Engenharia política

Vice em aberto: o peso dos cotados e o cálculo político de Daniel

Governista está entre peso partidário, densidade eleitoral, influência religiosa, força do agro e pressão do Entorno

A escolha do vice na chapa de Daniel Vilela (MDB) se tornou um dos principais pontos de expectativa nos bastidores da política goiana. A decisão estratégica não se resume a uma mera composição de chapa. O desafio é escolher alguém que não apenas dialogue com o projeto governista, mas some forças diante do desafio eleitoral que se desenha.

Hoje, quatro nomes concentram as atenções: Adriano Rocha Lima, Luiz do Carmo, Zé Mário Schneider e Gustavo Mendanha. Os três primeiros são filiados ao PSD. Mendanha, por sua vez, deixou a legenda no mês passado e migrou para o PRD, partido federado com o Solidariedade, em movimento interpretado como estratégico para viabilizar sua indicação. A definição passa por diferentes critérios, como, por exemplo, a densidade eleitoral, a capacidade de agregar segmentos estratégicos e o impacto regional de cada um.

SAIBA MAIS:

Nesse contexto, Adriano Rocha Lima é visto como homem de confiança do governador Ronaldo Caiado. Seu nome representa continuidade administrativa e proximidade direta com o atual governo. Nos bastidores, é avaliado que sua eventual escolha refletiria o peso político de Caiado na futura gestão. Por outro lado, Adriano nunca disputou eleições, não foi testado nas urnas e não possui mandato, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de transferência de votos, fator considerado relevante no cálculo do emedebista.

Nome de Adriano Rocha Lima, o homem de confiança de Caiado, pode refletir o peso do mentor na futura gestão (Foto: Divulgação)

Luiz do Carmo, que assumiu vaga no Senado quando Caiado deixou o cargo para disputar o governo em 2018, carrega a força do segmento evangélico. Ele é irmão do bispo Oides José do Carmo, uma das principais lideranças da Assembleia de Deus em Goiás, reconhecido por sua influência religiosa. Ex-deputado estadual, Luiz já foi testado nas urnas e também mantém ligação com o agronegócio, embora menos intensa que a de outro concorrente direto.

Luiz do Carmo carrega o peso dos evangélicos como principal ativo político (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Esse concorrente é o deputado federal Zé Mário Schneider, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg). Ele é apontado como um dos principais representantes do agronegócio goiano e tem atuação destacada na defesa dos produtores rurais. Internamente, é visto como nome capaz de refletir o peso político do agro na chapa. Além disso, agrega o fator experiência, os ‘cabelos brancos’, característica que também é associada a Luiz do Carmo e que poderia equilibrar a juventude de Daniel.

Zé Mário Schneider pode refletir a força do agro em eventual composição com a chapa governista (Foto: Reprodução)

Gustavo Mendanha, por sua vez, apresenta um perfil distinto. Ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, um dos maiores colégios eleitorais do Estado, ganhou projeção estadual ao disputar o governo em 2018 como oposição a Caiado. É apontado como o nome com maior densidade eleitoral entre os cotados. Sua recente filiação ao PRD é vista como tentativa de ampliar o arco de alianças, já que poderia agregar novas siglas ao grupo governista.

Gustavo Mendanha é visto como o nome de maior densidade eleitoral, mas juventude pode atrapalhar (Foto: Divulgação/Secom Aparecida)

Nos bastidores, contudo, há avaliações de que Mendanha e Daniel têm perfis semelhantes: pertencem à mesma geração, são da mesma região e poderiam transmitir ao eleitorado uma imagem excessivamente homogênea. Por outro lado, sua experiência à frente de uma grande prefeitura é considerada um ativo relevante. Evangélico, Mendanha também representa um aceno ao segmento religioso, ainda que não com o mesmo peso institucional atribuído a Luiz do Carmo.

LEIA TAMBÉM:

As discussões se intensificam em meio à preocupação com a força do bolsonarismo, que costuma surpreender nas urnas. Nesse cenário, a escolha do vice é tratada como peça-chave não apenas para ampliar representatividade, mas também para enfrentar adversários prováveis, como Wilder Morais (PL) e Marconi Perillo (PSDB).

Sede por espaço

Paralelamente, cresce a pressão política para que o vice seja do Entorno do Distrito Federal. A região tem ampliado sua densidade eleitoral e consolidado papel estratégico nas disputas. Até março de 2024, os seis maiores colégios eleitorais do Entorno somavam 539.395 eleitores aptos. Em 2025, o eleitorado total da região foi estimado em 756 mil eleitores, número que reforça seu peso nas eleições de 2026.

Lideranças da região do Entorno do DF pressionam por espaço na chapa governista (Foto: Reprodução)

Lideranças locais argumentam que o Entorno teve papel decisivo na eleição de Caiado e defendem que a região deve ser contemplada na chapa majoritária. Prefeitos e dirigentes municipais articulam nos bastidores em busca da indicação, ainda sem consenso sobre um nome específico.