Prisão de Queiroz enfraquece Bolsonaro, diz cientista político da UFG

Professor afirma que presidente trava várias batalhas, mas não cultiva aliados para ajudá-lo

Prisão de Queiroz enfraquece Bolsonaro, diz cientista político
Prisão de Queiroz enfraquece Bolsonaro, diz cientista político

Um avião só cai depois que todos os motores param de funcionar. Enquanto estiver em alta velocidade e com o nariz apontado para baixo, ele consegue se salvar. É esta a analogia que faz o professor da faculdade de Ciências Sociais da UFG, Robinson Almeida, a respeito do governo Bolsonaro – um governo que opera em situação de alerta. A entrevista do professor Robinson ao Mais Goiás foi dada depois da prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, nesta quinta.

“A prisão enfraquece o presidente Bolsonaro. Seja porque as investigações podem servir de incentivo ao prosseguimento, ou mesmo pela abertura de novas frentes de batalha”. Robinson refere-se, por exemplo, aos pedidos de impeachment, ao inquérito das fake news – inclusive a parte eleitoral –, ao pedido de cassação de chapa, às manifestações antidemocráticas, às investigações da Polícia Federal, às crises com o Ministério Público e até às rusgas com o Supremo Tribunal Federal.

“O fato dele reagir contra uma não apazigua as outras. Tudo que ele precisava era cultivar aliados, que pudesse mobilizar em várias frentes, o que ele não tem conseguido”. Antecipando-se à questão óbvia – “mas e o Centrão?” -, Robinson afirma que, com a deterioração do governo, pode ser que não haja aqueles que queiram “morrer abraçados a Bolsonaro”. “São políticos pragmáticos, que pensam na sobrevivência política”.

Na avaliação do cientista político, o problema vai além: Bolsonaro, ao contrariar o seu discurso de não se aliar ao Centrão, já busca o grupo como última esperança. “Movimento contrário a tudo que tinha pregado. E, se perder esse recurso, pode ser formar a tempestade perfeita contra ele”, avalia. “Como aconteceu com Dilma”, busca um passado recente. “Pela inabilidade dele o quadro tem se indicado para isso.”

Enfraquecimento

Ainda sobre o Centrão, Robinson avalia que, quando um grupo próximo ao presidente se encontra em dificuldades judiciais, os setores dispostos a uma aproximação tendem a se afastar. “Mesmo entre apoiadores. Uma das grandes bandeiras de Bolsonaro foi a luta contra a corrupção.”

Questionado sobre o que se pode esperar do presidente, ele cita que o gestor federal tem reações imprevisíveis. Na quarta-feira (17), por exemplo, ele classificou uma operação realizada contra aliados seus, por determinação do STF, como “abuso”. No dia, ele também afirmou que “está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar”, mas disse que não será o “primeiro a chutar o pau da barraca”, sem explicar a que estava se referindo.

Nesta quinta-feira, porém, ele passou direto pelos seus apoiadores e agendou uma reunião com o ministro da Justiça. No Twitter, rede social em que sempre é ativo, nem um comentário sobre a operação contra Queiroz.

“Imagino que o Bolsonaro tenha que refrear a sua impulsividade. Ele deu sinal disso ao não parar para conversar com apoiadores. Não pode aparecer falando de improviso, tem que pensar em prós e contras e armar uma certa estratégia”, avalia o docente. “Mas uma coisa é óbvia: precisa destituir o advogado da família.” Frederick Wassef, dono do sítio onde Queiroz estava há um ano, é advogado da família Bolsonaro. “Mas será muito difícil explicar o Queiroz no local há um ano e o advogado dizendo que não sabia.”

Queiroz

Robinson aproveitou para especular sobre o relacionamento do clã Bolsonaro e Fabrício Queiroz. Para ele, trata-se de alguém com proximidade de décadas e que prestou diversos serviços ao então deputado federal, Jair Bolsonaro, e, depois, ao ainda deputado estadual, Flávio Bolsonaro. “Não podia ser facilmente descartado, era preciso uma efetiva proteção, por isso estava naquele sítio”, imagina.

Ainda em sentido especulativo, o professor imagina que Queiroz possua uma carta na manga, informações que, sob qualquer ameaça, possa soltar. “E o clã poderia ser desfazer.” Segundo reportagem do Correio Brazilense, Fabrício temia pela esposa Marcia Oliveira de Aguiar – foragida – e pela filha desde 2018.

Professor Robinson Almeida, da UFG (Foto: UFG)

Professor Robinson Almeida, da UFG (Foto: UFG)

A matéria lembra que o ex-assessor de Flávio, ainda naquele ano, dizia: “Podem me prender, mas não podem prender minha mulher nem minha filha.” Marcia também teve o pedido de prisão autorizado. “E eu não sei até que ponto existe envolvimento de Queiroz com mal feitos e Bolsonaro e filhos”, avalia a imprevisibilidade da situação, Robinson.

Discursos

Neste momento, o cientista político acredita que Bolsonaro e família irão se apegar ao discurso de perseguição e jogo político duro. De fato, o Flávio Bolsonaro já deu início a este tipo de declaração, no Twitter.

“A repetição desse discurso, de complô, na medida em que aparecem casos concretos vai perdendo a força. O que seria preciso é a apresentação de materialidade que as acusações não tem fundamento. Porém, isso parece pouco provável. A esta altura, já teria aparecido”, analisa Robinson.

Sobre algum tipo de golpe de estado, uma vez que Bolsonaro tem reagido com discursos em tons de ameaça – como o de quarta, contra o STF (“está chegando a hora”) –, o docente não vê mais do que uma reação de alguém que está na defensiva e tenta ir para o ataque. “Ontem ele diz, ‘vocês vão ver’, hoje amanhece com uma bomba.”

Resumo

O ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que é investigado por participação em suposto esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio, foi preso em um sítio localizado em Atibaia, interior de São Paulo. O imóvel é de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro.

Depois de ser preso, ele passou por exames no Instituto Médico Legal (IML) e foi encaminhado à delegacia de São Paulo. Ele foi transferido de helicóptero para o Rio de Janeiro por volta das 10h.

Segundo a Polícia Civil de SP, o caseiro do sítio informou que Queiroz estava no local há cerca de um ano. Em 2019, o advogado e proprietário do sítio, Frederick Wassef, disse à Globo News que não sabia onde Fabrício estava.