EXTENSÃO DA CASA

MP apura regalias e uso de celular por delegado preso que chegou a pedir pizza dentro de delegacia em Goiânia

Investigação aponta falhas na custódia do delegado Dannilo Proto, preso por desviar R$ 2,2 milhões, e possível facilitação de agentes

O Ministério Público de Goiás (MPGO) aprofundou a investigação sobre irregularidades na prisão do delegado Dannilo Ribeiro Proto, preso desde agosto de 2025 por suspeita de liderar um esquema de desvio de recursos públicos. Segundo apuração do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o delegado manteve uma rotina considerada “quase normal” enquanto esteve custodiado na Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH), em Goiânia, incluindo pedidos frequentes de pizza, refrigerante e sobremesa.

O celular foi apreendido em uma operação do Gaeco realizada em dezembro de 2025. A partir disso, o Grupo de Atuação Especial no Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp) instaurou um inquérito para apurar possíveis omissões e responsabilidades de agentes públicos que permitiram o uso de aparelhos eletrônicos e a comunicação externa do preso, descumprindo as regras de custódia.

Além do celular, promotores encontraram cadernos com anotações detalhadas da rotina do delegado, controle de valores e registros ligados ao Instituto Delta Proto (IDP), empresa com sede em Rio Verde. Segundo o MP, mesmo preso, Dannilo continuava gerenciando interesses pessoais e empresariais de dentro da cela, a ponto de se referir ao local como um “escritório de fácil camuflagem”.

Mensagens analisadas também indicam tentativas de esconder o celular durante inspeções. Em um dos diálogos, o delegado relata ter mudado o aparelho de lugar várias vezes e cita esconderijos improvisados para despistar a Corregedoria da Polícia Civil. Segundo o MP, a própria inspeção teria sido solicitada por ele.

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Delegado pediu pizza enquanto estava preso

“Pede uma pizza hoje de frango pra nós. Só uma. Uma coca, uma de doce”, diz uma das mensagens enviadas pelo delegado. Os pedidos teriam ocorrido quase diariamente entre setembro e outubro, período em que ele ainda estava preso na DIH.

As informações constam em documentos internos do MP e reforçam a suspeita de que a delegacia teria sido usada como uma extensão da casa do investigado. Nas conversas encontradas no celular apreendido, o delegado aparece usando o nome “Darcy Vieira” para se comunicar e chega a perguntar o “código” para finalizar entregas feitas diretamente na delegacia.

Para a promotora Gabriela Clementino, coordenadora do Gaeco, a situação é grave. “É intolerável que um agente público, com formação conferida pelo Estado, use desse conhecimento para continuar atividades ilícitas”, afirmou. Já o coordenador do Centro Integrado de Investigação e Inteligência do Gaeco, Carlos Wolff de Pina, disse que há indícios de que a custódia foi transformada em um ambiente favorável à continuidade dos crimes.

Dannilo Proto segue preso

Atualmente, Dannilo Proto está preso na Casa do Albergado, para onde foi transferido em 18 de dezembro, após o MP constatar que ele seguia comandando negócios pelo celular. A investigação também avalia se houve favorecimento real, crime que consiste em facilitar benefícios indevidos a um investigado.

Esta não é a primeira vez que o delegado enfrenta investigações. Em 2015, ele chegou a ser afastado do cargo após ser acusado de corrupção, sob suspeita de cobrar dinheiro de um fazendeiro para devolver o gado roubado. Na época, alegou que o valor teria sido usado para melhorias na delegacia.

Defesa nega irregularidades

A defesa do delegado nega irregularidades. Ao Mais Goiás, o advogado Gilles Gomes afirmou que as situações apontadas pelo MP não configuram crime. “Sob o aspecto criminal, não é crime. No campo moral, pode ser condenável, mas isso não cabe a mim avaliar. Do ponto de vista administrativo, se houve irregularidade, quem deve apurar é a Corregedoria da Polícia Civil”, disse.

Dannilo e a esposa, Karen Proto, presa nesta semana em Rio Verde, são investigados por integrar um grupo suspeito de fraudar contratos na área da educação e desviar mais de R$ 2,2 milhões em recursos públicos. Segundo o MP, desde 2020, ao menos 40 contratos sem licitação teriam sido direcionados ao Instituto Delta Proto, envolvendo reformas de escolas, impressão de material didático e até a realização de concurso público.

Em nota, a Polícia Civil de Goiás informou que adotou providências imediatas ao identificar indícios de irregularidades na guarda de custodiados. A corporação afirmou que a Corregedoria instaurou procedimentos internos, identificou responsáveis pela entrada ilegal de celulares em celas e reforçou que atua com rigor técnico e transparência, independentemente do cargo dos envolvidos.

O inquérito civil do MP tramita sob sigilo e deve apontar se houve falhas administrativas e responsabilidades de agentes relacionados à custódia do delegado.