Vila São Cottolengo comemora 68 anos de trabalho filantrópico em Trindade

Hospital foi criado em 11 de fevereiro de 1951 e, desde então, se tornou referência no atendimento a pessoas com múltiplas deficiências

A Vila São Cottolengo, localizada na Rua Coronel Gabriel Alves de Carvalho, no Bairro Santuário, em Trindade, comemora 68 anos nesta segunda-feira (11). O local se tornou referência no trabalho filantrópico que hoje atende, de forma integral, 331 pacientes com múltiplas deficiências e que vivem em suas 12 unidades de internação.

Tudo começou em 11 de fevereiro de 1951, pelo Padre Gabriel Campos Vilela. No início, a unidade funcionava como abrigo para pessoas que estavam em situação de rua. Com o passar dos tempos, a instituição filantrópica ampliou a sua capacidade de atendimento e suas especialidades. De acordo a instituição, a missão é promover vida com qualidade para a pessoa com deficiência e em situação de vulnerabilidade social.

Atualmente, a unidade é administrada por padres da Congregação do Santíssimo Redentor e pela Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, ambas da Igreja Católica. A Vila sobrevive de doações da comunidade e de repasses realizados pelos governos Federal e Estadual.

Primeira sede da Vila São Cottolengo (Foto: Arquivo Pessoal)

Estrutura e Atendimentos

A unidade também conta com um hospital que realiza, em média, 2,4 mil atendimentos ambulatoriais diários. O centro médico também realiza consultas, exames laboratoriais e de imagem, cirurgias de pequeno e médio portes e serviços odontológicos a 800 pessoas por dia, em média. Os atendimentos são realizados por meio de convênios, pelo Serviço Único de Saúde (SUS) ou de forma particular.

A estrutura da unidade ainda conta com um Centro Especializado em Reabilitação Física Auditiva e Intelectual (CER III) que conta com uma vasta equipe multiprofissional e atende especialidades como fonoterapia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, assistência médica e serviço social. Nesta modalidade, cerca de 480 pessoas são recebidas diariamente.

(Foto: Divulgação/ Arquivo Pessoal)

A Vila também conta com um serviço de equoterapia, que atende mais de 200 praticantes por semana. Esses atendimentos também estão englobados os pacientes internos da instituição filantrópica e do Programa Reabilitar de Medicina Física. Além de tudo isso, a estrutura conta com um Centro de Ensino Especial com 290 alunos que possuem deficiências e que fazem parte dos moradores internos e da comunidade.

Alguns dos espaços da Vila (Foto: Divulgação/ Arquivo Pessoal)

Amor e caridade

A unidade conta com 600 profissionais para atender toda essa demanda. Uma delas é a Ir. Vanda Elisa Conde, que faz parte das Filhas de Caridade de São Vicente de Paulo. Ela destaca que já está na unidade há nove anos e que, atualmente, cuida de duas alas de internação, dando no total de 60 internos sob a sua responsabilidade.

Ir. Vanda diz que o trabalho é a sua missão e que a desenvolve com muito amor. “É uma graça muito grande! A gente sente uma alegria muito intensa porque nós temos a certeza que estamos realizando aquilo para qual fomos nós [irmãs da caridade] fomos chamadas. Temos a missão e o carisma de servir a Jesus Cristo das pessoas dos pobres. Então, trabalhando na Vila São Cottolengo nós atendemos a este nosso carisma através de todos os cuidados que são feitos aos internos e isso a gente faz com muita alegria e com todo o coração”, conta.

A irmã conta que o conhecimento técnico é de bastante valia, mas que o lado humano prevalece para o desenvolvimento de um bom trabalho. Ela considera que o aspecto financeiro não é o principal motivador para se trabalhar no local e sim o grande aprendizado que cada interno é capaz de promover.

“O mais importante ainda é a parte humana, ter muito amor no coração. A gente fala que o salário apenas do colaborador não é capaz de motivar uma pessoa a se manter na Vila. Mas eu tenho certeza que os próprios pacientes passam algo de muito especial para cada um que trabalha aqui. Uma energia muito positiva. Por que aqueles que tem um cognitivo preservado, que consegue se comunicar, eles demonstram que, apesar das suas limitações, que são felizes”, ressalta.

Uma prova disso, segundo Ir. Vanda, é uma das internas que ela ajudou a cuidar que era deficiente visual. De acordo com a irmã, a mulher, apesar de não poder enxergar, conseguia visualizar perfeitamente o estado emocional em que cada cuidador apresentava quando chegava perto dela.

“Ela perguntava: ‘Você está triste hoje?’, ‘Você está cansada hoje?’. Essa preocupação que ela tinha, mesmo com todas as suas dependências nos seus cuidados, ela estava sempre voltada em saber como as pessoas que estavam. Ela me marcou muito por essa atenção que ela tinha, embora não enxergasse com os olhos físicos, ela percebia as necessidades das pessoas que chegassem perto dela”, conta.

Família

Foi assim que Miriam Kuhn, da gerente multiprofissional da Vila, caracterizou todos os funcionários da Casa. A gaúcha de Boa Vista do Buricá, criada em Dourados, e que vive em Goiânia há 24 anos. Miriam conta que veio parar na capital goiana após um convite do ex-prefeito Darci Accorsi para a implantação do Cidadão 2000. Hoje, ela conta que a Vila São Cottolengo permite  desenvolver esse sentimento familiar com os internos que ali vivem.

“Trabalhar na Vila permite viver em família. Acaba criando um vínculo familiar com meninos e meninas que são o coração pulsante dessa casa. Nos tornamos pai, mãe, terapeuta e é um espaço respeitoso nesse sentido: respeitar a vida e individualidade do outro, respeitar as diferenças, respeita das limitações de cada um, assim como a religiosidade de cada profissional”, conta.

Miriam ressalta que a Vila é um espaço em que o respeito, caridade, amor, felicidade, alegria, compreensão e o cuidado ganham notoriedade e ainda afirmou que esses sentimentos são capazes de levar à recuperação mais rápido do que qualquer medicamento. “Sempre quando termino meu expediente eu passo pela capela e me pergunto: ‘Será que eu amei o suficiente esses meninos e meninas hoje?’. A conclusão que tiro é que eu sempre tento amar, mas fui mais amada que amei”, assevera.

Também atuando como terapeuta ocupacional, Miriam lembra com tristeza das mortes que tiveram no ano passado na Vila. O hospital foi palco de um surto do vírus H1N1, com cinco casos diagnosticados, mas apenas duas mortes. Nos quatro primeiros meses do ano passado, 12 internos morreram. Entre eles, estava um senhor do ela explica que tinha uma ligação muito forte. “Foi um momento muito sofrido. Algumas mortes nem eram causadas pelo vírus, mas alguns veículos informavam como se fosse e dava a entender que a gente não cuidava direito dos nossos pacientes. Com isso, muitas doações caíram e as visitas no local diminuíram, mas isso sempre serviu de aprendizado e crescimento”, explica.

Miriam explica que, no aniversário da instituição, haverá apresentação da banda formada por alguns interno e acontecerá o lançamento do CD gravado por eles. Ela conta que alguns dos participantes são internos que encontraram no projeto um avanço contínuo no seu estado de saúde.”Tem um dos participantes que era uma menino agressivo e que tinha apenas a rotina de comer e deitar. Após um trabalho intenso da nossa equipe, ele emagreceu e parou de ser agressivo e conseguiu se socializar. Isso é uma vitória para quem trabalha aqui”, ressalta.