Anitta: “Equilibrivm” segue a lógica de uma gira e reforça combate ao racismo religioso
Album é resultado de um processo de autodescoberta iniciado há três anos

O oitavo álbum de estúdio de Anitta, “Equilibrivm”, lançado na última sexta-feira (18), espelha involuntariamente a estrutura de uma gira e carrega referências diretas ao candomblé da abertura ao encerramento. Em entrevista coletiva virtual, a cantora revelou que o disco começa com a faixa “Desgraça” funcionando como um despacho a Pombajira e caminha até o encerramento meditativo de “Ouro”, passando por “Meia-noite”, outra referência à entidade. “Sempre que a gente vai fazer qualquer ritual, a gente despacha Exu primeiro. No álbum, porém, eu faço com Exu mulher, que é a Pombajira”, explicou. O projeto traz samples de clássicos da religiosidade de matriz africana, como “Canto de Ossanha”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e “Cordeiro de Nanã”, d’Os Tincoãs, e a artista disse esperar que o disco ajude “nesse movimento de combater o racismo religioso, esse preconceito que é muito triste mesmo, e que não faz o menor sentido na minha cabeça”.
Resultado de um processo de autodescoberta iniciado há três anos, motivado por problemas de saúde e efeitos do excesso de trabalho, o álbum é descrito por Anitta como um retrato pessoal, não como uma obra sobre religião ou gira. “A minha intenção com esse álbum é falar do que me faz sentir bem”, afirmou, acrescentando que decidiu “fazer o que desse na telha, com alegria e com propósito de alma” para “mostrar a pessoa que tenho me tornado, com muito orgulho também do meu passado”. A cantora disse não se preocupar com a reação de intolerantes religiosos. “As pessoas que já têm essa coisa do preconceito, essa raiva, esse ódio dentro delas, eu não sei se elas estão abertas para respeitar o lugar do outro, para escutar o outro.”
O disco, o mais flagrantemente brasileiro da carreira de Anitta, foi gravado no estúdio que ela mantém em casa, no Rio de Janeiro, e reúne colaborações com Marina Sena, Liniker, Luedji Luna, Rincon Sapiência, Os Garotin, Ponto de Equilíbrio e Shakira, entre outros. “Ali eu consegui encontrar finalmente o equilíbrio, fazendo as músicas do álbum com meus cachorros. Encontrei uma nova forma de ir trabalhar, que foi com um prazer e sem pressão. Tudo foi fluindo perfeitamente, lá em casa tem muito livro de Orixá, muito livro do Ifá, muita referência indígena”, contou. A quantidade de participações, segundo ela, não foi planejada: aconteceu à medida que identificava afinidades entre faixas e artistas.
Mesmo reconhecendo o risco comercial de lançar um álbum cantado majoritariamente em português num momento de busca por consolidação internacional, Anitta demonstrou desapego em relação a métricas. “Neste momento de carreira, eu não estou ligando se vai dar certo, se vai ter views, se vai ter números, se vai ficar internacional, se o povo fora do Brasil vai curtir, se não vai… Estou meio que tocando o que-se-dane para qualquer fórmula que tenha que se seguir para chegar a certos lugares. As coisas que eu conquistei na minha carreira, eu não trocaria por Grammy nenhum”, declarou. A artista também revelou que “Equilibrivm” foi o álbum em que mais investiu financeiramente, com videoclipes para todas as faixas sob direção criativa de Nídia Aranha.
A turnê do novo disco está prevista para este ano em formato intimista, sem espaço para os hits consagrados. “Vai ser um show em que eu não vou ficar tocando as músicas que a galera quer ouvir. Então, para você ir para esse show, você tem que realmente ter escutado o álbum inteiro, porque é isso que eu vou cantar!”, avisou. Anitta descartou qualquer expectativa de conquistar com o trabalho o público mais conservador, que costuma atacá-la pelos funks explícitos de álbuns anteriores.
Com informações de O Globo
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