SAÚDE

Caso de menina morta aos dois anos após diagnóstico incorreto dá origem a proposta de lei para diabetes infantil; entenda

Criança foi diagnosticada com amigdalite, mas morreu horas depois por complicações de diabetes tipo 1 não identificado

(AGÊNCIA O GLOBO) A morte da britânica Lyla Story, aos dois anos, menos de 24 horas após receber diagnóstico de amigdalite aguda, levou familiares e especialistas a defenderem mudanças no atendimento pediátrico no Reino Unido. A criança, que deveria celebrar seu terceiro Natal com a família, faleceu em 3 de maio de 2025 no Hospital Real de Hull, em decorrência de complicações de um diabetes tipo 1 não diagnosticado.

Segundo informações divulgadas pela BBC, levado inicialmente ao clínico geral por preocupação da mãe, o quadro da menina foi avaliado como uma infecção comum na garganta. Horas depois, porém, Lyla morreu enquanto dormia. O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune grave, mais frequente na infância, em que o organismo deixa de produzir insulina, levando ao aumento perigoso da glicose no sangue e ao risco de cetoacidose diabética, condição potencialmente fatal se não tratada rapidamente.

A comoção em torno do caso resultou na mobilização da família para a criação da chamada “Lei de Lyla”, proposta que defende a testagem rotineira de bebês, crianças pequenas e pré-escolares com sintomas sugestivos da doença. A petição já reúne mais de 120 mil assinaturas, número suficiente para que o tema seja debatido no Parlamento britânico nos próximos meses.

Pedido por mais atenção e diagnóstico precoce

Em depoimentos e artigos publicados em entidades como a Breakthrough T1D e a Diabetes Research & Wellness Foundation, o pai da menina, John Story, afirmou que a morte da filha expôs falhas recorrentes no sistema de saúde. Segundo ele, crianças muito pequenas nem sempre conseguem expressar seus sintomas, o que torna essencial uma avaliação mais cuidadosa por parte dos médicos. Um simples exame de urina, argumenta, poderia ter revelado níveis elevados de cetonas e levado a um encaminhamento urgente.

Em setembro de 2025, um legista concluiu que o clínico geral fez um “diagnóstico razoável” de amigdalite, mas o legista sênior Paul Marks anunciou o envio de uma Carta de Preocupação ao Royal College of General Practitioners e ao Royal College of Paediatrics and Child Health, pedindo maior educação e atenção ao diabetes tipo 1. Para ele, a condição precisa estar “na linha de frente das preocupações médicas”.

Organizações especializadas reforçam o alerta. Clare Howarth, da Diabetes UK, destacou à BBC que o tempo é decisivo e que testes rápidos de glicemia capilar podem evitar mortes. “Se detectarmos o início do diabetes tipo 1 precocemente, significa que as pessoas não morrerão”, afirmou. Estima-se que cerca de 400 mil pessoas vivam com a doença no Reino Unido.

O NHS (Serviço Nacional de Saúde) declarou condolências à família e informou que os profissionais seguiram diretrizes clínicas baseadas em evidências. As normas do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE) determinam que, havendo suspeita de diabetes tipo 1 em crianças, o encaminhamento a um especialista deve ser imediato.

Em resposta à petição, o governo britânico afirmou, em julho de 2025, que ainda não há evidências suficientes para justificar testes obrigatórios de rotina, embora reconheça benefícios potenciais da identificação precoce por meio de triagem de anticorpos.

Um estudo sobre a viabilidade desse rastreamento em crianças de três a 13 anos está em andamento. Para John Story, a proposta representa um legado da filha e uma forma de evitar que outras famílias enfrentem a mesma perda.