PRÉ-CARNAVAL

Rapidez no atendimento é aposta de bares e restaurantes para lucrar no carnaval

Com expectativa de crescimento no faturamento, estabelecimentos investem em logística, segurança e atendimento rápido para atravessar Carnaval

A poucos dias do Carnaval, bares e restaurantes intensificam os preparativos para enfrentar um dos períodos mais exigentes do ano. A expectativa de aumento no consumo vem acompanhada de mudanças práticas na operação, que vão desde a montagem de palcos e reforço da estrutura até ajustes na rapidez do atendimento e no cardápio. Um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) indica que 72% dos estabelecimentos pretendem funcionar durante o período e 73% dos empresários esperam faturar mais do que no Carnaval do ano passado.

A maioria dos proprietários de bares e restaurantes projeta crescimento moderado. Cerca de 25% estimam aumento de até 5% no faturamento, enquanto 24% esperam alta de até 10%. Outros 12% apostam em crescimento de até 20%. Entre os mais otimistas, 10% esperam aumento de até 50% e 2% acreditam em alta ainda maior. Por outro lado, 19% dos empresários não aguardam avanço no faturamento e 5% avaliam que podem faturar menos do que em 2025.

Em Goiânia, a preparação para o Carnaval envolve uma operação que começa dias antes da festa. No Cerrado Cervejaria, que realiza bloquinhos próprios, o trabalho passa longe da improvisação. Segundo o sócio João Vitor Carvalho, a montagem da estrutura é uma das etapas mais complexas. “A primeira coisa são os palcos. Montamos um palco interno e outro externo, além de toda a estrutura de som. Depois vem a organização dos bares, freezers, mesas e da área externa para dar vazão ao público”, explica.

preparacao x carnaval
Montagem da estrutura é uma das etapas mais complexas na preparação para o Carnaval, segundo empresário (Foto: Arquivo Pessoal/Leonardo Vilares)

Rapidez no atendimento é prioridade

De acordo com ele, a prioridade é garantir agilidade no atendimento. A casa monta pontos extras de bar na área externa, usando caixas térmicas e grandes volumes de gelo para acelerar a venda de bebidas. “A ideia é fazer com que a pessoa chegue, seja atendida rápido e não enfrente filas longas. Carnaval é volume, e a operação precisa acompanhar isso”, afirma.

LEIA TAMBÉM:

Além da estrutura, o Cerrado distribui freezers por diferentes áreas do espaço, tanto para bebidas quanto para alimentos, e reorganiza mesas e bistrôs para facilitar a circulação. A decoração também entra no planejamento.

No cardápio, a principal mudança ocorre nas bebidas, geralmente por conta dos patrocinadores. Neste ano, a casa trabalha com rótulos como Brahma, Original e Budweiser. Já as comidas seguem o padrão tradicional. “No Carnaval, a gente mantém o que já funciona: petiscos, feijoada, paella. Não é um momento de inventar muito, porque o público quer comer bem e rápido”, explica.

Em relação aos funcionários, a cervejaria optou por manter a equipe fixa durante o Carnaval. “A gente prefere trabalhar com as mesmas pessoas, que já conhecem a dinâmica da casa e do evento. A única troca maior costuma ser entre os garçons que ficam na área de bebidas, que mudam a cada ano”, afirma.

Aposta em bebidas alcoólicas prontas

A aposta em produtos de giro mais rápido também aparece no cenário nacional. Segundo a Abrasel, cresce o interesse dos bares pelas bebidas alcoólicas prontas para consumo, conhecidas como ready-to-drink (RTD), que dispensam preparo. A estratégia é vista como uma forma de reduzir obstáculos no atendimento em dias de pico. Projeção da Market Research Future estima que esse mercado deve movimentar cerca de R$ 11,8 bilhões no Brasil, com crescimento de 4,5% em relação a 2024.

Para o setor, o contexto econômico ajuda a sustentar o otimismo. Dados da Abrasel mostram que, em dezembro de 2025, 47% dos bares e restaurantes fecharam o mês com lucro, 36% operaram em equilíbrio e 16% registraram prejuízo. Na comparação entre novembro e dezembro, 57% relataram aumento de faturamento. Em relação aos preços, quase 60% conseguiram reajustar os cardápios em linha com a inflação ou abaixo dela, enquanto 30% afirmaram não ter conseguido repassar custos.

No Cerrado, a decisão sobre preços segue a lógica da entrega ao cliente. Segundo João Vitor, não há aumento automático por ser Carnaval. “O preço tem que refletir o que você oferece. Se no ano seguinte você entrega mais, cobra mais. Se entrega menos, cobra menos. O reajuste vem da experiência, não só da data”, afirma.

Segurança e autorizações

Outro ponto central da preparação é a segurança. Durante os dias de bloquinho, o estabelecimento reforça o número de profissionais distribuídos entre entrada, área externa, salão interno e fundos da casa. “A gente investe em segurança porque, embora o nosso público seja tranquilo e familiar, sempre pode acontecer alguma coisa. Ainda mais quando tem bebida alcoólica envolvida”, diz.

LEIA MAIS:

A realização dos eventos também depende da atuação do poder público. Segundo o empresário, além dos alvarás regulares, são necessárias autorizações específicas para o Carnaval, além do apoio de órgãos como Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Secretaria Municipal de Engenharia e Trânsito e serviços de saúde. “Tem alvará que a gente mesmo esquece no meio da correria, mas eles existem por um motivo. E, como a gente precisa fechar ruas e receber muita gente, esse suporte é essencial”, afirma.

O que ninguém vê quando olha um bloquinho lotado?

Para quem vê o bloquinho lotado, a parte mais pesada do Carnaval costuma ficar invisível. “O maior desafio é o dia antes. É gente montando palco, passando gerador em espaço apertado, organizando tudo para dar certo. Quando a festa começa, muita coisa já foi resolvida com muito trabalho”, resume João Vitor.

freezer x cardeiras x carnaval
Cerrado distribui freezers por diferentes áreas do espaço e reorganiza mesas e bistrôs para facilitar a circulação de pessoas e funcionários (Foto: Arquivo Pessoal/Leonardo Vilares)

Ele também destaca o papel cultural dos bloquinhos na cidade. “Não é só festa. O que a gente está construindo é uma cultura de pré-Carnaval em Goiânia. É uma expressão cultural que envolve muita gente trabalhando para acontecer”.

O desafio, segundo empresários e entidades do setor, é equilibrar volume, custos e operação para que a festa não termine no prejuízo quando a folia acabar.