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Pílula contra Covid está chegando, mas não substitui a vacina, afirmam especialistas

Medicamentos antivirais contra Covid dos laboratórios MSD e Pfizer são eficazes quando tomados na fase inicial da doença

Entenda por que primeiras pílulas contra Covid são tão promissoras
Governo Bolsonaro inicia conversas com laboratórios para compra de remédios contra a Covid-19 (Foto: Merck)

Pílulas antivirais dos laboratórios MSD (conhecida como Merck nos Estados Unidos e no Canadá) e Pfizer foram comprovadas como um bloqueio importante para as piores consequências da Covid-19, quando tomadas na fase inicial da doença. Mas os médicos advertem as pessoas que hesitam em se vacinar para que não confundam os benefícios dos tratamentos com a prevenção dada pelos imunizantes.

Embora 72% dos americanos adultos já tenham recebido a primeira dose da vacina, segundo pesquisa da Fundação da Família Kaiser, o ritmo de aplicação diminuiu porque o partidarismo político nos EUA divide as opiniões sobre o valor e a segurança das vacinas contra o coronavírus.

A obrigatoriedade da vacinação imposta por empresas, estados e governo federal ajudou a aumentar o número de imunizações, mas também provocou polêmica.

Alguns especialistas em doenças temem que a chegada de tratamentos via oral para Covid-19 prejudiquem novas campanhas de vacinação. Resultados preliminares de uma pesquisa com 3.000 cidadãos americanos feita pela Escola de Saúde Pública da Universidade da Cidade de Nova York sugerem que as drogas podem “prejudicar o esforço para vacinar as pessoas”, disse Scott Ratzan, especialista em comunicação de saúde na instituição, que liderou a pesquisa.

Ratzan disse que um em cada oito pesquisados disse que preferia ser tratado com uma pílula do que ser vacinado. “É um número alto”, afirmou.

A preocupação se segue à notícia dada na sexta-feira (5) pela Pfizer, fabricante de uma das principais vacinas contra Covid-19, de que sua pílula antiviral experimental Paxlovid reduz em 89% o risco de hospitalização e morte pela doença em adultos de alto risco.

Os resultados da Pfizer se seguiram a notícias da MSD e sua parceira Ridgeback Biotherapeutics em 1º de outubro de que sua droga antiviral cortou pela metade as internações e as mortes. Essa droga, chamada molnupiravir, recebeu a aprovação condicional no Reino Unido na quinta (4). Ambas precisam de autorização dos órgãos de saúde dos EUA para serem comercializadas a partir de dezembro.

“Contar exclusivamente com uma droga antiviral é meio um jogo de dados em termos de como você vai ficar. Claramente, será melhor que nada, mas é uma aposta muito alta”, disse o doutor Peter Hotez, especialista em vacinas e professor de virologia molecular e microbiologia no Baylor College of Medicine.

Seis especialistas em doenças infecciosas entrevistados pela agência Reuters estavam igualmente entusiasmados sobre a perspectiva de novos tratamentos eficazes para Covid-19 e concordaram que não há substitutos para as vacinas.

Mesmo diante da variante delta do vírus, altamente transmissível, as vacinas da Pfizer-BioNTech continuam eficazes, cortando o risco de internação por 86,8% combinados, segundo um estudo feito pelo governo americano.

Eles disseram que algumas pessoas não vacinadas já usaram anticorpos monoclonais —drogas que precisam ser administradas por via intravenosa— como barreira caso sejam infectadas.

“Acho que a notícia da Pfizer é maravilhosa. Ela anda de mãos dadas com a vacinação. Não a substitui”, disse a doutora Leana Wen, médica de emergência e professora de saúde pública na Universidade George Washington e ex-comissária de saúde de Baltimore.

Decidir não se vacinar “seria um erro trágico”, disse Albert Bourla, executivo-chefe da Pfizer. “Esses são tratamentos… para os desafortunados que ficarem doentes”, disse Bourla à Reuters em entrevista na sexta. “Não devem ser motivo para não se proteger e colocar a si mesmo, sua família e a sociedade em risco.”

DESAFIOS ANTIVIRAIS

Um dos principais motivos para não confiar nas novas pílulas, segundo especialistas, é que as medicações antivirais, que impedem a replicação do vírus no corpo humano, devem ser dadas logo no início da doença porque a Covid-19 tem fases diferentes.

Na primeira fase, o vírus se replica rapidamente no organismo. Muitos dos piores efeitos da Covid-19, porém, ocorrem na segunda fase, surgindo de uma reação imune deficiente que é provocada pelo vírus replicante, disse a doutora Celine Gounder, especialista em doenças infecciosas e fundadora da Just Human Productions, organização multimídia sem fins lucrativos.

“Quando você apresenta falta de ar ou outros sintomas que o levariam a ser internado, está naquela fase imune disfuncional em que os antivirais realmente não vão ajudar muito”, disse ela.

Hotez concordou. Ele disse que ser tratado cedo pode ser difícil porque a janela da transição do vírus da fase de replicação para a fase inflamatória é fluida.

“Para algumas pessoas, acontece cedo; para outras, mais tarde”, disse Hotez.

Segundo ele, muitas pessoas na fase inicial da doença se sentem surpreendentemente bem e podem não perceber que seus níveis de oxigênio estão caindo, um dos primeiros sinais de que a fase inflamatória da doença começou.

“Muitas vezes você só vai perceber que está adoecendo quando é tarde demais”, disse ele.