ESTADOS UNIDOS

Trump ataca Biden, FBI e a mídia em primeiro comício após buscas em sua mansão

Mais do que um comício, o que Donald Trump fez na noite de sábado em…

Mais do que um comício, o que Donald Trump fez na noite de sábado em Wilkes-Barre , na Pensilvânia, parecia um acerto de contas. O ex-presidente dos Estados Unidos falou em público pela primeira vez desde a busca do FBI em Mar-a-Lago, sua mansão em Palm Beach, na Flórida, em 8 de agosto, e poucos dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, o acusar em discurso na Filadélfia de ser uma ameaça à democracia. Diante de uma massa entusiástica de apoiadores, Trump atacou o Departamento de Justiça, o FBI, a mídia, o carro elétrico, Angela Merkel e praticamente tudo o mais à sua frente. Mas, acima de tudo, ele atacou Joe Biden:

— O inimigo do Estado é ele e o grupo que o controla — disse Trump.

Antes de iniciar seu discurso, um vídeo foi exibido nas telas do pavilhão em que Biden é visto tropeçando em algumas escadas, ficando branco ou gaguejando em um discurso. O vídeo terminou com um slogan: “Biden não consegue nem falar. Como vai liderar?”

O próprio Trump questionou as capacidades do democrata depois de criticar seu discurso na Filadélfia, na quinta-feira, dizendo: “E na manhã seguinte ele nem se lembra”. Ele também disse que a luz de fundo vermelha naquele dia fez Biden parecer “o diabo”.

— Joe Biden veio à Filadélfia, Pensilvânia, para fazer o discurso mais cruel, odioso e divisivo já feito por um presidente americano, difamando 75 milhões de cidadãos — disse Trump, referindo-se a seus eleitores. — Todos vocês inimigos do Estado…Vocês querem saber a verdade? Ele é o inimigo do Estado — acrescentou.

Biden deixou claro no discurso de quinta que não estava se referindo à maioria dos republicanos, mas a Trump e seus apoiadores mais ferrenhos, que negam sua vitória em 2020 e incentivam a violência política. O presidente se referiu a eles como os republicanos Maga, iniciais do slogan trumpista “Make America Great Again” (Faça os EUA grandes de novo). Ontem, alguns participantes do comício vestiram camisetas com o slogan “UltraMaga”.

— Não somos nós que ameaçamos a democracia, mas aqueles que querem salvá-la. Vamos retomar o nosso país. A ameaça ao país é a esquerda radical, não a direita — afirmou Trump ao descrever Biden como um “inimigo do Estado”.

Trump levanta paixões. Ele falou diante de quase 8 mil pessoas em um pavilhão quase cheio. A plateia era formada por gente de todas as idades, quase tantas mulheres quanto homens, famílias inteiras de avós, filhos e netos. Principalmente brancos, alguns asiáticos (“Nós, chineses, amamos a América, amamos a liberdade e amamos Trump”, disse uma mulher na fila) e quase nenhum afro-americano, embora um estivesse estrategicamente posicionado atrás de Trump usando uma camiseta que dizia: “Negros por Trump”.

O comício de sábado foi a partida não oficial de sua campanha para as eleições legislativas de 8 de novembro, que estão se tornando em grande parte uma briga entre Trump e Biden, uma repetição das eleições presidenciais de 2020 e possível antecipação das de 2024, às quais o ex-presidente mais uma vez deu a entender que irá concorrer.

O perfil de Trump é uma faca de dois gumes para os republicanos. Mobiliza seus apoiadores e ninguém tem tanta influência em seu partido, mas também incentiva os democratas e pode assustar os eleitores independentes. Por isso, o próprio ex-presidente tem muito em jogo na Pensilvânia , onde o candidato republicano ao Senado, Mehmet Oz, e a governador, Doug Mastriano, venceram as primárias graças a ele e agora estão atrás nas pesquisas. Oz, que deu a Trump mais destaque em seu site do que a ele mesmo, agora o eliminou para não assustar os eleitores moderados. Biden, também ciente da importância da Pensilvânia, visita o estado nesta segunda-feira pela terceira vez em uma semana.

Trump disse que as eleições, nas quais pouco mais de um terço do Senado e toda a Câmara dos Deputados serão renovadas, devem ser um referendo sobre inflação disparada, crime desenfreado, imigração ilegal e corrupção e extremismo. “Este país está indo para o inferno”, Trump repetiu. Em seu discurso, ele passou mais tempo falando sobre seus problemas legais atuais e passados do que falando sobre a investigação da influência russa nas eleições de 2016. E nem se referiu ao aborto, que perdeu a proteção constitucional em junho por decisão da Suprema Corte de maioria conservadora, na qual três dos nove juízes foram indicados por ele.

Entre os seguidores de Trump, o escândalo da busca em sua casa por retenção ilegal de documentos confidenciais da Presidência não cobrou seu preço. “Provavelmente é uma armação do Departamento de Justiça”, disse um dos participantes, na casa dos 70 anos. Trump denunciou a busca como uma manobra política contra ele e seus apoiadores.

— Eles tentam me silenciar e, o que é pior, tentam silenciar você, mas não nos silenciam — disse ele.

Em seguida, Trump repetiu em voz alta o argumento que vem usando nas redes sociais. Ele descreveu as ações do Departamento de Justiça e do FBI como “um dos abusos de poder mais escandalosos de qualquer administração na História dos Estados Unidos” e “uma paródia de Justiça”, “típica de um país do Terceiro Mundo” , apesar de todas as provas contra ele, em particular as centenas de documentos classificados como confidenciais, secretos ou ultrassecretos que os agentes encontraram na varredura depois que os advogados de Trump garantiram que todos haviam sido devolvidos.

— O FBI e o Departamento de Justiça se tornaram monstros cruéis, controlados por bandidos da esquerda radical, advogados e mídia, que lhes dizem o que fazer — acrescentou.

Trump apontou ainda meia dúzia de vezes para a imprensa, localizada na parte de trás da pista do pavilhão, em tom desqualificador, ao qual o público respondeu com vaias aos jornalistas.

— Os democratas estão no meio de uma tentativa desesperada de me impedir de voltar à Casa Branca, onde sabem que vou limpar essa bagunça novamente. Eles querem nos impedir de completar nossa missão de recuperar os valores americanos — disse ele, antes de garantir que a busca do FBI e a investigação do Departamento de Justiça se voltarão contra os democratas. — Eles não apenas invadiram minha casa, mas também as esperanças e sonhos de todos os cidadãos pelos quais lutei — disse o ex-presidente, que denunciou que o FBI vasculhou as coisas de sua esposa e até o quarto de seu filho mais novo, Barron Trump, 16 anos.

Trump disparou em todas as direções. Ele ridicularizou o carro elétrico e a decisão da Califórnia de proibir os carros a combustão a partir de 2035. Ele também disse que avisou a Angela Merkel que ela estava nas mãos da Rússia devido à sua dependência do gás e que ela lhe disse que isso não iria acontecer.

—Os alemães riram quando eu os avisei. Eles não riem mais — disse ele.

Wilkes-Barre, uma cidade de cerca de 45 mil habitantes vizinha de Scranton, cidade natal de Biden, é a sede do condado de Luzerne. Nenhum candidato presidencial republicano venceu lá em décadas, mas foi fundamental para Trump derrotar Hillary Clinton na Pensilvânia em 2016 e, com isso, em todo o país. Com sua mensagem populista, Trump se conectou com os habitantes desta cidade de tradição mineradora e industrial que em menos de um século perdeu quase metade de sua população.

Tanto na fila quanto dentro, os participantes usavam toda a parafernália de Trump. Bonés, camisetas, fotos de Trump vestido de Rambo, bandeiras com todos os seus slogans e cânticos. Havia um bom grupo de motociclistas com suas Harley-Davidsons. Lá dentro, nas quase duas horas de intervalo entre o ato de abertura e a intervenção de Trump, um grupo de jovens dançou loucamente na pista de dança.