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Motoristas banidos de aplicativos atuam em contas fake, em Goiás

Contas em apps como Uber, 99 e inDrive são ofertadas por cibercriminosos em redes sociais

Até mesmo as plataformas de transporte por aplicativo, como Uber, 99 e inDrive, não conseguiram se livrar das ações de criminosos cibernéticos. Hackers têm usado redes sociais como Facebook, Telegram e WhatsApp para vender e divulgar o aluguel de contas falsas em nome de terceiros para que condutores banidos das plataformas voltem a trabalhar de forma ilegal.

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O Mais Goiás entrou em contato com criminosos e conversou com clientes de todo o Brasil, inclusive de Goiás, para entender como funciona o esquema. Durante as conversas com cibercriminosos, a reportagem chegou a negociar contas para motociclistas e motoristas de app. 

Para facilitar a comercialização das contas nas plataformas, os estelionatários possuem diversas faixas de preço, que variam entre R$ 150 a R$ 1.000. Caso o veículo do comprador esteja atrasado ou possua uma idade maior do que o limite estipulado pelas plataformas, de 10 anos, é cobrado mais R$ 200 para “legalizá-lo”. Ou seja, burlar o sistema.

“Tenho umas que estão mais de ano logadas. É tudo em nome de terceiros, tenho só que colocar seu veículo e a sua foto de perfil e, então, é só meter marcha. Se você quiser eu dou uma conta para você rodar e você me manda o dinheiro. A conta bancária é você que coloca”, afirmou um dos criminosos, que se identificou como Bambino, de Goiânia.

Caso o motorista não tenha verba suficiente para arcar com a compra, os criminosos também oferecem o aluguel semanal. O aluguel, assim como a venda, tem um brinde: um período de “teste” para provar a eficiência da conta falsa, além da remoção do sistema de segurança. 

O tempo de espera para criar o espaço de trabalho nas plataformas com documentos falsos pode chegar a uma semana. Segundo os criminosos, o período leva em conta o tempo em que os estelionatários levam para criar a conta e a mesma ser aprovada pelas plataformas de transporte.

Perguntados sobre os riscos ao usar os serviços ofertados, a resposta foi praticamente unânime: “Se você trabalhar certo, pode ficar sossegado”. Alguns dos estelionatários, inclusive, escancaram que trabalham há anos falsificando contas e ainda alertaram a reportagem, que se apresentou como um motorista banido em busca de contas fake.

“Mano, nunca deu B.O. Lógico, tem coisas que você precisa evitar, como ter muita avaliação ruim. Se for contar da 99 eu consigo até retirar a facial dela, entendeu? Te dou até uma garantia de um mês”, contou Tio Patinhas, cibercriminoso de São Paulo.

Grupos destinados a venda e aluguel de contas fake – (Foto: Pedro Moura/redes sociais)

Cara “dá hora”

Para ganhar a confiança do repórter, Tio Patinhas chega a pedir para buscar referências no grupo “Contas do Tio Patinhas”, que conta com quase 300 participantes. Segundo ele, “o trabalho é certo” e que não quer levar prejuízos para ninguém: “Sem crise, pai. Se quiser perguntar se esse cara é ‘dá hora’, pode perguntar”.

Nos espaços compartilhados por pessoas das cinco regiões do País, que chegam a mais de 3 mil membros, se misturam vídeos de supostos clientes em meio a enxurrada de anúncios e pessoas em busca de contas. Nas mensagens via vídeo e escrita, os falsos motoristas de app afirmam que compraram as contas falsificadas e que trabalham de forma normal, sem preocupações. 

“Eu sou Alan aqui de Recife, Pernambuco. O cara é desenrolado mesmo, trampa. Se vocês precisarem de alguém para desbloquear a conta da Uber, 99, InDrive, podem chegar nele. Ele é desenrolado, cara trampa mesmo. Valeu pela parceria, meu irmão. Passei muito tempo parado, sem rodar, mas agora estou aí de novo”, afirmou o pernambucano se referindo ao criminoso Lucas Martins.

“Fiz uma compra de uma conta com o Lucas Martins. Me surpreendi com o cara, me entregou no prazo, tudo certinho. A conta é ótima, estou usando, dando tudo certo graças a Deus. Vai no cara que ele é brabo, desenrola mesmo”, reforçou Alexandre, outro suposto cliente de Lucas. 

Motorista procurando por aluguel de contas – (Foto: Pedro Moura/redes sociais)

Motoristas podem ser penalizados 

O delegado de Polícia Civil de Goiás (PCGO) Anderson Pimentel, explica que o motorista que compra a conta, assim como o cibercriminoso, também pode ser preso por estelionato, falsidade ideológica e falsa identidade. As penas chegam a 10 anos de prisão.

Isso porque, ao comprar a conta, o motorista também está cometendo um crime. A pessoa que cede a conta ou os dados cadastrais para uma fraude, automaticamente pode responder como coautora ou partícipe dessa prática criminosa.

“Essas fraudes, quando se cede uma conta, configuram um crime de estelionato. A prática mais comum é quando a pessoa acessa, por exemplo, Facebook, Instagram ou até grupos de WhatsApp ou qualquer outra rede social em que há anúncios de falsários, pessoas que, mediante pagamento, alugam ou compram essas contas”, explica.

Criminoso anunciando venda de contas – (Foto: Pedro Moura/redes sociais)

O presidente da Comissão de Segurança Pública e Política da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Seção Goiás, Tadeu Bastos, conta que o processo para se tornar motorista em plataformas como Uber, inDrive e 99 consiste em cadastro no aplicativo, envio de documentos obrigatórios (CNH com EAR, documento do veículo e, em alguns casos, antecedentes criminais) e aprovação pela plataforma, podendo ainda haver exigências municipais. 

De acordo com ele, as plataformas possuem etapas de segurança para garantir que o condutor é o cadastrado, como verificação por selfie (reconhecimento facial durante o uso), conferência dos dados do motorista e do veículo (placa, modelo e foto) e rastreamento por GPS, podendo bloquear a conta em caso de inconsistência.

“O banimento pode ocorrer por práticas como fraude, uso de conta de terceiros, avaliações baixas recorrentes, denúncias graves de passageiros, divergência de veículo ou motorista e cancelamentos excessivos”, afirma.

Caso o passageiro perceba que o motorista ou o veículo não correspondem ao que aparece no app, ele pode cancelar a corrida por motivo de segurança, sem arcar com custos, além de poder solicitar reembolso caso seja cobrada taxa e fazer a denúncia na própria plataforma.

Motoristas em busca de contas fake – (Foto: Pedro Moura/redes sociais)