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Derrubada de vetos e votações divididas expõem falhas de Bolsonaro no Congresso

Em situação atípica, 12 vetos caíram em um só dia; governo agiu para adiar e evitar derrota na análise de outros

Bolsonaro faz gesto de mensuração com as mãos abertas uma diante da outra
Bolsonaro faz nova visita a Goiás para assinatura de contrato da BR-153 (Foto: Reprodução - Agência Brasil)

Vetos do presidente Jair Bolsonaro derrubados em série nesta semana, além do fatiamento e do adiamento de votações para evitar uma derrota nos projetos considerados mais relevantes, expuseram as dificuldades do governo em negociar acordo com líderes do Legislativo.

Só na segunda-feira (27), o Congresso derrubou 12 vetos do presidente (9 caíram em bloco), uma situação atípica na relação entre Executivo e parlamentares em gestões anteriores.

Com isso, foram retomados projetos como o que permite que partidos políticos se organizem em uma federação pelo tempo mínimo de quatro anos, o que prevê repasses do governo para ampliar o acesso das escolas públicas à internet em alta velocidade e a suspensão da prova de vida do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Em agosto do ano passado, Bolsonaro já havia se tornado o presidente que mais sofreu reveses na apreciação de vetos pelo Congresso ao menos desde 2000.

Antes, o maior número de vetos derrubados pelos congressistas pertencia a Michel Temer (MDB), que governou o país por quase 31 meses. Nesse período, o Congresso rejeitou 4 vetos totais e retomou dispositivos vetados pelo presidente em 17 propostas.

Apesar da derrubada de vetos nesta semana, líderes minimizam a derrota do governo com a justificativa de que o impacto financeiro dos textos retomados é menor do que o de outros vetos que ainda serão apreciados —caso do plano de promoção do equilíbrio fiscal, que poderia provocar um rombo de R$ 13 bilhões, segundo estimativas de deputados.

Além disso, o governo conseguiu adiar para esta quinta-feira (30) a votação de outros vetos considerados mais relevantes, como o do dispositivo de comunicação enganosa em massa, do projeto que revogou a Lei de Segurança Nacional, a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) e a isenção de tributos sobre receitas de atividades de eventos (o Perse, Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos).

Também ficou para a próxima sessão a votação dos vetos ao projeto de quebra de patentes de vacinas e medicamentos, a privatização da Eletrobras e o acesso à quimioterapia oral por usuário de planos de saúde.

Na disputa pelo comando do Congresso no começo deste ano, Bolsonaro teve uma vitória com a eleição dos dois candidatos que apoiava: Arthur Lira (PP-AL), na Câmara, e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), no Senado.

Nos últimos meses, porém, enfrentou atritos em meio a discursos golpistas e ataques principalmente ao Judiciário.

Em julho, Bolsonaro escolheu o presidente do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), para ser o novo ministro da Casa Civil, buscando consolidar a influência do centrão na cúpula do governo federal.

Em relação aos projetos que ainda serão apreciados pelo Congresso nesta semana, líderes que acompanham as negociações veem risco de derrubada dos vetos ao Perse, à quimioterapia e ao dispositivo sobre fake news no texto que revogou a LSN.

Se o governo não conseguir chegar a um acordo sobre os vetos, há a possibilidade de que a sessão de quinta-feira (30) seja adiada.

Ainda que não minimizem a derrota, parlamentares avaliam que a situação demonstra falhas na articulação do governo para manter pontos que considera prioritários.

“O que se viu é que o governo está totalmente descoordenado, não tem bancada. Foi muito fácil [a derrubada dos vetos]. Acredito que na quinta-feira também haverá dificuldade em negociar”, diz o senador Álvaro Dias (Podemos-PR).

O senador Otto Alencar (PSD-BA) analisa que esse cenário de derrubada e fatiamento dos vetos é reflexo da fragilidade do Executivo. “O governo não tem mais a força que tinha aqui antes, já perdeu, inclusive, em votações simbólicas. Isso reflete a fragilidade política do governo”, afirma.

A votação de segunda-feira evidenciou a dificuldade de articulação do governo.

Mesmo com uma tentativa do PP, alinhada com o Planalto, para manter o veto às federações partidárias, o Congresso derrubou a decisão do Executivo e assegurou uma sobrevida às siglas pequenas, que corriam o risco de serem extintas. O veto foi votado separadamente.​

Essas legendas podiam ser afetadas pela cláusula de barreira (ou cláusula de desempenho), que entrou em vigor em 2018. Ela interessa partidos menores, como o PC do B e a Rede Sustentabilidade, entre outros.