Vídeo: Delegada que teve filhos mortos por marido no Pará comenta tragédia de Itumbiara: ‘sei o tamanho dessa dor’
Amanda usa a sua voz e a sua experiência para amparar Sarah Araújo, em Itumbiara, e combater o julgamento contra mães que perderam tudo

A delegada do Pará Amanda Souza, que teve os dois filhos mortos pelo marido no Pará, em 2023, comentou a tragédia registrada em Itumbiara: “sei o tamanho dessa dor”. Emocionada, a policial, que à época era titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher em Cametá (PA), usou as redes sociais nesta sexta-feira (13/2) para condenar tentativas de culpar Sarah Tinoco, mãe de Benício e Miguel, pela morte dos filhos, registrada em Goiás no dia anterior. As crianças, de 8 e 11 anos, respectivamente, foram baleadas pelo pai, Thales Machado, secretário de governo do município Goiano. Ele tirou a própria vida.
O caso paraense chama atenção pela quantidade de semelhanças com o crime registrado em solo goiano. Em julho de 2023, o dentista Paulo César Viana, então marido de Amanda, matou os dois filhos do casal, Letícia, de 9 anos, e Marcelo, de 12, dentro da residência da família, em Cametá. Após o crime, ele também cometeu autoextermínio. Conforme relatos divulgados na época, ele não aceitava o fim do relacionamento. “Vendo esse caso, agora como espectadora, não como vítima e tendo oportunidade de acompanhar os comentários, eu tô estarrecida, eu tô indignada.”, desabafou.
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Solidariedade e indignação
Na gravação, Amanda expressa apoio direto à mãe das vítimas goianas: “Gente, eu quero expressar aqui primeiramente a minha solidariedade à mãe dessas crianças que foram covardemente assassinadas pelo próprio pai. E principalmente eu quero expressar minha indignação porque é absurdo, é nojento, é doentio, é frustrante, é desumano o que eu estou vendo”.
A delegada relembrou que, quando viveu a tragédia pessoal no Pará, foi poupada dos comentários externos graças ao apoio familiar. “Quando aconteceu isso comigo, eu não acompanhei em tempo real as publicações, eu não acompanhei os comentários e, graças a Deus, eu tive uma rede de apoio que fez um baita de um filtro para que muita coisa não chegasse até mim. Mas agora, acompanhando o mesmo caso e eu do outro lado como espectadora, não como vítima, eu estou estarrecida”.
Crítica ao julgamento social e ao machismo
Amanda direcionou sua revolta especificamente às pessoas que utilizam a internet para atacar Sarah Araújo. “Eu não consigo sentir raiva do homem que fez isso. Mas eu consigo sentir raiva de pessoas que estão se posicionando na internet para criticar a mãe que perdeu os próprios filhos. Eu ouvi de mulheres… Gente, nós estamos morrendo por conta do machismo, pelo amor de Deus, a gente está sendo morta todo dia”.
Segundo a policial, crimes dessa natureza são motivados por questões de ego e incapacidade de aceitação por parte dos homens. “O homem tem problema de ego, o homem não sabe ouvir não. E quem deveria estar nos dando a mão, apoiando a outra, e eu vejo mulheres criticando, mulheres falando que a culpa é da vítima”.
Questionamento sobre justificativas
A delegada também rebateu argumentos que tentam utilizar supostas traições ou crises conjugais para validar a violência. “Você vai me dizer que a mulher ela é culpada porque ela traiu o homem? Quantos homens traem suas mulheres? Sabe qual é a diferença? É que a mãe quando ama um filho, ela ama verdadeiramente. Vamos colocar em estatística quantas mães mataram seus próprios filhos porque pegaram o homem traindo?”.
Ela finalizou alertando que o julgamento à mãe serve como combustível para a continuidade do feminicídio e do infanticídio. “Traição não dá o aval para ninguém tirar a vida do outro. […] Vamos ter mais empatia porque esses comentários dão legitimidade para a gente continuar morrendo diariamente da forma que a gente está morrendo. Minha total solidariedade à mãe dessas crianças”, concluiu.
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