ENTREVISTA EXCLUSIVA

Delegada presa por furto em Goiânia nega ter transtornos mentais e acusa família de perseguição

Em entrevista exclusiva ao Mais Goiás, delegada Adriana de Carvalho falou pela primeira vez sobre o ocorrido

Presa em flagrante no dia 29 de janeiro pelo furto de produtos de um supermercado dentro do condomínio Alphaville Araguaia, em Goiânia, a delegada aposentada Adriana de Carvalho Fernandes, 42 anos, falou pela primeira vez sobre o ocorrido em entrevista ao Mais Goiás. Adriana nega que tenha transtornos mentais e afirma que praticou o furto porque ela e os cinco animais de estimação que vivem com ela estavam passando fome. Ela foi solta após o pagamento de fiança.

“Não foi um ato impensado, mas de grande desespero, frente à situação de fome que ocorria em minha casa. O furto resultou de inúmeras situações graves de perseguição que venho sofrendo por parte da minha família, mãe e duas irmãs, que insistem em causar intenso sofrimento e praticar maldades comigo”, afirma a delegada aposentada.

Falta de comida em casa

Adriana acusa a família de orquestrar a exclusão do cadastro dela de moradora do condomínio de forma a impedi-la de sair e entrar, além do corte de energia elétrica e água, e do bloqueio da senha do cartão bancário. “Tudo foi feito para que eu entrasse em desespero completo devido à falta de comida em casa, para mim e cinco animais de estimação”, relata Adriana.

“A prática de furto famélico é protegido pelo estado de necessidade aos olhos da Justiça, frente ao iminente perigo de colapso orgânico de quem estava sem comida em casa por mais de dez dias. Entendi que poderia ser presa em flagrante delito, mas preferi me expor a essa situação do que permanecer em casa, sem ajuda, incomunicável. Foi um pedido de socorro, acima de tudo”, afirma.

Alimentos furtados pela delegada aposentada no supermercado do Alphaville Araguaia (Foto: Reprodução)

Sindepol desautorizado

Adriana também desmentiu o Sindicato dos Delegados de Polícia de Goiás (Sindepol), que divulgou uma nota dizendo que ela padece de transtornos mentais agravados pela perda da filha – situação que teria levado a Polícia Civil de Goiás a aposentá-la no primeiro semestre de 2025. “Não foi autorizado por mim que o sindicato desse esclarecimentos a meu respeito, fizeram-no sem o meu consentimento”.

Sobre a própria saúde mental, ela diz que é “normalíssima”. “Não tenho pressão alta, nao tomo medicamento controlado. Nunca fui para esse lado de tomar remédio, nunca tive depressão, não bebo, não fumo, nunca usei droga na minha vida. Quando a minha filha faleceu foi difícil, mas nem licença médica eu tirei. Minha sanidade está em dia, pode me mandar para 20 psiquiatras diferentes”, diz ela ao Mais Goiás.

Perseguição da família

Na entrevista, Adriana Carvalho afirma que a mãe, as duas irmãs, que são mais velhas, e o pai do filho dela estão por trás de todos os problemas que enfrentou nos últimos anos.

Ela conta que em 2022 perdeu uma filha, que era cadeirante, durante um procedimento cirúrgico. E que, em razão da animosidade crescente na relação com a família, fomentada pela descoberta de determinados segredos, decidiu que não deveria mais morar perto delas. Acompanhada do filho, mudou-se para um hotel no setor Oeste e notou “situações estranhas de perseguição envolvendo policiais civis” em novembro de 2023.

“Eu e meu filho começamos a ver policiais rondando o meu hotel, vestidos de mendigos, o que é comum em investigações. A escola dele começou a ficar prejudicada, meus plantões também”, diz a delegada aposentada. “Saímos do hotel onde morávamos em meados de 2023 e fui falar com a minha mãe para tirar satisfação. Foi quando vi o carro do meu ex-marido na porta da casa dela e vi que ele também estava envolvido nisso”.

Policiais no saguão do hotel

Por causa dessa situação, Adriana pediu afastamento de alguns dias da polícia e requereu uma consulta online no Núcleo de Atendimento à Saúde do Policial (Niab), enquanto procurava outro hotel para morar. Alojada no outro hotel, ela afirma que teve a chave do quarto furtada por pessoas supostamente orientadas pela família dela – o que provocou uma discussão.

“Sai à pé com meu filho ali no Jardim Goiás, perto do Carrefour, vi o carro da minha irmã mais velha passando. Falei para o meu filho: ‘vamos entrar no Comfort Hotel e ver o q vai acontecer’. Subimos para o quarto, comemos, e quando descemos o saguão estava abarrotado de policiais atrás de mim. Eles disseram que era porque meu filho estaria na rua passando fome. Minha família usou o Samu, a PM e a Policia Civil para me levar ao pronto-socorro psiquiátrico Wassily Chuc, e acabou que ficamos a madrugada toda em consulta. A troco de quê? Só porque eu descobri que eles não prestam?”, questiona Adriana.

Laudo médico supostamente forjado

Depois de sair do Wassily Chuc, com o filho ao lado, a delegada aposentada se hospedou em um terceiro hotel na mesma região do Jardim Goiás e ela relata que não tardou até que policiais aparecessem mais uma vez com o Samu. “Ela [minha mãe] forjou o relatório da minha consulta no Niab. Eu só queria saber como é que ela consegue ter tanta influência dentro das instituições, sobretudo da polícia”.

O furto no supermercado

Adriana morava em uma casa alugada do Alphaville Araguaia desde meados de 2025. Em novembro, ela foi surpreendida com a notícia de que o cadastro de moradora dela havia sido removido, o que passou a impedi-la de entrar ou sair do condomínio. “Garanto que ela [a mãe] está por trás”, afirma.

Aos poucos, a situação se agravou. O filho, que tem 16 anos, decidiu que ia morar com o pai. O registro de água foi cortado e o abastecimento de energia, suspenso. “Eu e meus três gatos e dois cachorros ficamos no escuro, três dias sem água. Meu dinheiro foi acabando e eu só conseguia fazer compras limitadissimas no supermercado do meu condomínio. Não estávamos mais comendo direito e eu criei uma situação pra sair daquilo”, relata a delegada.

Furto era uma estratégia

Adriana diz que o furto foi uma estratégia elaborada para se salvar. “Quando eu pratiquei o furto, é claro que eu sabia que a loja é monitorada. Mas eu já estava desesperada, e sei que o crime famélico é uma estado de necessidade. É uma excludente de ilicitude. Eu precisava comer”.

A audiência de custódia aconteceu no dia 30 de janeiro, uma sexta-feira. às 14h. A juiza arbitrou uma fiança que o atual marido dela pagou. Os dois estavam separados havia alguns anos, mas reataram depois que ele apareceu para tirá-la da prisão. Da cadeia, ela foi para casa do companheiro, onde pretende morar a partir de agora.

Ficar no Alphaville Araguaia está fora de questão. A mudança já está sendo feita.

Afastamento do filho

Sobre a decisão do filho de romper relações, ela diz que o sentimento é de tristeza e de frustração. “Fiquei espantada, não esperava. Meu filho é autista e escutei dele, no telefone, que eu inventei o laudo dele. Infelizmente ele está em poder de pessoas má indole, que não tem caráter que o estão influenciando. Desejo que ele seja muito feliz e saiba o que está fazendo da vida dele”.

Decepção com a Polícia Civil

Ela acrescenta que a aposentadoria se deu por entendimento dos médicos da junta médica do Estado como “um ato de amor ao próximo, já que eu não conseguiria trabalhar com colegas, que, ajudaram a me perseguir, praticando atos ilegais”. “Houve um momento que eu cheguei cheguei a pedir exoneração para a diretoria da polícia, frente ao desespero do meu filho na época das perseguições, que causaram diversos traumas emocionais nele”.