Chacina no Solar Bougainville: PMs acusados de matar jovens dentro de casa e sumir com corpo de adolescente vão a júri popular 8 anos depois
Quatro militares devem responder por homicídio qualificado de jovens mortos. Um adolescente de 14 anos segue desaparecido desde 2018

Quatro policiais militares vão a júri popular acusados de envolvimento na morte de quatro jovens em uma ação policial que ficou conhecida como “Chacina do Solar Bougainville”, ocorrida em 2018, em Goiânia. De acordo com as investigações, três rapazes foram mortos a tiros dentro de uma casa onde jogavam videogame, enquanto um adolescente de 14 anos foi retirado vivo do local, colocado em uma viatura e levado até uma área de mata, onde teria sido executado. O corpo do menor nunca foi localizado.
Serão submetidos ao júri os policiais Fabrício Francisco da Costa, Éder de Sousa Bernardes, Cledson Valadares Silva Barbosa e Thiago Antônio de Almeida, acusados pelas mortes de Marley Ferreira Nunes, de 17 anos, Matheus Henrique de Barros Melo e Divino Gustavo de Oliveira, ambos de 19 anos, além do homicídio e ocultação do corpo do adolescente João Vitor Mateus de Oliveira, de 14 anos.
Morte dos jovens
Segundo a denúncia do Ministério Público, o crime ocorreu na noite de 23 de abril de 2018, quando os quatro jovens estavam reunidos na casa de Matheus, localizada no Residencial Solar Bougainville, jogando videogame. De acordo com testemunhas, uma viatura do Batalhão de Choque foi estacionada de ré na garagem do imóvel, enquanto os policiais entravam na casa.
Três dos jovens foram executados dentro da residência, sem qualquer chance de defesa. Já o adolescente João Vitor teria sido retirado vivo do local, colocado em uma na viatura e levado até uma área de mata, no Setor Forteville, a cerca de 2,4 quilômetros dali, onde foi morto a tiros. O corpo do adolescente, conforme o MPGO, teria sido ocultado após a execução.

Policiais alegaram troca de tiros
Pessoas que moravam nas proximidades relataram ter ouvido disparos, gritos e pedidos de socorro vindos da casa naquela noite. Dias depois, um par de chinelos e a carcaça do celular de João Vitor foram encontrados em uma área de mata, além de projéteis de arma de fogo. Segundo o MP, as provas reforçam a tese de execução e ocultação de cadáver.
Na época, os militares alegaram que foram até a residência para verificar a presença de um carro roubado e que teriam sido recebidos a tiros, reagindo em legítima defesa. No entanto, depoimentos de testemunhas e relatos de familiares contradizem essa versão. Além disso, peritos da Polícia Científica não encontraram armas de fogo no local que pudessem confirmar o confronto.
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Investigação
As apurações tiveram início na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), por conta do desaparecimento de João Vitor, e depois foram assumidas pela Delegacia de Homicídios.
A Justiça manteve todas as qualificadoras apontadas pelo Ministério Público, incluindo o uso de recurso que dificultou a defesa das vítimas e, no caso do adolescente, o homicídio para garantir a impunidade dos crimes anteriores.
Além de confirmar o julgamento pelo júri popular, a decisão também determinou que os policiais permaneçam afastados das funções operacionais de rua, atuando apenas em atividades administrativas até o fim do processo, como medida para proteger testemunhas e preservar a instrução criminal.
Posicionamento da PM
Quando os militares foram denunciados, a Polícia Militar informou, em nota, que o caso está sob análise do Poder Judiciário e reafirmou o compromisso da corporação com a legalidade, a transparência e a colaboração com as autoridades responsáveis pelo julgamento.
A data do júri ainda não foi definida.
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