso sozinha. Os órgãos de segurança orientam para que a vítima procure ajuda e denuncie. O atendimento é gratuito, sigiloso e pode ser decisivo para interromper o ciclo de agressões e evitar que a violência escale.

É possível buscar apoio pelo telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funciona 24 horas em todo o país, ou ligar 190 em situações de emergência. Em Goiás, a vítima também pode procurar diretamente a Polícia Civil, a Polícia Militar ou Defensoria Pública do Estado de Goiás pelo número (62) 3157-1130.