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Mercado estima taxa Selic próxima aos dois dígitos em 2022

Ex-diretores do BC defendem aumento no ritmo de alta da taxa básica de juros

Mercado estima taxa Selic próxima aos dois dígitos em 2022
Mercado estima taxa Selic próxima aos dois dígitos em 2022 (Foto: Reprodução - Agência Brasil)

O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decide nesta quarta-feira (22) qual será o novo patamar da taxa básica de juros do país, a Selic, hoje em 5,25% ao ano. A expectativa majoritária do mercado aponta para alta de 1 ponto percentual, para 6,25% ao ano.

Para analistas e ex-diretores do BC, contudo, o quadro macroeconômico do país demandaria uma atuação mais agressiva da autoridade monetária, de modo a controlar as expectativas de inflação mirando o ano eleitoral de 2022.

Frente à incômoda pressão inflacionária, há até quem já veja no mercado a taxa se aproximando novamente dos dois dígitos no início do ano que vem.

Para o consultor e ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, a política monetária ainda não foi capaz de conter a deterioração nas expectativas de inflação do mercado e, portanto, é preciso fazer mais.

“Todas as indicações estão mostrando que a inflação é bem mais persistente do que muita gente imaginava”, diz Schwartsman.

Ele diz que se trata de um processo cada vez mais disseminado na economia brasileira, e que mais recentemente passou a alcançar também o setor de serviços.

“Para que a inflação caminhe para a meta, o BC terá de fazer um esforço grande”, afirma o consultor.
Ele defende que, quanto mais rápido for feito o aperto na política monetária, maior tende a ser a chance de sucesso do BC no trabalho de convergência da inflação para a meta em 2022.

A meta de inflação a ser perseguida pelo Banco Central no ano que vem é de 3,5%, com uma banda de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

No mais recente relatório Focus, a projeção para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2022 está em 4,10%. A estimativa vem sendo revisada para cima há nove semanas.

Schwartsman avalia que as sinalizações transmitidas recentemente pelo BC indicam que a autoridade monetária pretende manter o ritmo de alta das reuniões anteriores.

“Precisa apertar o ritmo [de alta dos juros]”, diz o consultor, que prevê Selic ao redor de 9% em meados de 2022, para que o BC consiga entregar a inflação na meta no ano que vem.

Um ex-diretor da autoridade monetária que prefere não ser identificado vai na mesma linha e diz que a inflação está ganhando tração. Para este ex-diretor, uma inflação persistente precisa ser combatida com “persistência”.

Segundo ele, embora no Focus a inflação para 2022 ainda esteja perto de 4%, é cada vez mais comum projeções próximas ou até acima de 5%.

Para ele, o BC deveria elevar a Selic em 1,25 ponto percentual; do contrário, e encerrando o ano em 8,25%, dificilmente não voltará a flertar com os dois dígitos para conter as previsões de inflação para 2022.

Os economistas Solange Srour e Lucas Vilela, do banco Credit Suisse, revisaram nesta semana de 8,25% para 9,75% sua projeção para a taxa Selic no fim do ano que vem.

​“Acreditamos que o atual ritmo de aperto de 1 ponto percentual é ideal para as próximas três reuniões deste ano, e mantemos nossa projeção para a Selic em 8,25% no fim de 2021. Apesar disso, consideramos que o forte aumento da inflação corrente e nossas projeções mais altas são compatíveis com a continuidade do ciclo de aperto monetário em 2022”, diz o relatório do banco.

Os economistas esperam agora por mais duas altas da Selic em 2022, de 1 ponto percentual em fevereiro, e de 0,50 ponto em março, com a taxa se mantendo em 9,75% até o fim do ano que vem.

A previsão do banco para a inflação medida pelo IPCA também foi revisada, de 8,1% para 8,5%, em 2021, e de 5% para 5,2%, em 2022, acima da banda de tolerância do BC.

“Não vejo como não acomodar um pouco de inflação para o ano que vem”, diz o sócio da SPX Capital e ex-diretor do BC Beny Parnes, apontando o risco hídrico e as incertezas políticas como fatores que podem pressionar ainda mais os preços nos próximos meses.

Ele avalia que houve um erro na condução da política monetária quando a taxa básica de juros foi levada para 2% em um contexto de elevado nível de incerteza. A queda da Selic nessa magnitude contribuiu para a desvalorização da moeda brasileira mesmo frente a pares emergentes, movimento esse que segue contribuindo até hoje para manter a inflação elevada, afirma Parnes.

Para o ex-BC, a decisão mais acertada da autoridade monetária nesta quarta seria optar por uma alta de 1 ponto percentual, de modo a gerar o menor nível de ruído possível junto aos agentes de mercado. “O BC deveria deixar a imaginação do mercado ser menos fértil”, diz o sócio da SPX.