Pesquisa da UFG revela como Goiânia tentou apagar a memória do Césio-137
Tema é especialmente pessoal para Célia. Ela vivia a cerca de 100 metros do ferro-velho de Devair Ferreira, onde foi encontrado o objeto

A pesquisadora Célia Helena Vasconcelos é responsável por uma dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) que documenta como discursos oficiais e decisões institucionais atuaram, ao longo de décadas, para marginalizar a memória das vítimas do acidente com o Césio-137 e minimizar a gravidade do desastre. O estudo é de 2019, mas com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, ganhou nova relevância.
O estudo de Célia observa que o apagamento não foi casual. Além disso, reforça como ponto de gravidade o que chama de “silêncio da conveniência”. Segundo ela, as autoridades teriam tido indícios da contaminação dias antes do anúncio oficial, em setembro de 1987, mas optaram por retardar a comunicação para não comprometer o Campeonato Mundial de Motovelocidade, que ocorreu no Autódromo de Goiânia naquele mesmo período. Entretanto, a radiação já estaria circulando pela cidade.
Outro apontamento é sobre a Rua 57, no Setor Central. Epicentro da tragédia onde a cápsula foi aberta e o “brilho azul” encantou moradores, o local é um terreno selado por concreto, sem qualquer identificação. Já a Rua 26-A, no Setor Aeroporto, local da contaminação secundária, mudou de nome. As alterações, conforme o estudo, têm por objetivo “limpar” o território do estigma radioativo.
Outros locais de contaminação foram a Rua 6, no Setor Central, onde funcionava a Vigilância Sanitária, e as residências na Rua 15-A, no Setor Aeroporto. No primeiro, foi onde Maria Gabriela (saiba mais sobre ela a seguir) levou fragmentos da cápsula em um ônibus público, o que permitiu a identificação técnica do problema.
O estudo de Célia verifica que a juventude atual, inclusive a goianiense, sabe mais sobre Chernobyl do que sobre a tragédia do Césio-137. Para Vasconcelos, a ausência de preservação documental e o discurso institucional centrado na “segurança” da tecnologia nuclear servem para proteger o Estado de responsabilidades políticas. E, com isso, enterrar sob camadas de burocracia e concreto uma história que só sobrevive nos relatos dos sobreviventes.
LEIA TAMBÉM:
A autora ainda enumera outros silêncios: “O silêncio da emoção causado tanto por perdas de vidas, saúde e de tudo que os radioacidentados possuíam, incluindo a dignidade; o da revolta, muitos silenciaram por revolta de não serem ouvidos nem assistidos adequadamente pelas instâncias destinadas a esse fim; o silêncio da desistência de correrem atrás dos direitos e não serem atendidos como deveriam; o silêncio do exercício do poder que atuou desde o princípio quando os técnicos da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) se calaram com relação ao perigo da radioatividade deixando centenas de trabalhadores desinformados atuarem nos espaços contaminados.”
E continua: “O silêncio da despedida dos entes queridos falecidos, nesse caso os familiares de Leide das Neves e Maria Gabriela, que não puderam dar o último adeus aos entes queridos e nem se aproximar dos caixões devido a fúria dos indivíduos que protestavam contra o sepultamento dos mortos no cemitério; o silêncio do contexto histórico do acidente radioativo com o elemento Césio-137 que tem sido submetido a uma desconstrução identitária, para isso, foram suprimidos signos da tragédia.”

Entrevista
Ao Mais Goiás, Célia revelou que, inicialmente, iria expandir o trabalho de conclusão de curso. A ideia era buscar grafites pela cidade para contar a história do acidente. Contudo, ela procurou em vários locais relacionados à tragédia e não encontrou nenhuma a mais do que o único havia utilizado no TCC. “Percebi que em Goiânia não existia nada, então fui para Abadia, onde está o lixo radioativo, mas também não encontrei.”
Ela diz que conversou com a orientadora e “brincou” que “os grafites estavam silenciados”. Ela, então, percebeu que a história também estava. “Retornava em datas comemorativas, mas não existia nada sobre a temática. Então, dei incíio a pesquisa sobre o silenciamento.”
O tema é especialmente pessoal para Célia. Ela vivia a cerca de 100 metros do ferro-velho de Devair Ferreira, onde foi encontrado o objeto. “Tinha uma filha pequena e estava gestante. Eu era monitorada duas vezes ao dia, meu marido precisava fazer aferição”, relatou. Para ela, era inconcebível quase ninguém falar sobre uma temática tão importante.
“Percebei que não havia um espaço de memória e que, mesmo na UFG, ninguém sabia sobre o tema.” Ela lembra que houve uma promessa de que haveria um memorial na antiga Rua 57, onde vivia o catador Roberto Santos, mas nunca saiu do papel. “O local seria destinado à pesquisas e para guardar memórias, ou seja, fotografias, jornais… Contudo, nunca ocorreu.”
Após visitar todos os locais relacionados ao ocorrido, ela percebeu “um silencimento completo de toda a história do acidente”. A situação motivou a pesquisa apresentada em 2019.
E sobre a série?
Quanto a série, ela afirma que a repercussão foi grande sobre o assunto e também acerca do trabalho dela. Inclusive, internacionalmente. A pesquisadora afirma que tem uma filha cientista que atua em Boston (EUA). Amigas dela viram a série e se interessaram pelo assunto, pois não sabiam da existência de um acidente radiológico no Brasil.
“Minha filha, então, contou que aconteceu na cidade dela. Ontem [domingo] mesmo conversamos e ela passou informações para as amigas.” Conforme ela, é muito necessário passar informações para que isso não ocorram novamente. Ela, que lamentava a falta de interesse pelo tema, acredita que a minissérie da Netflix vá despertar a curiosidade.
Inclusive, comemora o reajuste aprovado pela Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) ao projeto do governo que reajustou os benefícios das vítimas e demais envolvidos no acidente do Césio-137, em Goiânia.
As próprios memórias
Questionada se pretende desdobrar estudos sobre o assunto – talvez um mestrado -, Célia diz que a ideia é escrever um livro. Ela tem recebido incentivo da família. “Mas agora com meu olhar, de tudo que passei na época, quando era adolescente e tinha uma filha bebê e estava esperando outra. Vivi todo o contexto.”
Ela entende que rememorar é doloroso, mas ressalta a importância. “A gente viu a Leide ferida. Meu marido e eu éramos monitorados. Meu cachorro foi sacrificado. Ninguém fala, mas matavam gatos à noite. Existe muita coisa que é memória apenas de quem esteve nas imediações. Eu não tive como me mudar de casa, à época”, narrou.
“Um acidente não acontece por um único motivo. Abandonaram o aparelho, órgãos do governo e CNEN não fiscalizaram, foram displicentes, não houve recolhimento. E pessoas inabilidatas, sem conhecimento, sem saber manusear, tiveram acesso….”
Já em relação ao programa da Netflix, ela diz que ainda não viu. “Contudo, pretendo maratonar ainda hoje”, brinca.

Ficção como resgate da memória
Sobre a série, a produção acompanha a corrida contra o tempo iniciada após a abertura de um aparelho de radioterapia abandonado em um ferro-velho, uma vez que o objeto espalhou o material radioativo (o tal “pozinho azul que brilha”) pela cidade. A contaminação atingiu milhares de pessoas e deixou marcas profundas na história do país. Este foi o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares.
Protagonista da produção, o ator Johnny Massaro afirma que não conhecia o caso. Ele nasceu em 1992, cinco anos após o acidente. “Quando fui fazer o teste, li a sinopse e achei que era ficção. Pensei: ‘Nossa, que história criativa’. Só depois me disseram que aquilo tinha acontecido de verdade”, lembra. “Foi um choque. E quando descobri, pensei: agora que eu quero contar essa história mesmo”, disse ao F5, da Folha de S.Paulo.
Ele diz ter percebido que muitas outras pessoas não conheciam o acidente. “E é um evento enorme. Foi o maior acidente radiológico da história.” Johnny vive o personagem Márcio, um dos profissionais envolvidos na tentativa de conter os efeitos da contaminação. Na trama, ele também precisa lidar com a vida pessoal (a gravidez da esposa) durante os acontecimentos.
“Ele tem diante de si o amor da vida dele esperando um filho, e de repente precisa decidir entre ficar com a família ou agir diante de algo que pode afetar muita gente”, detalha e emenda: “Ele entende que talvez seja a única pessoa ali capaz de fazer alguma coisa. Então tenta equilibrar os pratos. Não é que ele abandone a família, mas ele precisa agir.”
Segundo o ator, “quando você entende a dimensão da tragédia, percebe que não foi só sobre doença ou morte. Casas tiveram que ser demolidas, roupas e objetos destruídos, memórias inteiras apagadas. As pessoas perderam parte da própria história.”
É preciso destacar que, conforme o estudo, o interesse pelo Césio-137 costuma ser cíclico. Com isso, a autora já previa que o tema poderia voltar.
LEIA MAIS:
Tragédia
Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, envolvendo o Césio-137. O episódio teve início quando dois catadores de recicláveis, Roberto dos Santos e Wagner Mota Pereira, encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia.
Ao desmontá-lo, liberaram uma cápsula de Césio-137, um isótopo radioativo altamente perigoso. O material se espalhou rapidamente, contaminando centenas de pessoas e causando mortes e sequelas irreparáveis.
Uma parte da peça foi levada para o ferro-velho de Devair Ferreira, que abriu a cápsula e encontrou o pó radioativo. Devair mostrou a novidade para vizinhos, amigos e familiares. Dias depois, as pessoas começaram a ter tontura, vômitos e diarreia, principalmente Devair e sua esposa Maria Gabriela.
Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para a sua filha, Leide das Neves, de apenas 6 anos. A menina posteriormente foi jantar, ingerindo o Césio-137 por meio da refeição. Ela não sobreviveu. Maria Gabriela levou a peça até a Vigilância Sanitária, contribuindo com a contaminação de mais pessoas, pois o trajeto foi feito de ônibus.
O alerta e a contaminação generalizada
Apenas em 29 de setembro de 1987 foi dado o alerta que todas essas áreas foram atingidas por radiação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) pediu para que os moradores fossem transferidos para um esquema de triagem no Estádio Olímpico. Mais de 112 mil pessoas foram colocadas em quarentena e submetidas a intensos banhos para descontaminação.
O acidente resultou em quatro mortes confirmadas: Maria Gabriela Ferreira, Leide das Neves Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Além disso, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, sendo monitoradas e tratadas por equipes médicas especializadas. Mais de 110 mil pessoas foram acompanhadas. Centenas de locais, incluindo residências, ruas e veículos, foram desinfectados ou removidos devido à contaminação. A cidade de Goiânia enfrentou um processo complexo de descontaminação, com a remoção de solo e materiais contaminados.
LEIA AINDA: