Trump ameaça Irã: ‘uma civilização inteira vai morrer hoje’
Declaração de Trump sugere possibilidade de haver um ataque em larga escala contra o Irã nas próximas horas. Veja o que se sabe

(Folhapress) Em uma das ameaças mais contundentes ao regime e à população do Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escreveu em uma rede social na manhã desta terça-feira (7) que uma “civilização inteira” vai morrer em ataques americanos caso as partes não cheguem a um acordo para a reabertura do estreito de Hormuz nas próximas horas.
A declaração, que sugere ataques massivos e destruição em larga escala, ocorreu num momento em que autoridades e especialistas manifestam temores de que as ofensivas dos EUA contra o Irã possam configurar crime de guerra. Na véspera, Trump já havia afirmado que todo o país poderia ser destruído em uma única noite.
“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”, escreveu Trump na plataforma Truth Social.

Pelo menos 3.546 pessoas foram mortas desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, segundo a organização de direitos humanos Agência de Notícias dos Ativistas de Direitos Humanos (Hrana, na sigla em inglês), com sede nos EUA. Desse total, 1.616 eram civis, incluindo pelo menos 244 crianças.
Os ataques, contudo, não fizeram o Irã recuar, e o estreito de Hormuz permanece fechado. Em resposta, Trump, que tem adotado posicionamento cada vez mais agressivo, fez um ultimato para que o canal por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial seja reaberto.
E nos últimos dias, o republicano vem reforçando o prazo que deu à liderança persa: esta terça, 21h, pelo horário de Brasília. O presidente americano também disse que, caso não haja acordo até lá, “todas as pontes e todas as usinas de energia” do Irã serão destruídas a partir de 1h de quarta (8) —segundo críticos e especialistas, ataques contra a infraestrutura civil podem configurar crime de guerra.
Em um evento ao lado da primeira-dama, Melania, o presidente foi questionado se não considerava que estava cometendo crimes de guerra ao ameaçar atingir a infraestrutura civil, incluindo pontes e usinas energéticas. “Não, porque eles são animais”, disse o presidente sobre os iranianos.

As declarações recentes e a publicação desta terça motivaram críticas de adversários de Trump. A deputada democrata Alexandria Ocasio Cortez falou em ameaça de genocídio e destituição do líder republicano. “As faculdades mentais do presidente estão em colapso e não se pode confiar nele”, escreveu ela no X. “Isso é uma ameaça de genocídio e justifica a sua destituição do cargo.”
A democrata Sarah McBride fez declaração semelhante. Segundo ela, um presidente não pode “ameaçar cometer genocídio com o uso das Forças Armadas”. Hakeem Jeffries, o líder democrata da Câmara, afirmou que o Congresso deve pôr fim ao que chamou de guerra irresponsável. E o senador Bernie Sanders, independente que costuma votar com os democratas, disse que “dólares dos americanos estão sendo usados para violar gravemente o direito internacional e cometer um grande crime de guerra”.
Já o papa Leão 14 afirmou que as ameaças de Trump são inaceitáveis e podem violar o direito internacional. “Certamente há questões de direito internacional envolvidas, mas, muito além disso, trata-se de uma questão moral”, disse o pontífice americano a jornalistas ao sair de sua residência em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, rumo ao Vaticano.

Mesmo dentro de sua base política, as declarações causaram desconforto. A ex-congressista Marjorie Taylor Greene, que já foi aliada próxima, criticou a retórica, afirmando que “não se pode aniquilar uma civilização inteira” e classificando a postura de “maldade e loucura”.
Diante das críticas, surgiram pedidos para que o gabinete presidencial avalie a aplicação da 25ª Emenda da Constituição americana, que prevê a transferência de poder em casos de incapacidade do presidente para governar.
Em comunicado enviado à agência de notícias AFP, a porta-voz do governo Karoline Leavitt disse que só Trump sabe o que fará com o Irã. A Casa Branca negou, contudo, que o republicano considera usar armas nucleares.

Na mensagem publicada na Truth Social nesta terça, Trump fez ainda referência à morte de lideranças iranianas e escreveu que pessoas “menos radicalizadas” agora estão à frente do país, o que poderia sinalizar abertura para mais negociações.
“Contudo, agora que temos uma mudança de regime completa e total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer. Quem sabe?”, escreveu o republicano. “Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo.”
O presidente americano ainda classificou os últimos 47 anos —período que coincide com a Revolução Islâmica iraniana— como marcados por “extorsão, corrupção e morte”. E encerrou a mensagem com uma bênção ao “grande povo do Irã”.

Do lado iraniano, uma autoridade afirmou que Teerã rejeitou uma proposta de cessar-fogo temporário intermediada por terceiros. Segundo esse posicionamento, qualquer negociação de paz só poderia começar após a interrupção total dos ataques por parte dos EUA e de Israel, acompanhada de garantias de que não seriam retomados e de compensações pelos danos causados.
O regime iraniano ainda pediu que sua população formasse correntes humanas para proteger as usinas de energia do país. O vice-ministro dos Esportes do país, Alireza Rahimi, convocou artistas e atletas para participarem da iniciativa. “Estaremos de mãos dadas para dizer: atacar infraestrutura pública é um crime de guerra”, disse ele em entrevista.
Desde o início da guerra contra o Irã, a Casa Branca e Trump são questionados sobre o objetivo da mudança de regime. A resposta do governo costuma ser que não se trata da prioridade dos ataques e que seria responsabilidade dos iranianos remover os aiatolás do poder.
Apesar da morte do então líder supremo do Irã, Ali Khamenei, ainda no início da guerra em curso, o regime iraniano permanece. Seu filho, Mojtaba Khamenei, foi escolhido como sucessor e assumiu a liderança do país.
A mensagem de Trump sobre a administração de Teerã ainda contradiz posicionamento do republicano. Em março, ele classificou a escolha de Mojtaba como líder supremo de “grande erro”, disse não estar contente e sinalizou que pretendia indicar uma pessoa para substituir o filho de Ali Khamenei.