MEMÓRIA

‘Rodeada de amigos e feliz’: amiga de corretora morta em Caldas Novas revela vídeos de alegria antes da tragédia

Giorgiana guarda lembranças dela animada, rodeada de amigos, dançando e brincando

A auxiliar administrativa Giorgiana dos Passos lembra da amiga Daiane Alves Souza, de 43 anos, com carinho, como uma pessoa alegre e cheia de vida. Ela lamenta a morte da corretora, mas, para reduzir as tristezas, guarda lembranças dela animada, rodeada de amigos, dançando e brincando. Nesta segunda-feira (2), ela pediu que o portal mostrasse como Daiane era feliz.

Em um dos vídeos, ela dança com amigos ao som de Arco-Íris, da Xuxa. Muitos risos e empolgação na gravação. Em outra, eles dançam É o Tcham, também muito animados.

Para a auxiliar administrativa, Daiane era amiga de todas as horas. “Sempre presente, preocupada com todos. Gostava de reunir os amigos.” De acordo com ela, após a confirmação da morte, ela não conseguiu falar com ninguém por, pelo menos, dois dias. Agora, ela e outros amigos da vítima apoiam como podem a família da corretora. “A mãe dela está muito chateada, pois nunca imaginou que uma pessoa, que deveria ser de confiança, fosse capaz de fazer isso.”

Vídeos

Giorgiana dos Passos foi a última a receber vídeos de Daiane, que desapareceu em 17 de dezembro e teve o corpo encontrado em 28 de janeiro em uma região de mata de Caldas Novas. Na gravação, a vítima reclama da luz cortada. “Todas as minhas contas estão pagas.”

O vídeo mostra a corretora andando pelo corredor. Ela mostra que há energia no corredor e o padrão está ligado. “Vou lá [no subsolo] ver se desligaram meu padrão”, diz em trecho de um dos vídeos. Em outro, ela chama o elevador. “Vamos ver o que está acontecendo. Se foi igual ontem, igual tem sido esses cortes repentinos.”

Ela encontra outro morador no elevador e explica que faz a filmagem, pois alguém tem desligado a energia dela no padrão, no subsolo. “Deve ter menino aqui, né?”, ironiza. “Vou na recepção perguntar se a Equatorial veio aqui, pois todas as minhas contas estão pagas.” Já na recepção, ela chama o porteiro e o vídeo acaba.

O síndico Cléber Rosa Oliveira, de 49 anos, é acusado de matar a corretora e está preso, assim como o filho dele, Maicon Douglas. Em nota, a defesa informou que ele “respondeu a todas as indagações formuladas e segue contribuindo com as investigações”.

Já os advogados do filho do síndico reforçaram que Cléber confessou o crime sem auxílio ou conhecimento de Maicon. “Durante o interrogatório, o investigado [filho do síndico] respondeu a todos os questionamentos de forma transparente e satisfatória, colaborando ativamente com a elucidação dos fatos e negando veementemente qualquer participação no trágico evento”, reforçou a defesa. Os juristas esperam que o cliente seja colocado em liberdade “o mais breve possível, garantindo o respeito às garantias constitucionais e à verdade real”.

42 dias do desaparecimento às prisões

Em 28 de janeiro, a Polícia Civil prendeu, durante a madrugada, o síndico Cléber Rosa de Oliveira e o filho dele, Maicon Douglas, no âmbito da investigação por homicídio. Um porteiro do prédio também foi levado para prestar esclarecimentos. Pai e filho passaram por audiência de custódia na quinta-feira (31), quando a Justiça decidiu manter as prisões. Somente após a decisão judicial, os dois prestaram depoimento. Cléber afirmou que teria agido sozinho, porém a Polícia Civil sustenta que Maicon tentou atrapalhar as investigações e colaborou para a destruição de provas.

Daiane desapareceu no dia 17 de dezembro, após descer até o subsolo para tentar restabelecer a energia do próprio apartamento, que, segundo a investigação, teria sido desligada pelo síndico para forçá-la a ir até a garagem. A polícia aponta que a vítima e Cléber já tinham um histórico de conflitos, perseguição e episódios de violência. Antes de descer, Daiane gravou vídeos mostrando o imóvel sem energia e enviou as imagens a uma amiga. No dia seguinte, a mãe da corretora, Nilze Alves, não a encontrou no apartamento, dando início às buscas.

A ossada da vítima foi localizada 42 dias depois, em uma área de mata às margens da GO-213, entre Caldas Novas e Ipameri, a cerca de 15 quilômetros de onde Daiane morava, e identificada por exame de DNA. Agora, a perícia trabalha para determinar se houve disparos de arma de fogo, como o crime foi cometido e confirmar a dinâmica do assassinato.

Conforme fontes ligadas ao inquérito ao Mais Goiás, o corpo de Daiane tinha uma bala alojada na cabeça. A presença do projétil no crânio da vítima passou a ser o principal ponto de confronto técnico com o depoimento prestado por Cléber Rosa de Oliveira. Em sua oitiva, o síndico afirmou que discutiu com Daiane no subsolo do condomínio e que, durante o embate, efetuou o disparo que teria provocado a morte da corretora.

No entanto, os primeiros levantamentos da perícia técnico-científica não identificaram vestígios de sangue, marcas de impacto ou qualquer outro indício físico compatível com um disparo de arma de fogo no local apontado por ele. A ausência desses elementos levantou suspeitas de que o tiro pode não ter sido efetuado no subsolo do prédio, como relatado.

Legítima defesa

A primeira versão oficial do síndico Cleber Rosa sobre a morte da corretora Daiane Alves, em Caldas Novas, é de que ele teria agido em legítima defesa. A declaração, segundo informações de fontes ligadas à investigação, consta no inquérito da Polícia Civil sobre o caso. A alegação do assassino confesso é de que ele estava no subsolo do condomínio por acaso, dentro do Almoxarifado, quando a vítima teria aparecido.

No relato, o síndico afirmou que o padrão de energia fica próximo da porta do depósito e que, ao chegar para religar os disjuntores, Daiane teria aparecido com abordagem agressiva. A partir de então, nas palavras dele, ambos teriam entrado em uma luta corporal, a qual terminou com o disparo que atingiu a mulher. A versão, no entanto, vem sendo confrontada por meio de provas e evidências.

Os testes de balística realizados no condomínio na última sexta-feira (30) fazem parte justamente do esforço da Polícia Civil para verificar se a dinâmica apresentada por Cleber é compatível com os vestígios técnicos. Até o momento, porém, a perícia não encontrou rastros de sangue no subsolo, local onde o síndico diz que o disparo ocorreu.

Além disso, o sistema de monitoramento do prédio apresentou um apagão de aproximadamente oito minutos, exatamente no intervalo em que a polícia acredita que o crime possa ter ocorrido. Para os investigadores, se o encontro tivesse sido realmente casual, não haveria motivo para o desligamento das câmeras nesse período.

Outro ponto que enfraquece o relato do síndico é o fato de que as luzes do subsolo estavam apagadas e só foram acionadas quando Daiane saiu do elevador. Caso Cleber já estivesse no local, como afirmou, o ambiente deveria estar iluminado.

A posição do projétil encontrado no crânio da vítima também levanta dúvidas sobre a tese de luta corporal. Cleber afirmou que Daiane era praticante de jiu-jitsu e que, durante a briga, ele teria atirado para se defender. No entanto, peritos avaliam que a trajetória do disparo não é compatível com um confronto físico de curta distância.

Por fim, outros elementos reforçam a suspeita de ocultação de provas, como o fato de o celular da corretora ter sido encontrado dentro da caixa de esgoto do condomínio — um local de difícil acesso — e a ausência de vestígios biológicos no ponto onde, segundo o síndico, tudo teria acontecido.