SKATE

Pedro Barros se preocupa com Rayssa Leal e defende idade mínima no skate

Medalhista de prata em Tóquio, Pedro Barros, 26, tem um certo receio quando vê a…

Medalhista de prata em Tóquio, Pedro Barros, 26, tem um certo receio quando vê a também prateada Rayssa Leal, 13, competir em disputas de alto nível.

É uma preocupação de skatista para skatista, de parceiro, amigo, de quem com 13 anos começava sua carreira profissional e, 13 anos depois, sabe que apesar das incalculáveis glórias, também há tropeços.

“O skate me trouxe a chance de mudar a vida da minha família. Então, no final, valeu a pena o esforço […] Mas quando vejo crianças competindo nas Olimpíadas, que já é algo difícil o suficiente para eu que tenho 26 anos, vejo elas correndo risco de comprometer sua saúde mental, criar um trauma em cima de uma paixão”, diz à Folha.

“O skate tem que ter uma idade mínima para competir nesses níveis profissionais e com certeza 13 anos não é essa idade”, afirma.

Ele recebeu a Folha no novo espaço da Layback (na Vila Madalena, em São Paulo), marca de cerveja que tem junto com seu pai, André Barros, há 10 anos, cujo retorno serve para seu apoio financeiro e construção de pistas.

Hoje, ele se mostra orgulhoso dos resultados que conseguiu com a empreitada, e o plano é chegar a 16 estabelecimentos no Brasil.

Saindo dos negócios e voltando às pistas, Pedro Barros se recorda da época de criança, quando via seus resultados melhorarem no skate ao mesmo tempo em que suas notas diminuíam na escola.

O skatista só terminou a oitava série porque sua escola entendeu que ele, mesmo jovem, era quem sustentava a família -passou de ano mesmo sem ter notas suficientes para isso.

Diz que tentou alternativas de ensino a distância, sem sucesso. Também chegou a cogitar um supletivo, mas não deu certo. Em um esporte no qual o avanço da idade para competir em alto nível pode ser um problema, resolveu abandonar os estudos.

“O mais louco dessa história é que eu não queria ser um moleque que largou a escola, não queria ser uma pessoa sem um diploma na vida. Pô, é uma vergonha. Eu tinha como objetivo próprio nunca ‘rodar’ [repetir de ano] e terminar a escola”, diz.

Os resultados no skate vieram rapidamente. Já no que seria o seu primeiro ano do ensino médio, aos 15, conquistou seu primeiro X-Games. Antes dos 20, já colecionava outros quatro ouros do torneio, apelidado de Olimpíadas dos esportes radicais. Até que a conta chegou.

“Simplesmente, eu não conseguia mais estar em certos locais, experimentar certas coisas. Só queria ficar com a minha família, com meus amigos. Não queria ter que estar em outro país competindo, não queria entrar numa van com dez pessoas que eu nunca conheci na minha vida e andar de skate das 9h até as 21h”, diz.

“Tive ‘piripaques’ dentro do avião, entrava e ficava em paranoia, quase em pânico. Só pode ter sido por coisas em que me meti pelo skate, as várias competições com plateias enormes ou sessões de autógrafo com um monte de gente.”

Ele compara a adrenalina de uma competição a uma droga. Explica que a dificuldade não era só sustentar a pressão psicológica nas disputas, mas em como saber viver uma vida “normal” recebendo esse impacto o tempo todo.

O atleta agradece às pessoas que teve ao seu redor durante esse tempo. Familiares, amigos e profissionais da área da saúde mental.

“Se não fosse por eles, eu poderia ter literalmente acabado com a minha vida. Então hoje, quando eu vejo uma criança na minha situação, a única coisa que eu penso é: tomara que ela tenha pais muito fodas, que tenha pessoas ao seu redor para sempre”, continua.

Enquanto falava à reportagem sobre amigos do esporte que não conseguiram superar os problemas de saúde mental, o skatista repetiu, mais de uma vez, que desde cedo tinha consciência de que foi o seu sucesso nas pistas que permitiu a mudança de vida da família.

Não demonstra arrependimento, mas defende que hoje as autoridades do skate determinem uma idade mínima para competições profissionais, em prol de preservar a infância e a saúde mental das novas gerações -ainda mais em um mundo em que as redes sociais podem ser tão cruéis com personalidades públicas, como os atletas.

O tema está em discussão na federação internacional e há possibilidade de criação de um piso etário para os Jogos Olímpicos de Paris-2024, o que não ocorreu em Tóquio.

“[Competir tão cedo] acabou sendo abusivo para a minha infância, para a minha vida. E não foi por maldade de ninguém, foi por naturalidade”, avalia.

Nascido em Florianópolis (SC), Pedro Barros viveu parte da infância na Austrália (foi alfabetizado em inglês) e hoje divide a vida entre a cidade natal e Long Beach, nos Estados Unidos.

Voz ativa, junto ao seu pai, na comunidade do skate, ele comemora a entrada da modalidade, que já foi proibida no Brasil, nas Olimpíadas.

Entre divagações sobre o ideal de atleta, críticas à apropriação da bandeira nacional como elemento político e reflexões sobre como o modelo de ensino tradicional não conseguia fazer um moleque dos anos 2000 aprender, Pedro Barros contou um sonho que tem a longo prazo.

“Tenho vontade de criar minha própria instituição de ensino”. Questionado sobre como faria isso, deu apenas algumas pistas: usar o esporte ativamente -“te ensina a cuidar da cabeça e do corpo”-, quebrar o modelo de um professor para dezenas de estudantes e, principalmente, aumentar o diálogo.

“A professora tinha que ensinar 25 alunos dentro de uma sala de aula e nunca tinha tempo para conversar com um de uma forma humana”, completa.