APURAÇÃO

MP investiga se delegado Dannilo Proto recebeu ajuda para usar celular na prisão, em Goiânia

Ele é apontado com a esposa como parte de um esquema milionário envolvendo verbas públicas no Estado

O Ministério Público de Goiás (MPGO) investiga se houve omissão ou facilitação por parte de agentes da Polícia Civil (PCGO) na entrada de aparelhos celulares e notebooks na cela do delegado Dannilo Proto na Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH), em Goiânia. A informação foi divulgada pela TV Anhanguera nesta quarta-feira (28). Ele e a esposa, Karen Proto, detida na terça-feira (27), em Rio Verde, são suspeitos de integrar um grupo que fraudava contratos na área da educação e desviava recursos públicos. O casal é apontado como parte de um esquema milionário envolvendo verbas públicas no Estado.

O MP realizou uma vistoria após uma inspeção da Corregedoria da Polícia Civil não encontrar irregularidades. Durante as buscas do Ministério Público, foram encontrados um celular e diários onde o preso detalhava sua rotina. Ele, inclusive, gerenciava o Instituto Delta Proto (IDP), com sede em Rio Verde, de dentro da prisão.

Proto teria chamado o local de “escritório de fácil camuflagem”. Em mensagem à família via WhatsApp, o delegado teria dito que encomendou a inspeção policial. “Corregedoria esteve aqui fazendo a inspeção que pedimos. Fiz mágica. Mudei de lugar três vezes. Para o final, inventei uma ida ao banheiro para ver se estava 100% silencioso. Sabe o esconderijo na máquina [de lavar]? Naquela torre? Até agora, lá, carregador e fone. Viraram de cabeça pra baixo. O trem firme sem abrir.” O texto foi revelado pela TV Anhanguera.

Atualmente, ele está na Casa do Albergado. Ele foi transferido, em 18 de dezembro, após os promotores descobrirem que ele continuava comandando os negócios da empresa pelo celular. A vistoria da corregedoria da PCGO ocorreu duas semanas antes.

Coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a promotora Gabriela Clementino disse ao veículo de comunicação que a custódia se tornou um escritório delitivo para a continuação dos crimes. “É intolerável que um agente público, com formação conferida pelo Estado, use desse conhecimento para atividades ilícitas.” Segundo o coordenador do Centro Integrado de Investigação e Inteligência do Gaeco, Carlos Wolff de Pina, “ao que tudo indica, a inspeção foi a pedido do próprio Dannilo”. Ele ainda trata os executores da primeira vistoria de “parceiros” e “amigão”, conforme o membro do MP.

Vale lembrar que, em novembro do ano passado, o Mais Goiás revelou que o delegado, mesmo preso, coagia ex-alunos do Instituto Delta Proto, em Rio Verde. Segundo relatos, à época, ele estaria enviando mensagens de intimidação a estudantes inadimplentes, usando celular e notebook dentro da cela. Em um dos áudios, Dannilo chega a afirmar a uma ex-aluna: “Não, meu amor, você não precisa me mandar mensagem de investigação e tudo. Para começar, você faz parte da Polícia Civil? Do Ministério Público, do Judiciário? Não, então eu não quero saber desse assunto com você. Meu assunto com você é seu contrato.”

As defesas de Dannilo e Karen disseram à TV que as testemunhas não confirmaram as acusações feitas pelo Ministério Público. O Mais Goiás procurou a PCGO para comentar a situação. Confira a nota na íntegra no fim da matéria.

Prisão

Danillo foi preso em agosto de 2025 em ação do MP por suspeita de liderar um esquema que teria desviado mais de R$ 2,2 milhões de dinheiro de escolas estaduais em Rio Verde por meio de licitações. Segundo o órgão, ele e a esposa, Karen de Souza Santos Proto, ex-coordenadora Regional de Educação no município, são sócios do Instituto Delta Proto (IDP), que teria sido favorecido em contratos de reforma de unidade de ensino, impressão de material didático e até na realização de concurso público da Câmara de Rio Verde. Desde 2020, pelo menos 40 contratos sem licitação teriam sido fraudados para beneficiar a empresa envolvida no caso. A investigação teve início em 2023.

Delegado já foi afastado por corrupção

Esta não seria a primeira vez que o delegado é investigado pelo MP-GO. Em 2015, ele chegou a ser afastado do cargo por suspeita de corrupção depois de ter sido acusado de cobrar dinheiro de um fazendeiro que tinha recuperado gado roubado. Na época, ele e um colega teriam recebido cerca de R$ 10 mil da vítima. Em sua defesa, o delegado afirmou que usou parte do valor para melhorar as instalações da unidade policial.

Veja nota da Polícia Civil na íntegra

A Polícia Civil de Goiás informa que, no exercício permanente de seus mecanismos de controle interno e fiscalização, adotou providências imediatas diante de indícios de irregularidades relacionadas à guarda de custodiados em unidade policial.

Ressalta-se que, em 25 de agosto de 2025, o delegado titular da DIH apreendeu dois aparelhos celulares em posse de outro preso custodiado na unidade. Diante do ocorrido, a Corregedoria da Polícia Civil instaurou, de imediato, procedimento apuratório para averiguação dos fatos. Em 02 de outubro de 2025, foi instaurado inquérito policial específico, com a devida comunicação ao Poder Judiciário e ao Ministério Público.

O referido inquérito policial, conduzido pela Corregedoria da Polícia Civil, foi concluído com a identificação da autoria e o indiciamento da pessoa responsável pela entrada ilegal dos aparelhos celulares na cela, tendo sido o procedimento regularmente remetido ao Poder Judiciário em dezembro de 2025, para as providências legais cabíveis.

Ademais, em 27 de novembro de 2025, foi realizada nova correição nas celas da Delegacia de Investigações de Homicídios, após denúncias veiculadas na mídia, não tendo sido localizado qualquer aparelho eletrônico. Importante destacar que, em 14 de novembro de 2025, o custodiado mencionado já havia sido transferido e isolado na carceragem da Delegacia Estadual de Capturas.

A Polícia Civil de Goiás reafirma seu compromisso inegociável com a legalidade, a transparência e a imparcialidade na apuração de fatos, refutando de forma categórica qualquer alegação de omissão institucional. A Instituição atua com rigor técnico e responsabilidade na investigação de quaisquer irregularidades, independentemente da condição funcional ou pessoal dos envolvidos, assegurando que toda conduta ilícita seja devidamente apurada e responsabilizada nos termos da lei.

Goiânia, 28 de janeiro de 2026.

Gerência de Comunicação da Polícia Civil de Goiás – PCGO