HISTÓRIA

MDB completa 60 anos como maior e mais pragmático partido do Brasil

MDB tem dois milhões de filiados, maior número entre os 30 partidos que existem no sistema político brasileiro

Mais longevo entre partidos com atuação ininterrupta no Brasil, o MDB completa 60 anos nesta terça-feira (24) equilibrando-se entre as bandeiras históricas, o espírito de federação de líderes locais e o pragmatismo de quem busca se manter relevante no cenário político brasileiro.

O partido tem 2 milhões de filiados, maior número entre as 30 legendas em atividade no Brasil. Mas enfrenta um momento desafiador em meio à fragmentação partidária, ao envelhecimento de seus quadros e à perda de espaço entre as prefeituras, onde reinou soberano por mais de duas décadas.

Depois de atingir o seu pior momento na eleição de 2018, quando parte de seus líderes históricos foi derrotada nas urnas, a legenda voltou a aumentar sua bancada na Câmara em 2022 e mira um novo crescimento nas eleições de outubro.

Ex-senador Ulysses Guimarães (Foto: Senado)
Ex-senador Ulysses Guimarães (Foto: Senado)

“O MDB é um partido mais estável porque tem um estatuto e uma democracia interna que dá menos mobilidade para mudanças de rumo, mas dá a estabilidade para que a gente valorize nossa base municipalista e nossa bandeira de defesa da democracia”, afirma o presidente nacional do MDB, deputado federal Baleia Rossi (SP).

O partido foi fundado em 24 de março de 1966 para ser a oposição consentida à ditadura militar, que determinou a extinção das legendas existentes à época com Ato Institucional nº2. Em um sistema bipartidário, seria o contraponto à Arena, partido de sustentação do regime.

Em seus quadros, estavam políticos moderados do antigo PSD que se opunham à ditadura, nomes da esquerda trabalhista egressos do PTB de Getúlio Vargas e até mesmo alguns com histórico no Partido Comunista. Assim, reuniu políticos como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Fernando Lyra.

Ex-presidente Tancredo Neves (Foto: Divulgação)

Seu primeiro ponto de virada aconteceria em setembro de 1973, quando o partido se reuniu em Convenção Nacional para definir o candidato na eleição indireta para suceder o general Emílio Garrastazu Médici. Com a ditadura em um de seus períodos mais sombrios, seria uma disputa de cartas marcadas.

O partido estava dividido, sob pressão do grupo dos autênticos, núcleo combativo de oposição ao regime liderado por deputados como Chico Pinto, Alencar Furtado, Paes de Andrade e Lysâneas Maciel.

“Não estamos em ordem unida, porém […] não temos em nossas decisões a suspeição, a imposição ou o ridículo de certas unanimidades”, afirmou o deputado Alencar Furtado, conforme ata da convenção. O documento será publicado na íntegra no site da Fundação Ulysses Guimarães nesta terça.

Ata de fundação do MDB (Foto: Divulgação/MDB)

O MDB lançou a “anticandidatura” do deputado federal Ulysses Guimarães (SP) à Presidência da República, em uma ação ousada que desafiou os generais. O objetivo era denunciar o processo eleitoral e debater a situação do país, que dava sinais de crise após o milagre econômico.

A campanha conectou a população ao partido, que foi derrotado no colégio eleitoral, mas teria um desempenho surpreendente nas eleições parlamentares de 1974, quando elegeu 16 das 22 vagas em disputa para o Senado. Como resposta, a ditadura criaria três anos depois a figura do senador biônico, eleito indiretamente.

Nos anos seguintes, o MDB teve uma atuação importante no enfrentamento à ditadura no campo político, com apoio às eleições diretas e à elaboração de uma nova Constituição. Em uma manobra do regime, foi obrigado a mudar o nome para PMDB –a sigla original seria retomada apenas em 2017.

Depois de eleger Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1985, o partido governou o país por cinco anos com José Sarney, que assumiu o governo no lugar do presidente que morreu sem tomar posse. A legenda disputaria as eleições presidenciais de 1989, 1994, 2018 e 2022, com resultados pífios.

Ulysses Guimarães discursa em favor da redemocratização (Foto: MDB)

Com forte presença no Congresso Nacional, o MDB participou dos governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula e Dilma Rousseff (PT), mantendo uma relação marcada por crises e tensões.

Há dez anos, quando completou meio século de fundação, o partido havia acabado de desembarcar do governo Dilma, passando a articular abertamente pelo impeachment da então presidente. Um mês depois, Dilma foi afastada e o vice Michel Temer (MDB) assumiu sob acusações de golpe e traição.

Temer fez um governo alinhado com a direita, ancorado no projeto Ponte para o Futuro, enfrentando turbulências, incluindo dois pedidos de abertura de denúncia contra ele. O resultado foi o baque em 2018, na eleição marcada pela ascensão de Jair Bolsonaro. O MDB elegeu apenas 34 deputados federais, ante 66 no pleito anterior.

Em 2022, o partido voltaria a crescer elegendo 42 deputados, mas dois anos depois perdeu para o PSD o posto de legenda com mais prefeitos dos país.

Voltou a se aproximar do PT, assumindo cargos no governo Lula com os ministros Jader Filho (Cidades) e Renan Filho (Transportes) e Simone Tebet (Planejamento) – esta última vai deixar o partido e se filiar ao PSB para concorrer ao Senado.

Michel Temer como presidente da República (Foto: Divulgação/PR)

O partido permanece indefinido para a eleição de outubro, mas a tendência é de neutralidade: “Como país está radicalizado entre dois polos e o MDB tem essa posição de moderação, acredito que a decisão majoritária será pela independência na eleição nacional”, diz Baleia Rossi.

Uma parcela do partido deve apoiar informalmente o presidente Lula, sobretudo em estados do Nordeste, enquanto outra parte se aliar com Flávio Bolsonaro (PL), principalmente no Sul e Centro-Oeste.

Nas bases, o MDB articula candidaturas aos governos de nove estados, com nomes concorrendo em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Pará, Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Paraná e Maranhão.