PRECONCEITO

Pesquisador da UFG e UnB denúncia ataques de ódio após destaque nacional em estudo LGBTQIA+

Jornalista Antônio Guilherme analisa estigmas sobre a comunidade LGBTQIA+ na imprensa; universidades repudiam ódio e reafirmam compromisso com a ciência ética

O jornalista e pesquisador Antônio Guilherme de Lima Santos sofreu ataques homofóbicos e manifestações de ódio recentes nas redes sociais após seu trabalho acadêmico ganhar projeção nacional. A pesquisa do acadêmico egresso da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando da Universidade de Brasília (UnB) analisa estigmas e discursos jornalísticos sobre a comunidade LGBTQIA+ em veículos da Região Norte do país. As instituições repudiaram os ataques e se solidarizaram com o profissional.

A obra, vale citar, foi selecionada para o quadro “Bolsista em Destaque” da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação (MEC). Com a exposição, ocorreu uma onda de ataques nas redes. Além de tentativas de desqualificar a pesquisa, também houve ofensas pessoais a Guilherme, inclusive preconceituosas.

Antônio Guilherme conversou com o Mais Goiás. Ele, que se graduou em jornalismo na Universidade Federal do Acre (Ufac), revelou que a pesquisa repercutiu nas redes sociais e foi compartilhada por webjornais do Acre. “A pesquisa começou a ganhar visibilidade após divulgação no Jornal UFG e na TV UFG. Posteriormente, fui convidado pela Capes para participar do quadro “Bolsista em Destaque”. Com a publicação nas redes sociais da Capes, o trabalho passou a ter notoriedade positiva, especialmente na comunidade acadêmica. Em seguida, alguns veículos de imprensa do Acre repercutiram. No entanto, a recepção do público foi negativa.”

Ele revela que, até o momento, as ofensas não chegaram ao seu perfil pessoal. “Apenas postagens veiculadas por algumas páginas nas redes sociais.” O jornalista enfatiza, contudo, que ver seu momento de consagração acadêmica virar alvo de violência gera reflexão para dar continuidade à pesquisa dele.

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“Investigar esse tema no âmbito do jornalismo é fundamental, pois a construção da notícia envolve uma complexidade subjetiva que só quem atua na área compreende plenamente. Digo isso porque também sou jornalista e, em diferentes momentos, me vi na posição de produzir matérias relacionadas a esse tema, enquanto colegas demonstravam desconforto em abordá-lo. É nesse contexto que a discriminação também se manifesta, alcançando inclusive a insegurança de profissionais ao se associarem à pauta LGBTI+. Se até aqui tenho conseguido avançar e aprofundar essa investigação no contexto brasileiro, as manifestações de resistência e até de hostilidade acabam, paradoxalmente, reforçando a importância de seguir adiante, sustentando a pesquisa como um espaço de análise crítica e compromisso com o tema.”

Ele pontua que o tema LGBTQIA+ por si só é sensível, uma vez que o debate em torno dessa pauta costuma ser polarizado. “Com isso, quero dizer que seria possível investigar as questões relacionadas ao assunto sem explicitar a sigla. No entanto, a partir do momento em que menciono LGBTI+, a discussão assume outro contorno, revelando o potencial ofensivo e as reações subjetivas do público diante do tema. Nesse sentido, continuo me surpreendendo ao constatar que pesquisar sobre o assunto acaba confirmando hipótese da minha investigação acadêmica, ou seja, as discriminações ainda influenciam a forma como as pessoas percebem e reproduzem estereótipos associados à pauta LGBTI+”, argumenta.

Ele continua: “Falar sobre a comunidade LGBTI+ no contexto brasileiro, seja no âmbito acadêmico, institucional ou político, ainda é um desafio marcado por silenciamentos. Em grande medida, o acesso a esse debate permanece limitado, já que, no país, ele foi historicamente mais desenvolvido no campo acadêmico, enquanto, na esfera pública, a pauta foi recebida com hostilidade, muitas vezes por falta de compreensão sobre questões de identidade de gênero e sexualidade pelas próprias pessoas.”

Como Antônio ainda reúne materiais, ele ainda não registrou um boletim de ocorrência. Contudo, informa que pretende fazer em breve.

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Antônio se graduou em jornalismo na Universidade Federal do Acre (Ufac), mas é egresso da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando da Universidade de Brasília (UnB) (Foto cedida ao Mais Goiás)

Detalhes sobre o projeto de Antônio Guilherme

O pesquisador afirma que seu estudo é uma sequência do trabalho realizado na monografia defendida no curso de Jornalismo da Ufac. “Esse trabalho foi utilizado como referência pelo Ministério Público Federal e pela Procuradoria da República no Estado do Acre ao acionarem jornalistas locais para a condução de abordagens éticas sobre a comunidade LGBTI+.”

Já no mestrado na UFG, ele investigou como os estigmas heteronormativos, percebidos como capazes de reproduzir formas de discriminação e preconceito contra outras identidades sexuais e de gênero, influenciam na construção de estereótipos nos enquadramentos jornalísticos sobre a comunidade LGBTQIAP+. Ainda segundo ele, durante o cruzamento de dados comparativos de oito webjornais ao longo de um ano, entre 2023 e 2024, foi percebido que dois deles abordavam com maior frequência pautas relacionadas à comunidade citada.

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“Ao entrevistar os editores desses veículos, identifiquei que ambos se reconheciam como homens gays. A partir dessa constatação, desenvolvo minha pesquisa de doutorado, que busca investigar como a pauta LGBTI+ pode ser legitimada por critérios de seleção e filtragem da notícia, considerando a influência da linha editorial e das decisões das chefias nas organizações jornalísticas. Esse tema é particularmente relevante para mim”, enfatiza.

Ele explica. Primeiramente, pois contribui para que a imprensa compreenda a importância de tratar a pauta com sensibilidade e garantir a visibilidade de um tema historicamente estigmatizado. e, em segundo lugar, pois o jornalismo desempenha um papel fundamental na construção da opinião pública, podendo promover um debate que ajude a desnaturalizar estruturas preconceituosas relacionadas a essa temática.

Questionado sobre o apoio da UFG e UNB, que emitiram uma nota conjunta, o jornalista afirma que esse tipo de posicionamento institucional é muito importante. “Para que nós, enquanto pesquisadores, não nos sintamos sozinhos diante de situações de exposição ou constrangimento, como a que vivi. Os professores e as secretarias da UFG e da UnB têm me acolhido e oferecido apoio, o que tem sido fundamental para que eu não me desmotive diante dos ataques. Tenho ficado mais satisfeito com a repercussão positiva da minha pesquisa, o que reforça a relevância do tema e do debate que ela propõe”, concluiu.

analisa estigmas e discursos jornalísticos sobre a comunidade LGBTQIA+ em veículos da Região Norte do país

‘Inaceitável’

Em nota conjunta, a UFG e a UnB classificaram as agressões como inaceitáveis e como violação direta da liberdade científica e dos direitos humanos. Além disso, reafirmaram que a universidade é um espaço de diálogo, e não de intimidação. “Não aceitaremos que preconceito e ódio tentem silenciar a produção acadêmica ou intimidar nossos alunos e ex-alunos. As universidades são, acima de tudo, ambientes de diálogo, alteridade e respeito.”

“É inaceitável que a produção de conhecimento científico, voltada para a análise das dinâmicas sociais e midiáticas, seja empregada como justificativa para a prática da violência, incitação do ódio e perpetuação de preconceitos. Os ataques direcionados ao jornalista Guilherme Lima não apenas ferem sua individualidade e dignidade, mas também constituem uma violação direta da liberdade científica e dos direitos humanos”, completaram as instituições.

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Nota conjunta da UnB e UFG:

“O Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás (PPGCOM/UFG) e o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (PPGCOM/UnB) expressam publicamente seu mais forte apoio e solidariedade ao jornalista e pesquisador Antônio Guilherme de Lima Santos.

Egresso do mestrado em Comunicação do PPGCOM/UFG e atual doutorando em Comunicação do PPGCOM/UnB, Guilherme Lima tem sido vítima de ataques homofóbicos e manifestações de ódio em redes sociais após a recente e meritória repercussão de sua pesquisa de mestrado, intitulada: “Discursos jornalísticos sobre a comunidade LGBTI+: uma análise comparada nas afiliadas do portal de notícias G1 da Região Norte”.

Após ser publicado pelo Jornal UFG, o estudo ganhou destaque nos canais oficiais da CAPES e em vários veículos jornalísticos, especialmente no Acre. O trabalho é um exemplo de rigor acadêmico e importância social, contribuindo significativamente para o campo da Comunicação e para o progresso da democracia e dos direitos dos grupos minoritários no Brasil.

É inaceitável que a produção de conhecimento científico, voltada para a análise das dinâmicas sociais e midiáticas, seja empregada como justificativa para a prática da violência, incitação do ódio e perpetuação de preconceitos. Os ataques direcionados ao jornalista Guilherme Lima não apenas ferem sua individualidade e dignidade, mas também constituem uma violação direta da liberdade científica e dos direitos humanos.

Os Programas de Pós-Graduação em Comunicação da UFG e da UnB reiteram seu compromisso com uma ciência ética, inclusiva e plural. Não aceitaremos que preconceito e ódio tentem silenciar a produção acadêmica ou intimidar nossos alunos e ex-alunos. As universidades são, acima de tudo, ambientes de diálogo, alteridade e respeito. Manifestamos nossa solidariedade a Guilherme Lima, a seus familiares e a todos os(as) pesquisadores(as) que, de alguma maneira, se sentem ou são ameaçados pelo crescimento da intolerância. Continuamos atentos na defesa firme da ciência, da liberdade de expressão e dos direitos humanos inalienáveis.

Goiânia e Brasília, 20 de abril de 2026.

PPGCOM/UFG e PPGCOM/UnB