Agência O Globo

Harry Potter ganha edição comemorativa aos 20 anos de lançamento no Brasil

Saga Harry Potter formou leitores e abriu espaço para literatura jovem nacional. Editora lançou também box para colecionadores

Publicado há 20 anos no Brasil, 'Harry Potter' formou leitores e abriu espaço para literatura jovem nacional
Saga Harry Potter formou leitores e abriu espaço para literatura jovem nacional. Editora lançou também box para colecionadores

Os sete títulos protagonizados por Harry Potter, com uma média de 400 páginas por volume, não assustaram seu público, pelo contrário. Em todos os países nos quais foram publicados, os livros da saga criada pela britânica J.K. Rowling conquistaram crianças e adolescentes (e de lambuja, muitos adultos), e abriram caminho para o surgimento de novos autores e séries juvenis de fôlego.

Por aqui, tudo começou em 1998, quando Paulo Rocco, fundador da editora que leva seu sobrenome, foi à Feira do Livro de Frankfurt à caça de títulos infantojuvenis para incrementar o catálogo. Um agente literário britânico recomendou a série que uma cliente sua, que atendia pelas iniciais J.K., estava escrevendo.

O primeiro volume havia sido lançado no ano anterior no Reino Unido, e a autora, que já havia recebido negativas de várias casas editoriais, prometia outros seis.

– Comprei os livros por um preço bem razoável e corremos para traduzir, porque o primeiro tinha acabado de sair nos Estados Unidos e começava a fazer sucesso – recorda.

O primeiro título, “Harry Potter e a pedra filosofal”, chegou às livrarias em 7 de abril de 2000. O Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking da pottermania, com mais de cinco milhões de livros vendidos.

A tradução coube a Lia Wyler, que (re)inventou mais de duas mil palavras do vocabulário do universo do bruxo, como “quadribol”e “bisbilhoscópio” — a tradutora, que morreu em 2018, ganhou muitos elogios da própria Rowling.

Hoje, a Rocco lança edições comemorativas e um box para colecionadores. As capas são assinadas por Brian Selznick, criador de outro best-seller juvenil, “A invenção de Hugo Cabret”. Para o segundo semestre, quando passar a epidemia de Covid-19, a editora promete eventos para celebrar 20 anos de bruxaria pelo país.

Após o sucesso de J.K. Rowling — ampliado pelos filmes estrelados por Daniel Radcliffe no papel principal —, editores passaram a apostar em séries capazes de manter o interesse dos jovens leitores por vários volumes, como “Crepúsculo”, “Jogos vorazes”, “Percy Jackson e os olimpianos” e até “50 tons de cinza”.

Ao cair no gosto dos adolescentes, “Harry Potter” ajudou a formar o público leitor que depois impulsionou também as vendas dessas séries.

— “Harry Potter” criou uma geração de leitores de best-sellers — afirma a agente literária Alessandra Ruiz, da Authoria. — Quem começou com “Harry Potter” em 2000 também leu “Crepúsculo” na adolescência e, aos 20 e poucos, “50 tons de cinza”. Quem descobriu gostar de fantasia continuou lendo ficção científica e distopias. São leitores maduros, que aprenderam a gostar de ler com a série e hoje consomem todos os gêneros.

Do fandom à fanfic

Alessandra lembra ainda que os jovens descobriram em “Harry Potter” uma fonte de entretenimento que não competia com internet, mas era reforçada pelas comunidades virtuais. Eram os primórdios do “fandom”, as legiões de leitores que ocuparam a internet com seus fã-clubes.

“Harry Potter” não se limitou a formar leitores. Não são poucos os jovens autores que começaram escrevendo fanfics (ficções de fã), que tomavam emprestado personagens da série.

– Comecei a escrever fanfics de “Harry Potter porque me incomodava com alguns aspectos na narrativa, tipo quem morria, os casais que se formavam – conta Luisa Geisler, autora de “Enfim, Capivaras” e “De espaços abandonados”. – A ideia de começar a publicar surgiu com as fanfics e foi um crucial para me tornar autora.

Bárbara Morais, autora da trilogia fantástica “Anômalos”, publicada pelo selo Gutenberg, da Autêntica, também escrevia fanfic. Hoje, faz mestrado em Desenvolvimento Econômico na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e trabalha com a hipótese de que os índices de leitura no país melhoraram na última década porque a “geração Harry Potter” não largou mais os livros.

— Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, em 2011 50% dos brasileiros eram leitores e liam, em média, 3,7 livros por ano. Em 2015, eram 56% de leitores e uma média de 4,5 livros por ano. O aumento não é trivial —diz ela. — Os jovens que começaram a ler “Harry Potter” seguiram lendo outros livros.

Editores também passaram a investir em autores nacionais que pudessem cair no gosto dos jovens, frequentar as listas de mais vendidos e a lotar eventos, como Paula Pimenta, Carina Rissi e até youtubers como Felipe Neto.

– Antes, o mercado achava que livro juvenil era para biblioteca de escola – afirma Ana Lima, editora-executiva da Rocco. – “Harry Potter” provou que esses livros podiam ter vendas espetaculares.

Ana lembra que várias editoras criaram selos dedicados à literatura jovem: Seguinte (Companhia das Letras), Galera Record, Rocco Jovens Leitores,Alt (Globo Livros) e outros.

Uma das primeiras a pegar carona do fenômeno “Harry Potter” foi Thalita Rebouças, autora de “Fala sério, mãe!” e “Tudo por um popstar”. Ela também estreou em 2000.

– Quando comecei, pensava que, entre um “Harry Potter” e outros, os adolescentes iam ler meus livros. E isso aconteceu mesmo. Eles me diziam: “Estou lendo ‘Harry Potter’ e você”. – diz Thalita. – Devo muito a J.K. Rowling!

Passados 20 anos, o desafio das editoras é descobrir o feitiço que vai fazer a criançada que nasceu colada às telas a gostar de livros.

– Estou otimista – diz Alessandra, da Authoria. – Essas crianças são filhas da geração “Harry Potter” e vão crescer em casas cheias de livros.