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Mercado vê piora fiscal com PEC que distribui auxílios em ano eleitoral

A notícia da aprovação piorou o humor dos mercados nesta sexta-feira (1º), já abalados pelos temores de uma forte desaceleração global

A bolsa paulista começava a sexta-feira com o Ibovespa em alta de 14%, acompanhando a recuperação de mercados acionários no exterior. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Foto: Rovena Rosa - Agência Brasil

A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que estabelece um estado de emergência para ampliar e criar novos auxílios sociais, aprovada pelo Senado nesta quinta-feira (30), é uma medida eleitoreira que pode ter efeitos positivos no curto prazo, mas no longo deve piorar o cenário fiscal, avaliam analistas.

A notícia da aprovação piorou o humor dos mercados nesta sexta-feira (1º), já abalados pelos temores de uma forte desaceleração global.

O dólar comercial à vista subiu 1,72%, cotado a R$ 5,3220, maior valor desde 4 de fevereiro. Durante a manhã, a divisa chegou a saltar 2,04%, quando tocou a máxima do dia, de R$ 5,3390.

Investidores redobraram a cautela devido ao sentimento de que a disputa eleitoral vai ampliar o risco fiscal. “O mercado está lendo como uma medida para tentar angariar votos nas eleições”, afirma Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

A analista diz que o Brasil criou um risco doméstico adicional ao colocar em andamento uma PEC que amplia os gastos do governo, que se soma ao temor da recessão mundial, que direciona o mercado. O sentimento foi reforçado nesta sexta pelo resultado abaixo do esperado do índice que acompanha a atividade industrial nos Estados Unidos.

O movimento generalizado de investidores em busca de segurança levou o dólar a ganhar valor sobre quase todas as moedas de países de economia emergente nesta sexta. O real ficou entre as quatro mais depreciadas, considerando 24 divisas monitoradas pela Bloomberg.

Aumentar gastos públicos nesse cenário significa colocar o Brasil em uma situação de vulnerabilidade para lidar com a desaceleração mundial em 2023, pois uma das consequências da crise global tende a ser a queda na arrecadação, diz Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (associação de empresas de crédito e financeiras).

Se por um lado o país terá menos dinheiro em caixa, por outro, precisará gastar mais com o pagamento de juros da dívida pública, ressalta o economista.

“Os estímulos criados pela PEC terminarão neste ano, mas a pressão inflacionária que eles geram levará mais tempo para diminuir, obrigando o Banco Central a manter os juros elevados por mais tempo”, comenta Tingas.

Otto Nogami, do Insper, também destaca os efeitos negativos sobre inflação, despesa e dívida pública.

“Compromete a política fiscal, e vai na contramão do Banco Central, que poderá elevar ainda mais a taxa básica de juros. A combinação desses fatores impactará negativamente sobre o crescimento da economia, comprometendo ainda mais as perspectivas para o futuro.”

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera que a abordagem do governo só tem piorado o cenário fiscal, com consequências de depreciação do câmbio, o que piora a inflação.

“Há um efeito de curto prazo para a população mais pobre, certamente, mas em termos de impacto na economia não muda o crescimento deste ano, pela piora que leva aos outros indicadores. Utilizar todo o arsenal de medidas por uma questão eleitoral piora muito o cenário para 2023. Vai se construindo um cenário de difícil gestão de política econômica”, avalia.

Para o economista André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV (Fundação Getulio Vargas), ainda é difícil saber o efeito final, dado o elevado número de incertezas, com a Guerra da Ucrânia, a evolução dos novos casos de Covid-19 e a eleição no Brasil.

“A PEC focou em coisas que são para conter o avanço da inflação, mas a gasolina por exemplo é um item de luxo, que contribui para a classe média. Devemos esperar no curto prazo uma redução dos preços, mas depois o saldo volta. É claramente uma medida para o governo, mas a própria política monetária enxerga que não é duradoura.”

Ele ressalta que no ano que vem vai ser preciso correr atrás de uma inflação represada, apenas adiando o problema atual. “É complicado operar nesse mundo, em que a gente não sabe qual vai ser a repercussão na política fiscal no longo prazo.”

Bernard Appy, do Centro de Cidadania Fiscal, lembra que a maioria dos economistas entende que a melhor política para o momento atual, de alta nos preços e seu impacto sobre as famílias de baixa renda, é ampliar a transferência de renda.

“O problema é que o governo focou inicialmente em medidas de redução de preços dos combustíveis, a partir disso é que veio a PEC e é preciso olhar o impacto fiscal do todo.”

“O segundo problema é a forma: optou-se por fazer uma emenda claramente rompendo com o teto de gastos e abrindo caminho para que se faça isso novamente no futuro. Em terceiro, é verdade que este ano vai ter alguma folga fiscal, por conta da arrecadação elevada, mas boa parte das medidas da PEC não deve ser temporária. É muito difícil dizer que se irá reduzir a transferência de renda no futuro -é como dizer que se irá colocar a pasta de dente de volta no tubo”, avalia.

Bolsa reage no fim do dia evita 5ª queda semanal

No mercado doméstico de ações, a Bolsa de Valores brasileira acompanhou um movimento de recuperação no exterior provocado por investidores em busca de ações excessivamente desvalorizadas.

Ao encerrar o dia com ganho de 0,42%, o Ibovespa avançou aos 98.953 pontos, fechando a semana com ganho de 0,29%.

A ligeira recuperação após três quedas diárias evitou a quinta semana de baixa consecutiva do indicador de referência da Bolsa. No acumulado deste ano, porém, o Ibovespa cai 5,60%.

No fechamento do segundo trimestre de 2022, o Ibovespa afundou 17,88%. Esse foi o pior resultado desde o mergulho de 36,86% apurado no encerramento do primeiro trimestre de 2020.

Com queda mensal de 11,5%, o Ibovespa também teve em junho o seu pior mês desde o tombo de 29,9% em março de 2020. No acumulado do primeiro semestre, a baixa foi de 5,99%.

Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura, descreveu o semestre encerrado na véspera como “brutal para os mercados” e destacou a perspectiva de recessão mundial como fator determinante para a alta da taxa de câmbio. “O clima é mesmo de aversão ao risco”, comentou.

Nos Estados Unidos, o índice S&P 500 fechou o dia com ganho de 1,06%. A sessão de recuperação ocorreu, no entanto, após o indicador de referência da Bolsa de Nova York ter afundado 21% no primeiro semestre, o mergulho mais profundo desde 1970.

Analistas apontam a inflação mundial como principal vilã dos investimentos neste ano. A alta de preços foi provocada pela ruptura das cadeias de abastecimento durante a pandemia combinada às medidas de estímulo adotadas pelas maiores economias do planeta.

A Guerra da Ucrânia agravou o problema da oferta porque restringiu a disponibilidade global de grãos e de petróleo.

Para enfrentar a maior inflação em quatro décadas, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) vem acelerando a escalada dos juros no país, ampliando temores de que esse aperto ao crédito poderá provocar recessão no país, prejudicando toda a economia mundial.

Apesar de ainda insuficiente para frear a inflação, a restrição ao crédito desenhada pelo aperto do Fed passou a ser observada com ainda mais preocupação após dados econômicos desta semana mostrarem desempenho abaixo do esperado.

“É difícil elencar qual dado econômico fez mais estrago nas perspectivas de crescimento nos Estados Unidos”, comentou Alex Lima, estrategista-chefe da Guide Investimentos, destacando a queda 0,1% nos gastos do setor de construção.

“Todos mostraram deterioração de atividade. Nada fora do desvio padrão, mas claramente apontando para uma desaceleração, principalmente os dados de construção, que antecipam a atividade imobiliária”, disse.