Caso raro

Colombiana descobre que filhos gêmeos têm pais diferentes; Goiás já registrou um caso

Situação surpreendeu até pesquisadores com décadas de experiência; em 2022, jovem de Mineiros viveu mesma situação

O que começou como um exame de rotina terminou com uma descoberta que intrigou a ciência. Dois anos após dar à luz gêmeos, uma mulher colombiana procurou o Laboratório de Genética de Populações e Identificação da Universidade Nacional da Colômbia para confirmar a paternidade dos filhos — e recebeu um resultado inesperado: os meninos tinham pais diferentes.

O fenômeno tem nome: superfecundação heteroparental. Ele ocorre quando dois óvulos liberados no mesmo ciclo menstrual são fecundados por homens distintos. Segundo especialistas, existem cerca de 20 casos semelhantes registrados em artigos científicos no mundo.

Goiás já teve um caso

O fenômeno não é exclusividade da Colômbia. Em setembro de 2022, um caso semelhante chamou atenção em Mineiros, no sudoeste de Goiás. Uma jovem de 19 anos deu à luz dois meninos gêmeos que, segundo o médico que a acompanhou, Túlio Jorge Franco, seria o 20º caso registrado no mundo de superfecundação heteroparental.

A descoberta aconteceu quando os bebês tinham oito meses. A mãe fez um exame de DNA com o homem que acreditava ser o pai — e o resultado deu positivo para apenas um dos filhos. Ela então se lembrou de ter tido relação com outro homem no mesmo dia e o chamou para fazer o exame, que confirmou a paternidade do segundo menino.

“Eu fiquei surpresa com os resultados. Não sabia que isso podia acontecer. Eles são muito parecidos”, disse a jovem, que preferiu não se identificar.

A gestação foi tranquila e os meninos nasceram saudáveis. O pai de um deles assumiu as duas crianças e realizou os registros em cartório. Hoje, os meninos têm quase 5 anos. O médico Túlio Franco e seus alunos da faculdade de medicina de Mineiros estudam o caso com o objetivo de publicar um artigo científico em revistas nacionais e internacionais.

Como foi confirmado na Colômbia

Os cientistas utilizaram uma técnica baseada em “marcadores microssatélites” — pequenos trechos do DNA que funcionam como uma impressão digital genética. Foram analisados 17 desses marcadores a partir de amostras de sangue da mãe, das crianças e do suposto pai. O resultado mostrou que apenas um dos gêmeos tinha compatibilidade genética com o homem testado. Diante da descoberta, os cientistas repetiram todo o procedimento para descartar erros — e o resultado se confirmou.

A surpresa foi até para os especialistas mais experientes. “Sou diretor do laboratório há 26 anos e este é o primeiro caso que presenciamos”, afirmou o geneticista William Usaquén. “E, até agora, o único.”

Por que é tão raro?

Segundo Usaquén, vários eventos improváveis precisam acontecer ao mesmo tempo: a mãe deve ter dois parceiros sexuais em um curto espaço de tempo, ovular mais de um óvulo no mesmo ciclo e ambos precisam ser fecundados. “Trata-se de um evento raro, somado a outro evento raro, mais um e mais outro”, explicou o pesquisador.Os óvulos permanecem viáveis por apenas 24 a 36 horas após a liberação, o que reduz ainda mais as chances. Por outro lado, os espermatozoides podem sobreviver por até 72 horas no organismo feminino.

Pode ser mais comum do que se pensa

Pesquisadores acreditam que a condição pode não ser tão excepcional quanto parece, já que a maioria das famílias nunca realiza testes de paternidade. Com o avanço da popularidade desses exames e dos métodos moleculares mais modernos, especialistas avaliam que mais casos semelhantes podem surgir nos próximos anos. A estimativa é que esse tipo de gestação ocorra em cerca de um a cada 13 mil nascimentos.

Apesar do interesse científico, os pesquisadores ressaltam que há limites éticos na investigação. “Os testes de filiação sempre são realizados respeitando a integridade e a intimidade das pessoas”, explicou Usaquén. Os aspectos da vida pessoal que não sejam relevantes para a análise genética não são investigados.