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Se estivesse no poder, apoiaria Bolsonaro, diz Eduardo Cunha

Ex-presidente da Câmara avalia cenário político e revisita bastidores do impeachment de Dilma (PT)

De volta a Brasília, Eduardo Cunha quer disputar Presidência da Câmara por São Paulo (Foto: Agência Câmara)
De volta a Brasília, Eduardo Cunha quer disputar Presidência da Câmara por São Paulo (Foto: Agência Câmara)

Eduardo Cunha traça uma linha entre o processo de impeachment que comandou em 2016 e o governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Cinco anos depois da votação na Câmara, o deputado cassado diz que apoiaria o atual presidente para evitar a volta do PT ao poder.

“Quem elegeu Bolsonaro porque não queria a volta do PT tem a obrigação de dar a governabilidade a ele”, afirma o ex-presidente da Câmara, em entrevista por escrito à Folha. “Se estivesse no poder, eu o apoiaria.”

Cunha analisa o cenário político e o processo contra Dilma Rousseff no livro “Tchau, Querida: O Diário do Impeachment”, que será lançado no sábado (17).

Na entrevista, o ex-deputado afirma que Michel Temer passou a trabalhar pelo afastamento da petista em agosto de 2015, mais de três meses antes da abertura do processo. O ex-presidente nega essa articulação.

Cunha diz que a abertura do processo não foi uma retaliação a Dilma. Ele descreve seu rompimento com a petista, no entanto, como uma reação ao que considera uma interferência do governo nas investigações contra ele.

“O governo queria me derrubar, pois achava que eu iria derrubá-lo”, declara. Integrantes da gestão petista negam interferência.

Em prisão domiciliar, Cunha afirma que foi um “troféu político” para que a Lava Jato sustentasse um discurso de isenção em relação ao PT. As perguntas foram enviadas pela Folha ao advogado Aury Lopes Jr., e as respostas, devolvidas por ele por escrito.

PERGUNTA: Em que momento decidiu abrir o processo de impeachment?

CUNHA: O livro relata a decisão. O país atravessava uma situação insustentável, com uma grande crise econômica e política, deterioração do governo, manifestações de rua e perda de apoio, além da discussão das chamadas pedaladas fiscais ocorridas no primeiro mandato de Dilma.

A decisão [se deu] na casa de Rodrigo Maia [em 10 de outubro de 2015], onde se combinou a alteração no pedido já protocolado por Hélio Bicudo [advogado], para incluir decretos orçamentários de Dilma em 2015, que caracterizavam o crime de responsabilidade. No segundo momento, eu relato a decisão de aceitar o pedido, inclusive com assinatura e guarda no cofre da secretaria-geral, em 29 de outubro, aguardando o momento que eu decidisse a sua divulgação, em 2 de dezembro.

PERGUNTA: O sr. relata que, em agosto, Michel Temer já conversava sobre o impeachment. Como foram os primeiros passos do vice-presidente?

CUNHA: No momento em que Temer se viu sabotado na articulação política, ele decidiu atuar pelo impeachment, tanto que saiu da articulação como sinalização de que não estava mais alinhado com o governo. Nesse momento, o impeachment era o seu objetivo.

PERGUNTA: Considera que Temer traiu Dilma?

CUNHA: A palavra traição significa rompimento de um compromisso que nem sei se existia. Ao contrário do que Temer passou a pregar, ele foi articulador e atuante a favor do impeachment. A meu ver, Dilma é quem traiu seus eleitores, assim como traiu todos os brasileiros com os seus crimes de responsabilidade. A reeleição de Dilma foi para o país o equivalente à pandemia. Foi a Covid-14.

PERGUNTA: O sr. descreve seu rompimento com Dilma como reação ao que considerava uma interferência do governo em investigações contra o senhor. O impeachment foi uma retaliação?

CUNHA: O impeachment não foi uma retaliação. Foi consequência do conjunto da obra que era o desastre que Dilma promoveu no segundo mandato. É evidente que a interferência do governo contra mim tinha como objetivo me tirar do jogo, para que não houvesse a possibilidade de impeachment.

PERGUNTA: O impeachment ocorreria se o sr. não estivesse sob investigação?

CUNHA: A investigação não teria qualquer influência, se tivesse sido de cunho normal, sem interferência do governo na criação e no resultado. O governo queria me derrubar, pois achava que eu iria derrubá-lo.

PERUNTA: O livro narra o que seria uma conspiração entre José Eduardo Cardozo (então ministro da Justiça) e Rodrigo Janot (procurador-geral da República) contra o senhor. Qual seria a motivação, considerando que o governo também foi fragilizado?

CUNHA: A motivação era tentar me derrubar ou me colocar em situação de fragilidade para evitar o impeachment. Mostro inclusive que Dilma sabia, através de Cardozo, sobre a situação das contas que foram atribuídas a mim na Suíça. Isso está confirmado pela Vaza Jato e pela delação de Mônica Moura [mulher do publicitário João Santana].

Discordo de que o governo tenha sido fragilizado por ações do procurador-geral. Afinal, a que ação penal Dilma e Cardozo respondem? Dilma praticou atos de obstrução da Justiça [segundo delação de Mônica Moura] e foi preservada por Janot em todo o processo. Quem sofreu foi Lula, não Dilma.

PERGUNTA: O sr. acusa a Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro de abusos. Como classifica a operação?

CUNHA: Moro era o chefe de uma organização política que, usando os mesmos critérios da Lava Jato, poderia ser considerada uma organização criminosa. Eu fui para Moro o troféu político para contraponto de sua suposta isenção, para que ele pudesse afirmar que não perseguia Lula, pois também tinha o maior adversário do PT. Sua parcialidade não era só com o Lula, mas também com relação a mim.

PERGUNTA: Segundo seu relato, Dilma propôs acionar cinco ministros do STF para ajudá-lo. Haveria um acordo para frear processos contra o sr.?

CUNHA: Eu relato a proposta de Dilma, mas ressalvo que nunca dei crédito a essa proposta. Ou era blefe, ou ela acreditava em Papai Noel. Eu não caía em blefe e tampouco acredito em Papai Noel.

PERGUNTA: O que o ex-presidente Lula propôs às vésperas do impeachment, para evitar a queda de Dilma?

CUNHA: A conversa com Lula se deu no sábado de Aleluia de 2016, em 26 de março, poucos dias antes da votação na Câmara. Foi um apelo para evitar algo que, naquele momento, era quase inevitável. Lula tratou de forma política a questão. Não houve nenhuma proposta que poderia ser considerada indecente ou de qualquer benefício. Foi uma tentativa legítima de reverter o processo.

PERGUNTA: O sr. relata um encontro com Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, em agosto de 2015, e diz que o general demonstrava preocupação com a situação política. O sr. foi procurado por militares para discutir o impeachment?

CUNHA: Nunca fui procurado para isso. Eu relatei as preocupações dele naquele momento específico. Ele me relatou, inclusive, que o governo havia solicitado que ele cancelasse o convite a mim [para aquele encontro, numa viagem à Amazônia], o que ele havia recusado.

PERGUNTA: O sr. diz que um de seus advogados recebeu uma proposta da PGR para que o sr. gravasse conversas com Temer. Como isso ocorreu? 

CUNHA: [Eram] os mesmos que armaram as gravações de Joesley Batista. Estava por trás uma advogada que largou minha defesa e foi trabalhar para Joesley. É óbvio que o objetivo era o mesmo da gravação de Joesley, tentar derrubar Temer. A diferença é que eu jamais me submeteria a isso, mesmo tendo pago o alto preço de ficar preso. Se tivesse feito, não teria ficado preso um único dia.

PERGUNTA: Como foram as conversas de seus advogados em busca de colaboração premiada?

CUNHA: Um dos meus advogados entabulou conversas, as quais jamais teriam qualquer possibilidade de acordo numa Procuradoria sob comando de Janot. Nenhuma proposta foi discutida, e também não estava em meus planos fazer acordo com Janot.

A única razão de eu ter permitido que se conversasse era para desmoralizar a versão da gravação de Joesley [Batista], de que havia pagamentos para que eu não delatasse. Se ninguém havia proposto delação, como eu poderia estar recebendo para não delatar? Essa acusação absurda ficou esvaziada.

PERGUNTA: O sr., sua família ou seus advogados receberam pagamentos de Joesley?

CUNHA: Nem eu, nem a minha família e nem qualquer advogado recebeu qualquer coisa. Joesley, além de mentiroso, era covarde e mau caráter. É inadmissível que não se tenha cancelado sua delação, responsabilizando-o pelos seus crimes, e ainda que se permita que ele comande o império que ele formou às custas de sei lá que forma. O dinheiro dele comprou a impunidade.

PERGUNTA: O sr. considera que foi abandonado por Temer, por partidos de oposição como o PSDB e por antigos aliados?

CUNHA: Eu relato no livro o papel de Temer com relação a mim, que não foi correto. Não poderia esperar nada diferente dele, pois sua personalidade é fraca. Leiam e tirem suas conclusões. Quanto ao PSDB, eles se aproveitavam da situação em todos os momentos. Eles me usaram no processo como bucha de canhão. É evidente que fui traído por alguns.

PERGUNTA: O sr. descreve casos de tentativa de extorsão por integrantes do Conselho de Ética da Câmara para evitar sua cassação. Pensou em denunciar esses casos à época?

CUNHA: O que adiantaria? O primeiro relator [do processo por quebra de decoro] inventava ameaças sem provas, e a imprensa dava o tom de verdade a tudo o que ele falava. Só poderia denunciar se tivesse gravado as propostas —o que eu, por minha natureza, não faria.

Meu objetivo não é denunciar, mas expor o que passei em um processo, que, afinal, um documento do próprio Ministério Público Federal reconhece que eu falei a verdade quando disse que era mero usufrutuário da conta no exterior. E eu fui cassado porque essa afirmação era considerada uma mentira.

PERGUNTA: No livro, o sr. descreve Jair Bolsonaro de forma positiva e diz que ele sofre críticas injustas. Se estivesse no poder, seria aliado dele?

CUNHA: Minha avaliação sobre Bolsonaro está de forma superficial, em cima de fatos concretos. Relato a sabotagem de Rodrigo Maia ao governo e o fato de que Bolsonaro sofre uma perseguição implacável de quase a totalidade da mídia.

Quem elegeu Bolsonaro porque não queria a volta do PT tem a obrigação de dar a governabilidade a ele. Se estivesse no poder, eu o apoiaria, com eventuais críticas pontuais, mas sempre estaria na posição oposta ao PT.

É preciso ter em conta que vivemos em uma dupla opção, entre o PT e o anti-PT. Nunca existiu terceira via em todas as eleições desde 1989 e não existirá na próxima. Não vejo ninguém para isso. Entre Bolsonaro e o PT, não tenho a menor dúvida de ficar com Bolsonaro. Qualquer opção é melhor que a volta do PT.

PERGUNTA: Em seu voto a favor do impeachment, o sr. declarou: “Que Deus tenha misericórdia dessa nação”. Como vê o que ocorreu no país nos cinco anos seguintes?

CUNHA: Tirar a Dilma e o PT já foi um ato de misericórdia de Deus com o Brasil. Que ele continue tendo essa misericórdia e não permita que o PT volte.

EDUARDO CUNHA, 62

  • Economista
  • Foi presidente da Telerj (1991-1993) e da Companhia Estadual de Habitação do Rio (1999-2000)
  • Deputado estadual (2001-2003), deputado federal (2003-2016) e presidente da Câmara em 2015 e 2016, quando comandou o processo de impeachment de Dilma Rousseff
  • Afastado da presidência da Câmara e cassado por quebra de decoro em 2016
  • Preso pela Lava Jato em outubro de 2016, cumpre prisão domiciliar desde março de 2020