Terras raras: Especialistas dizem que futuro dos carros elétricos e smartphones depende do solo de Goiás
Segundo especialistas da mineradora Serra Verde, Minaçu possui minerais raros, o que coloca Goiás como grande competidor na área

Com a meta ambiciosa de produzir 6,4 mil toneladas de óxidos até 2027, a mineração de terras raras em Goiás posiciona o estado como um competidor de peso frente ao domínio asiático. Em entrevista ao Mais Goiás, especialistas que atuam na operação da mineradora Serra Verde, em Minaçu, detalham que o futuro de tecnologias essenciais — como motores de veículos elétricos e smartphones de última geração — passa obrigatoriamente pela geologia goiana.
A relevância de Minaçu vai além da quantidade; trata-se da raridade dos minerais encontrados. A jazida ‘Pela Ema’ é rica em Disprósio (Dy) e Térbio (Tb), conhecidos como terras raras “pesadas”.
Conforme explicam os técnicos, esses elementos são fundamentais para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho. Eles destacam que tais componentes são indispensáveis em aplicações que exigem alta eficiência e resistência a temperaturas extremas, como é o caso de turbinas eólicas e sistemas de defesa aeroespacial. “Somos um dos poucos polos fora da Ásia capazes de produzir esses elementos magnéticos em uma única jazida”, pontuam.
Diferencial
O grande diferencial estratégico da jazida ‘Pela Ema’ é ser um depósito de argila iônica, característica extremamente rara fora da China. Segundo os técnicos, o fato de o depósito ser raso e macio permite a utilização de métodos simples de mineração a céu aberto. Eles explicam que essa configuração geológica favorável, aliada à mão de obra qualificada, é o que sustenta a operação em Goiás, garantindo um menor consumo de energia e custos operacionais reduzidos.
Os especialistas detalham que a viabilidade econômica e ambiental de Minaçu reside na forma como os minerais estão distribuídos no solo. Ao contrário de outros depósitos onde ocorre a absorção — processo em que os elementos estão “presos” no interior da estrutura mineral e exigem ácidos fortes e moagem para serem liberados —, em Goiás, o fenômeno é de adsorção (com D).
“Os íons dos elementos de terras raras estão fracamente ligados entre as camadas de argila, aderidos apenas à superfície das partículas. Por isso, uma solução salina simples consegue realizar a troca iônica e conduzir os elementos para a solução”, explicam. Segundo eles, essa diferença química fundamental é o que permite a extração sem o uso de produtos químicos tóxicos ou técnicas intensivas de quebra de rocha, reduzindo drasticamente o consumo de energia.

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Sustentabilidade
Em um cenário onde a segurança ambiental é protagonista, o modelo adotado no Norte de Goiás se destaca pela tecnologia limpa. Os especialistas afirmam que a operação foi desenhada com controles robustos desde o início, visando mitigar qualquer risco de contaminação do lençol freático.
“A recuperação dos elementos é feita por troca iônica em tanques agitados com solução salina. Recirculamos cerca de 90% da água utilizada e a disposição dos resíduos é feita por empilhamento a seco, em área totalmente impermeabilizada, sem o uso de barragens convencionais de rejeitos úmidos”, afirmam. Esse método utiliza processos químicos menos agressivos, já que os íons estão fracamente ligados às camadas de argila, o que facilita a separação do minério sem a necessidade de triturar grandes volumes de rocha sólida.

Mesmo com a transição de controle para a norte-americana USA Rare Earth, prevista para o terceiro trimestre de 2026, a mineradora garante que o beneficiamento inicial permanecerá em solo goiano. A empresa reforça que não exporta matéria-prima bruta, mas sim o Carbonato Misto de Terras Raras, mantendo o processamento tecnológico em Goiás para transformar o minério em um produto intermediário de alto teor.
Para competir com o custo de produção da China, que hoje domina 90% do mercado, a mineradora aposta em um projeto de otimização financiado por um empréstimo de US$ 565 milhões do governo dos Estados Unidos. “Temos confiança de que podemos competir com a China em razão do trabalho de expansão e do acordo de fornecimento de 15 anos com preços mínimos garantidos, o que reduz riscos e sustenta o desenvolvimento de Minaçu por muitos anos”, finalizam os especialistas.
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