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Como é feita a investigação de efeitos adversos de vacinas

Órgãos de saúde recorrem a especialistas, exames e literatura médica para apurar queixas

Como é feita a investigação de efeitos adversos de vacinas (Foto: Enio Medeiros - SecomAparecida)
Como é feita a investigação de efeitos adversos de vacinas (Foto: Enio Medeiros - SecomAparecida)

Desde o início da vacinação contra a Covid-19, dúvidas, questionamentos, mentiras e erros foram levantados sobre efeitos adversos graves. Mas fique tranquilo: as vacinas foram testadas, são seguras e eficientes em evitar quadros mais graves e mortes pela doença.

Há, é claro, eventos adversos amplamente documentados em relação às vacinas para as mais diversas doenças. No caso dos imunizantes contra o Sars-CoV-2, são comuns dores no local da aplicação, dores de cabeça, calafrios e até sensação febril. Em geral, são efeitos leves.

Mas também existem eventos adversos tidos como graves. Dentro desse grupo, são consideradas as situações que necessitam de hospitalização por pelo menos 24 horas ou prolongamento de hospitalização já existente, disfunção significativa e/ou incapacidade persistente, anomalia congênita, risco de morte ou óbito propriamente dito.

E, para tomar conhecimento de quaisquer eventos, agir e tentar evitar problemas mais sérios, existe um manual internacional, documentos nacionais —como o Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação— e um sistema de farmacovigilância vacinal em níveis nacional e estadual para documentação e acompanhamento dos casos.

A primeira coisa a ser levada em conta na determinação e classificação de um evento adverso é a temporalidade: a relação de tempo entre o evento ocorrido (uma dor no local onde a injeção foi aplicada, por exemplo) e a vacina.

E aqui uma coisa já deve ser destacada. Como aponta a OMS (Organização Mundial da Saúde), um evento adverso pós-vacinação tem a questão “tempo” embutida, mas não necessariamente uma relação causal. Ou seja, por mais que um evento tenha ocorrido após a vacinação, isso não significa que a vacina causou o problema, que pode ter origem em um evento fortuito ou em doenças previamente existentes.

Uma pessoa toma uma vacina e é atropelada em seguida, exemplifica Renato Kfouri, pediatra, infectologista e diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). Isso é um “evento” ocorrido após a vacinação, mas não necessariamente a vacina é culpada por isso.

Praticamente toda a população do país está sendo imunizada e, portanto, com uma campanha vacinal dessa escala, é comum que a vacinação acabe na janela de tempo de outros eventos. Um derrame, um infarte, um acidente de trânsito, tudo isso pode acontecer e entrar em um espaço temporal próximo à vacinação.

“A Covid colocou a gente em uma situação muito complicada. Estamos vacinando muita gente ao mesmo tempo. Tudo que acontece na vida das pessoas está associado temporalmente às vacinas”, diz Eder Gatti, infectologista da divisão de imunização do Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo. “Essas coincidências acabam ficando mais frequentes na vacinação em massa.”

Além disso, o próprio momento de uso de novos imunizantes pode sensibilizar mais os mecanismos de notificação de eventos, que prestam mais atenção a qualquer acontecimento —o que se traduz em mais eventos adversos relatados.