Como a CIA localizou Khamenei e coordenou ataque que matou líder do Irã
Operação militar no Irã teve horário mudado para aproveitar reunião em Teerã do líder supremo com altos funcionários

(Folhapress) Pouco antes de os Estados Unidos e Israel iniciarem o ataque contra o Irã, a CIA localizou com precisão talvez o alvo mais importante: o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país.
A CIA vinha rastreando Khamenei há meses, ganhando cada vez mais confiança sobre suas localizações e seus padrões, segundo pessoas familiarizadas com a operação. Então a agência descobriu que uma reunião de altos funcionários iranianos aconteceria na manhã de sábado (28) em um complexo de liderança no coração de Teerã. O mais importante: a CIA soube que o líder supremo estaria no local.

Os Estados Unidos e Israel decidiram ajustar o momento do ataque, em parte para aproveitar a nova informação da inteligência, segundo autoridades com conhecimento das decisões.
A situação proporcionou uma janela de oportunidade para os dois países alcançarem uma vitória crítica e antecipada: a eliminação de altos funcionários iranianos e a morte de Khamenei.
O ataque certeiro refletiu a estreita coordenação e o compartilhamento de inteligência entre os Estados Unidos e Israel na preparação para o ataque, e o profundo conhecimento que os países haviam desenvolvido sobre a liderança iraniana, especialmente após o conflito de 12 dias do ano passado. A operação também mostrou a falha dos líderes iranianos em tomar precauções adequadas para evitar se expor em um momento em que tanto Israel quanto os EUA enviaram sinais claros de que estavam se preparando para a guerra.

A CIA repassou sua inteligência, que oferecia “alta precisão” sobre a posição de Khamenei, para Israel, segundo pessoas informadas sobre o caso.
Elas e outras que compartilharam detalhes sobre a operação falaram sob condição de anonimato para discutir inteligência sensível e planejamento militar.
Israel, usando os dados dos EUA e também os seus, executaria uma operação que vinha planejando há meses: o assassinato direcionado dos líderes seniores do Irã.
Os governos dos EUA e de Israel, que originalmente planejavam lançar um ataque à noite sob a cobertura da escuridão, tomaram a decisão de ajustar o momento para aproveitar a informação sobre a reunião no complexo governamental em Teerã na manhã de sábado.

Os líderes estavam programados para se reunir onde ficam os escritórios da presidência iraniana, do líder supremo e do Conselho de Segurança Nacional do Irã.
Israel havia determinado que a reunião incluiria altos funcionários de defesa iranianos, incluindo Mohammad Pakpour, comandante-chefe da Guarda Revolucionária; Aziz Nasirzadeh, ministro da Defesa; almirante Ali Shamkhani, chefe do Conselho Militar; Seyyed Majid Mousavi, comandante da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária; Mohammad Shirazi, vice-ministro de Inteligência; e outros.
A operação começou por volta das 6h em Israel (1h em Brasília), quando caças decolaram de suas bases. O ataque exigiu relativamente poucas aeronaves, mas elas estavam armadas com munições de longo alcance e altamente precisas.
Duas horas e cinco minutos após os jatos decolarem, por volta das 9h40 em Teerã (3h10 em Brasília), os mísseis de longo alcance atingiram o complexo. No momento do ataque, altos funcionários de segurança nacional iranianos estavam em um prédio do complexo. Khamenei estava em outro prédio próximo.

“O ataque desta manhã foi realizado simultaneamente em vários locais em Teerã, em um dos quais figuras importantes do escalão político-securitário do Irã estavam reunidas”, escreveu um oficial de defesa israelense em uma mensagem analisada pelo The New York Times.
O oficial disse que, apesar dos preparativos iranianos para a guerra, Israel conseguiu a “surpresa tática” com seu ataque ao complexo.
A Casa Branca e a CIA se recusaram a comentar.
No domingo (1°), a agência de notícias estatal do Irã, IRNA, confirmou as mortes de dois líderes militares de alto escalão que Israel disse ter matado no sábado: Shamkhani e Pakpour.

Pessoas informadas sobre a operação a descreveram como produto de boa inteligência e meses de preparativos.
Em junho do ano passado, com o planejamento em andamento para atacar os alvos nucleares do Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o país sabia onde Khamenei estava escondido e poderia tê-lo matado.
Essa inteligência, comentou um ex-funcionário americano, era baseada na mesma rede em que os EUA confiaram no sábado.
Mas desde então, as informações que os norte-americanos conseguiram reunir só melhoraram, segundo o ex-funcionário e outras pessoas com conhecimento da investigação. Durante aquela guerra de 12 dias, os EUA aprenderam ainda mais sobre como o líder supremo e a Guarda Revolucionária se comunicavam e se movimentavam sob pressão, relatou o ex-funcionário. Os Estados Unidos usaram esse conhecimento para aprimorar sua capacidade de rastrear Khamenei e prever seus movimentos.
Norte-americanos e israelenses também haviam reunido informações específicas sobre as localizações de oficiais-chave da inteligência iraniana. Em ataques subsequentes ao bombardeio ao complexo de liderança no sábado, locais onde líderes de inteligência estavam hospedados foram atingidos, segundo pessoas familiarizadas com a operação.
O principal oficial de inteligência do Irã escapou, mas os escalões superiores das agências de inteligência iranianas foram dizimados, de acordo com pessoas informadas sobre a operação.