Lucratividade e perspectivas da pecuária são o foco no 2º dia da ExpoPec

Nesta sexta-feira (24), palestrantes do evento discutiram como tornar a produção animal um negócio mais rentável e as expectativas para esse período de crise

Se o primeiro dia da ExpoPec focou suas atenções nas repercussões da Operação Carne Fraca, o segundo dia foi centrado em processos que podem tornar a pecuária um negócio mais rentável e nas perspectivas do mercado para o futuro. Nesta sexta (24), palestrantes dividiram suas experiências com o público presente e deram dicas sobre como desenvolver uma atividade economicamente sustentável.

O pecuarista sul-matogrossense André Bartocci foi o primeiro palestrante do dia. Ele falou sobre produtividade e dividiu suas experiências com os produtores rurais goianos, discutindo sistemas de quantificação e a importância da atenção a mudanças no mercado e nas novas técnicas que surgem cotidianamente. “As melhorias do manejo e, consequentemente, da gestão são essenciais para o aumento de produtividade. A maioria das tecnologias, quando são aplicadas sem a parte operacional correta, perde grande parte do seu benefício”, disse.

Para ele, o maior gargalo atual na pecuária é a falta de capacitação dos trabalhadores. “O peão tradicional não está preparado para a pecuária moderna, mas é mais fácil prepará-lo que trazer pessoas da cidade”, avalia. Além disso, ele destacou a importância de garantir o cuidado à família do trabalhador — inclusive a educação de seus filhos — como forma de garantir que haja verdadeiro comprometimento com o negócio.

André também destacou alguns dos potenciais riscos futuros à pecuária, entre eles o crescente processo de urbanização. “Não tem como parar isso, o que quer dizer que no futuro vamos ter que lidar com consumidores que nunca viram uma vaca na vida, que vão nos julgar de forma diferente”, afirmou.

Por fim, o pecuarista frisou a importância de garantir uma vida digna aos animais criados para o abate. “Todos os envolvidos com essa área lidam com um negócio que tende à morte de um grande animal. Nenhum produto desse vai ser realmente de qualidade se a gente não respeitar a dignidade da vida desse ser”, afirmou. “Digo isso, entre outros motivos, porque nós temos o único sistema de produção em larga escala do mundo que pode evoluir em bem estar animal”, reforçou.

Lucratividade

O especialista em Gestão do Agronegócio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-GO), Marcelo Penha, discutiu medidas para tornar a pecuária um negócio mais rentável. Para ele, trata-se de um fator fundamental para o produtor fazer um diagnóstico eficiente de seu modelo de produção.

Entre quesitos que devem ser analisados, lista, estão solo, genética, sanidade e suplementação. “Tudo isso na mão das pessoas que estão fazendo trabalho na fazenda, juntamente com proprietários e administradores da propriedade”, ressalta.

Marcelo pontuou a necessidade de aplicação de técnicas corretas de manejo do gado e apartação e defendeu que os produtores devem estar atentos à visão dos consumidores. “Os consumidores querem saber que você trata bem os animais, como é que funciona a produção sem agredir o meio ambiente, então isso tudo é muito importante”, acentuou.

Apresentando dados que refletem o cenário internacional, o especialista pontuou que o País ainda tem um grande potencial de crescimento no setor.

Ovinocultura + Bovinocultura

André Rocha discutiu os benefícios da criação conjunta de gados e ovinos (Foto: Larissa Melo)

O inspetor técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos, André Rocha, explanou sobre os benefícios de criar, de forma consorciada, ovinos e bovinos em uma mesma propriedade. Para ele, trata-se de uma forma de aproveitar melhor as propriedades rurais ao mesmo tempo em que se explora uma atividade em ascenção.

“Lembrem-se que o carneiro é um animal que se adapta bem a encostas. Existem países onde na parte baixa se cria o gado e na parte alta se cria ovinos”, destacou. “Então temos essa característica que pode ser utilizada. Estamos aproveitando uma área que não é aproveitada na sua propriedade.”

André reforçou ainda que animais como carneiros e ovelhas se alimentam – sem sofrer prejuízos – de pragas e plantas tóxicas que normalmente afetam os gados, o que se reflete em redução de custos na produção. Outro benefício é o fato de que os ovinos costumam comer em áreas onde vacas e bois defecaram – coisa que os próprios bovinos não fariam. Com isso, haveria o aproveitamento de até cerca de 40% das áreas das propriedades que de outra forma estariam desperdiçadas.

Mesmo apontando uma série de potenciais benefícios do consórcio entre ovinocultura e bovinocultura, André explica que há percalços para isso. Ele lista, por exemplo, a falta de mão de obra qualificada para lidar com as ovelhas e carneiros no País, a presença de predadores naturais e a necessidade de criação de acomodações diferenciadas, já que há uma disparidade entre o tamanho deste tipo de animal e o de bois e vacas.

Desafios e soluções

Para Kellen Severo, a economia brasileira dá sinais de recuperação, ainda que de forma tímida (Foto: Fredox Carvalho)

Kellen Severo, editora chefe do Mercado & Cia., do Canal Rural, palestrou sobre os macrodesafios e as microssoluções que rondam a pecuária no cenário atual. Ela buscou demonstrar ao público os principais obstáculos a serem enfrentados e também que, aos poucos, a economia brasileira está retomando seu fôlego.

Para a editora, os pecuaristas devem passar por dificuldades por fatores como a revisão do crescimento do País, o rombo nas contas públicas, a desvalorização do dólar, o iminente aumento dos impostos, os reflexos da Operação Carne Fraca e a tensão política que ocorre no Brasil. Em seu entendimento, a “lua de mel” entre o presidente Michel Temer e o empresariado está perto do fim.

“Até agora o mercado financeiro não foi cruel com Temer. Com todos os ministros sendo citados na Lava Jato, as quedas dos ministros – quase um por mês –, você não viu o dólar explodir, viu?”, disse, pontuando que o mercado financeiro dá sinais de que já não deve ser mais tão complacente com o governo federal. “Se a paciência do mercado financeiro está chegando no fim, é porque ele tem uma maior percepção de risco, e o dólar é uma variável muito sensível a essa percepção”, acrescentou.

Ainda assim, ela afirmou que o País dá sinais de melhora econômica, mesmo que a recuperação esteja “no fio da navalha”. Entre os sinais descritos estão a redução da inflação, a redução das taxas de juros, o Risco País menor e o dólar na faixa entre R$ 3,30 e R$ 3,40, com possibilidades de alta ainda maior até o fim do ano, o que é benéfico para os exportadores. “Estamos no fundo do poço tentando pegar aquela cordinha que jogaram para a gente. Ou a gente se enforca ou pega ela para subir”, metaforizou.