Delúbio decide ser candidato a deputado em Goiás: ‘não tenho vergonha do passado’
Petista assegura que não deve nada e que vai ao debate de "peito aberto". Delúbio foi condenado em casos envolvendo o mensalão e lava-jato

O ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT), Delúbio Soares, disse que não tem “vergonha do passado” ao confirmar, em entrevista ao Mais Goiás, o lançamento da sua pré-candidatura a deputado federal por Goiás nas eleições de 2026. O evento que o deixará a um passo da corrida eleitoral está marcado para o dia 6 de maio, no Setor Coimbra, em Goiânia.
À reportagem, o pré-candidato disse que vai enfrentar as urnas e pedir votos em diferentes regiões do estado com tranquilidade. “Não tem nada hoje contra Delúbio Soares. Estou nesse processo para contribuir com o PT e entendi que a forma mais eficaz seria uma candidatura a deputado federal. A minha intenção não é provar minha inocência, até porque ela já está provada. Eu não devo nada a nenhum tribunal, a nenhum juiz, a nenhum promotor”, argumentou.

Natural de Buriti Alegre e formado em matemática, Delúbio iniciou sua trajetória política nos anos 1970. Na década de 1990, passou a integrar o diretório nacional do PT assumindo, mais tarde, a tesouraria do partido. Ele é reconhecido como figura importante das campanhas de Lula (PT) em 1989 e 1998.

Mais tarde, o nome de Delúbio ficou conhecido nacionalmente. Isso porque ele foi apontado como um dos principais articuladores do Mensalão. O episódio, que ficou conhecido como um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil, foi, segundo ele, inventado para frear o avanço do PT no país.
SAIBA MAIS:
- Delúbio ganha fôlego político com apoio de lideranças históricas do PT | Mais Goiás
- Delúbio Soares lança livro para provar que não cometeu crimes | Mais Goiás
“Nosso crescimento [partidário] a partir da eleição de 2002 chamou atenção da classe dominante que se perguntava: ‘como vamos parar o PT?’. Ai eles inventaram e articularam a ideia do mensalão. Essa mentira foi contada várias e várias vezes. E uma mentira contada muitas vezes não vira verdade, mas atrapalha a vida das pessoas”, considerou.

Segundo ele, o que aconteceu à época seria chamado, hoje, de ‘fake news’. “Mas naquela época não existia esse termo no Brasil”, emendou. “O Joaquim Barbosa [responsável pelo caso no Supremo Tribunal Federal] nos condenou por capas de jornal. Não se tinha uma prova de compra de voto. Não se tinha um documento apreendido que comprovava qualquer compra de voto. Os sigilos telefônicos e bancários também não comprovaram nada. Mesmo assim, fomos condenados e cumprimos a pena”, relatou antes de emendar que “aquela ideia não era contra o Delúbio Soares, era contra o Partido dos Trabalhadores e seus aliados”.

Em 2006, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou 40 investigados ao Supremo Tribunal Federal (STF), entre eles Delúbio, José Dirceu (que também deve concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados nas eleições deste ano), José Genoino e Sílvio Pereira. No julgamento, Soares foi condenado a mais de seis anos de prisão por corrupção.
Anos depois, o petista também foi condenado no âmbito da Operação Lava-Jato. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu, mais tarde, que a vara federal do então juiz Sergio Moro, do Paraná, não tinha competência para exercer o julgamento, o que acarretou na anulação da condenação por lavagem de dinheiro.

Apesar de ter seu nome envolvido nesses episódios, Delúbio diz não ter nada a esconder e que irá para o debate ‘olho no olho’. “Debato isso de peito aberto. Não tenho vergonha do meu passado. Muito pelo contrário, tenho orgulho. Nasci debaixo de pau a pique, com pai e mãe analfabetos, e mesmo assim tivemos uma evolução muito importante na nossa vida, o que se deu por meio da educação e por isso eu defendo que a educação seja forte”.

Surpresa
Ao comentar o lançamento de seu projeto político, previsto para o próximo dia 6, o petista disse que o evento terá como foco os goianos. “São eles que vão tomar a decisão em outubro. Mas em todas as atividades que faço aqui sempre vem alguém de fora [do estado]. Então acredito que virão pessoas importantes para prestigiar o nosso lançamento. Na condição de pré-candidato pela legenda, convidei os dirigentes nacionais e estaduais do partido”, pontuou.

Durante passagem pela Câmara Municipal de Goiânia, em outubro do ano passado, o petista também citou a trajetória do irmão, o ex-vereador Carlos Soares, para justificar seu interesse na disputa. Segundo Delúbio, buscar a vaga seria também uma forma de homenageá-lo. Carlos faleceu em janeiro de 2024 após mais de um ano de luta contra leucemia.

“Ele enfrentou um grave problema de saúde e, nas eleições de 2016 e 2020, já não tinha condições de ir às ruas. Minha possível candidatura é também uma forma de dar continuidade ao trabalho que ele sonhava realizar”, declarou em entrevista à imprensa local.
O PT goiano estima eleger pelo menos três deputados federais na disputa deste ano. Nos bastidores, o comentário é de que os favoritos são: Adriana Accorsi, Rubens Otoni, Edward Madureira e o próprio Delúbio.

Propostas
Ao falar sobre os projetos, Delúbio disse que o principal deles é lutar pelo que chamou de “federalização da educação brasileira”. “Sou professor de carreira, dei aula muitos anos e por isso tenho essa proposta. A educação básica no Brasil tem que mudar. O fundo soberano destina royalties do petróleo e do minério à educação. Hoje a educação básica é de responsabilidade dos estados e dos municípios, a proposta que irei apresentar é para que o ensino infantil e ensino médio passe a ser uma responsabilidade do governo federal”, introduziu.
Depois, o petista explicou: “O estado e o município ficarão apenas com a responsabilidade pelo fundamental I e II. Essa nova escola terá ensino integral no padrão IF [Instituto Federal]. A partir disso teremos condição de transformar o Brasil, nos próximos 30 anos, em um país moderno e desenvolvido”.

LEIA TAMBÉM:
- Justiça eleitoral extingue punibilidade de Delúbio Soares por lavagem de dinheiro na Lavajato | Mais Goiás
- Delúbio articula encontro com Wellington Dias para debater políticas sociais em Goiânia | Mais Goiás
O pré-candidato também defendeu propostas voltadas à industrialização goiana, melhorias para o setor energético estadual, além do aprimoramento da malha ferroviária regional. “Outra coisa, já vimos que o BRT é insuficiente. Então precisamos começar a pensar em um metrô para Goiânia”, acrescentou.
Base eleitoral
Nas últimas semanas, o petista em percorrido diferentes regiões do estado. Segundo ele, as visitas têm como objetivo discutir propostas e ouvir a população sobre o “futuro do país”. Ele destacou entre as regiões estratégicas de seu projeto o Sul goiano.

“Sou orgulhoso de ter nascido na melhor cidade do mundo que é Buriti Alegre. Então toda a região é muito importante para mim. Todos os municípios que passam pela BR-153 até Itumbiara, todas as cidades que margeiam o Rio Paranaíba, de Três Ranchos até Itarumã, são importantes. Conheço muitas pessoas e tenho conversado com muitas nessa caminhada. Sem contar as pessoas ligadas à região do Entorno do DF, Goiânia e região metropolitana”, disse.
Governo de Goiás
Questionado sobre a posição do PT na disputa pelo governo de Goiás, Delúbio disse que as definições estão a cargo da presidente estadual da sigla, a deputada federal Adriana Accorsi (PT). “Ela está conduzindo o debate, chamando a federação e ouvindo os aliados para melhor definição. O fato é: o presidente Lula terá um palanque em Goiás. Agora, ela que está debatendo com as siglas”. Questionado se o PT poderia abrir mão de uma candidatura própria, disparou: “Pode ser uma candidatura própria ou pode ser um [partido] aliado [que garanta palanque ao presidente]”, encerrou.