Mãe interrompe professora de Goiânia para dizer que existe fraude na urna eletrônica

Em vídeo que circula pelas redes sociais, mulher cita fakes e insiste que existem várias provas contra o equipamento

OAB-GO: partido pede que advogados inadimplentes tenham direito a voto (Foto: Reprodução)
OAB-GO: partido pede que advogados inadimplentes tenham direito a voto (Foto: Reprodução)

Circula pelas redes sociais o vídeo de uma mulher que interrompe a aula de uma professora de uma escola particular de Goiânia. A mãe de um aluno reage ao ouvir a profissional de educação dizer suspostamente – não há esse trecho no vídeo – que não existem fraudes nas urnas eletrônicas.

“Pelo que você fala não tem fraude nas urnas, [mas] existem várias provas que têm fraudes“, afirma a mãe em aula remota, interrompendo a professora. “Então, acho que é errado afirmar que não existem fraudes.”

A mulher também cita uma série de fake news já desmentidas para defender que existem fraudes nas urnas. “São crianças e adolescentes em formação. Eles não têm que ter informação X, mas várias informações. Eles estão em uma fase que eles têm que ver os dois lados e não ser afirmado em ‘entrelinhas’ que não existe, porque existe.”

Já a docente tenta explicar que fez uma pontuação, justificando que as últimas eleições foram feitas por voto eletrônico. Além disso, afirma que a questão política é algo pessoal e que a mãe entendeu de forma equivocada a explanação. A mãe, então, volta a dizer que a urna é fraudulenta e que isso já foi comprovado – o que, apesar de diversas insinuações e acusações, não foi comprovado até o momento.

O Mais Goiás não irá divulgar o vídeo para não expor a professora ou a mãe do aluno. A escola particular foi procurada, mas não deu retorno sobre o caso. A portal também tentou contato com a docente.

Sindicato das escolas particulares

O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino Goiânia (Sepe), professor Flávio Roberto de Castro, sem entrar no mérito do tema, vê uma invasão por parte da mãe. Segundo ele, é necessário um convite para a participação de pais, seja aula presencial ou online.

“Será que ela teve esse convite ou autorização para entrar”, indaga. Segundo ele, mesmo online existem critérios, uma vez que o professor faz planejamentos e deve cumprir. “Além disso, uma aula não é local ideal para esses questionamentos. Existe uma forma apropriada para se fazer qualquer reclamação.”

Flávio explica que o pai, em caso de sentir que houve postura inadequada do professor, deve ir à escola e formalizar junto a direção e a coordenação a situação para que haja uma mediação. “Então, ela invadiu um espaço que a princípio não tinha autorização”, reforçou. “Está errada, independente do conteúdo. É direito da família questionar, mas existem formas de se comunicar.”

É preciso procurar e se inteirar sobre a escola

Flávio deixa claro que a escola e os professores não podem fazer o que querem. Contudo, ele diz que quando uma família matricula os filhos em uma unidade de ensino, é preciso verificar o local e conversar, a fim de saber a proposta política-pedagógica da instituição.

“É preciso escolher uma escola que se aproxime da educação e formação que a família quer para o filho. No ato da matrícula, a família precisa procurar propostas próximas de sua visão. E é direito da família ir na escola e fazer questionamentos. Se extrapolar o projeto político-pedagógico, os órgãos competentes farão a abordagem.”

Questionado se houve muitas situações deste tipo, Flávio diz que estas foram mais frequentes no começo da pandemia do novo coronavírus, quando ainda havia adaptação às novas tecnologias. “Mas questões políticas entre professores e alunos sempre existiram. Nos preocupa quando estas diferenças de opiniões não são resolvidas no âmbito racional.”

Supostas fraudes

Vale lembrar, ataques a segurança do equipamento têm sido constantes pelo presidente Bolsonaro (sem partido), que já prometeu, em mais de uma ocasião, provar as fraudes, mas nunca o fez. Inclusive, em live no mês passado, ele chegou a admitir que não poderia comprovar se as eleições foram ou não fraudadas.

“Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas. São indícios. Crime se desvenda com vários indícios. (…) Suspeitas, fortíssimas. As provas você consegue com a somatória de indícios. Apresentamos um montão de indícios aqui”, disse em um discurso que foi considerado “patético” por ministros do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Logo após a liveo ministro do STF Gilmar Mendes classificou a fala de Bolsonaro como “conversa fiada”. “Essa ideia de que, sem voto impresso, não podemos ter eleições ou não vamos ter eleições confiáveis, na verdade, esconde talvez algum tipo de intenção subjacente, que não é boa. (…) Vamos parar um pouco de conversa fiada. Claro que todos nós somos favoráveis à audibilidade da urna, e ela é auditável.”

Segurança

Vale lembrar, o professor Alexandre Azevedo, que é mestre em Direito, Relações Internacionais e Desenvolvimento com orientação em Direito Eleitoral Comparado e técnico do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-GO), disse ao Podcast Poder em Jogo, na última semana, que a urna eletrônica é segura. Segundo ele, além de ser auditável, funciona de forma offline após a impressão do zerésimo (comprovante que não tiveram votos emitido antes do início da votação), o que impede qualquer invasão hacker.

Inclusive, ele ressalta que a própria justiça eleitoral faz testes com hackers e estes nunca chegaram a violá-la. “Não existe nenhum inquérito na Polícia Federal sobre fraude nas urnas.”

Para ele, inclusive, uma acusação de fraude que envolve levar alguém para o segundo turno não faz o menor sentido. “Se ocorresse fraude, seria para tirar um candidato, não para levar ao segundo turno.” A afirmação tem sido feita de forma recorrente pelo presidente Bolsonaro (sem partido), mas nenhuma prova foi apresentada.

Bolsonaro chegou a divulgar links que ele chamou de “provas”, posteriormente. Contudo, os endereços eletrônicos não traziam nenhuma comprovação de manipulação das urnas. As postagens, na verdade, provaram o contrário, segundo especialista.

“Prova que o hacker entrou, deixou rastros, foi descoberto, o tribunal levou à Polícia Federal e foi comprovado que não houve violação nas urnas. Site não é urna e ele não acessou o código fonte”, informou o professor Alexandre Azevedo.