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Comer carne não turbinou evolução humana, aponta estudo

Pesquisa compara períodos antes e depois de 1,9 milhão de anos atrás

Comer carne não turbinou evolução humana, aponta estudo
Comer carne não turbinou evolução humana, aponta estudo (Foto: Pixabay)

A ideia de que o consumo frequente de carne teria permitido um salto sem precedentes na trajetória evolutiva da humanidade pode ser resultado de um simples erro metodológico, afirma um novo estudo.

Ao analisar os sítios arqueológicos da África nos quais se baseia essa hipótese, pesquisadores americanos e sul-africanos dizem que o aparente aumento da proteína animal na dieta dos nossos ancestrais a partir de 1,9 milhão de anos atrás não passa de uma ilusão criada pela frequência maior de escavações nas camadas de rocha com essa idade.

“Considerando que os ancestrais do ser humano claramente retalhavam carcaças de animais pelo menos desde 2,6 milhões de anos atrás, certamente é possível que comer carne tenha tido impacto na evolução da nossa linhagem”, disse à Folha o coordenador da nova pesquisa, Andrew Barr, da Universidade George Washington (EUA).

“Nosso estudo mostra, porém, que qualquer estimativa sobre a importância dos hábitos carnívoros ao longo do tempo precisa lidar com a amostragem extremamente baixa dos sítios arqueológicos durante o período entre 2,6 milhões e 1,9 milhão de anos atrás”, pondera. Sem mais dados sobre essa fase, fica impossível dizer se, de repente, os hominínios (membros da linhagem humana) se tornaram consumidores inveterados de bife, por assim dizer, ou se o processo foi muito mais lento e gradual —portanto, com repercussões menos dramáticas.

O trabalho de Barr e seus colegas, que acaba de sair na revista especializada americana PNAS, compara os períodos antes e depois da “data mágica” de 1,9 milhão de anos porque é nessa época que surge a espécie Homo erectus, primeiro hominínio com características mais próximas dos seres humanos atuais.

Embora os hominínios já tivessem se tornado bípedes muito tempo antes, o H. erectus foi o primeiro a ter proporções corporais essencialmente idênticas às nossas, com pernas longas que provavelmente lhe permitiam se locomover com relativa rapidez e resistência em ambientes abertos. Seu cérebro também passou por um crescimento significativo, alcançando até dois terços do volume cerebral das pessoas de hoje.

As ferramentas de pedra mais complexas produzidas pela espécie talvez sejam um reflexo desse aumento, bem como o fato de que, nos 100 mil anos que se seguiram à sua origem africana, o H. erectus tenha se espalhado por boa parte do Velho Mundo, chegando ao Cáucaso (na fronteira entre a Europa e a Ásia) e até à Indonésia.

Para muitos paleoantropólogos, uma candidata óbvia a “gasolina” desses diferentes processos é a carne, alimento rico nas proteínas e gorduras necessárias para turbinar o desenvolvimento de cérebros maiores (já que o tecido cerebral consome proporcionalmente bem mais energia que o resto do organismo).

Comer carne não seria uma inovação completamente despropositada, já que outros primatas também a consomem ocasionalmente. Os chimpanzés, por exemplo, caçam e comem pequenos macacos, antílopes e suínos quando têm a oportunidade de fazê-lo. Com o desenvolvimento de ferramentas simples de pedra, o H. erectus teria aumentado tanto sua capacidade de capturar pequenos animais como, principalmente, o aproveitamento de carcaças abandonadas por leões, hienas e outros grandes predadores, passando a consumir bem mais proteína animal que a média dos chimpanzés atuais.

No novo estudo, os pesquisadores analisaram os dados vindos de 59 sítios arqueológicos espalhados pela África Oriental, da Etiópia à Tanzânia —região mais importante para entender essa fase da trajetória evolutiva humana. O controle estatístico feito por eles mostrou, segundo Barr, que simplesmente não há um aumento real de indícios sobre consumo de carne (basicamente ossos de animais com marcas de corte neles) no período que vai de 2,6 milhões a 1,2 milhão de anos atrás. O que acontece é que simplesmente os locais com idades mais recentes foram mais explorados pelos cientistas e, portanto, parecem trazer mais dados.

“Além disso, acho que a preservação [das camadas de rocha] tem um papel importante aqui. Há menos sítios paleontológicos no intervalo entre 2,6 milhões e 1,9 milhão de anos atrás, o que sugere que os depósitos [camadas] dessa idade não estão tão expostos na região”, explica ele. Esse fato introduz outro viés nas análises tradicionais, também enfraquecendo a hipótese do consumo de carne como catalisador das mudanças do H. erectus.

Caso essa ideia venha mesmo a ser descartada, o que poderia explicar o “Grande Salto para a Frente” da espécie, então? Há outras cartas na mesa, como a hipótese do cozimento, segundo a qual o uso do fogo teria aumentado a qualidade dos nutrientes em todos os tipos de alimento, inclusive os de origem vegetal. O efeito seria o mesmo: mais energia para turbinar o aumento do cérebro. Barr, porém, pede cautela. “Como dizemos no artigo, as evidências arqueológicas que apoiam qualquer uma dessas hipóteses são limitadas.”