ANÁPOLIS

Relembre o caso Escobar: denúncias de corrupção, assassinatos, envolvimento de PMs e ‘queima de arquivo’

Empresário morto em 2021 acusou político de envolvimento com caixa dois. Investigações apontam sequência de homicídios praticada por PMs

O assassinato do empresário Fábio Alves Escobar Cavalcante, em junho de 2021, ocorreu após ele fazer denúncias públicas de supostos esquemas de corrupção que, segundo o Ministério Público, envolviam o ex-dirigente partidário Carlos César Savastano Toledo, o Cacai Toledo. O caso deu origem a uma investigação extensa, que apura uma série de mortes em Anápolis e levou cinco policiais militares a serem enviados ao Tribunal do Júri, acusados de executarem três jovens para eliminar possíveis testemunhas.

Nos meses que antecederam a morte, Fábio Escobar passou a divulgar vídeos nas redes sociais em que acusava o ex-presidente do Democratas (hoje União Brasil, após fusão com o PSL) de irregularidades eleitorais, como caixa dois. Entre os citados estava Cacai Toledo, figura conhecida na política de Anápolis. Escobar afirmava estar sendo ameaçado e dizia ter recebido propostas financeiras para encerrar as denúncias.

De acordo com investigações, um coronel da Polícia Militar chegou a afirmar que foi procurado por Cacai, que teria dito que “a única forma de resolver o problema” seria a morte do empresário. Essas declarações reforçaram a linha investigativa do Ministério Público, que passou a tratar o homicídio como crime com possível motivação política.

A emboscada e o assassinato de Escobar

Na noite de 21 de junho de 2021, Escobar saiu de casa dizendo que iria tratar de um negócio. Ele foi atraído até o Setor Jamil Miguel, em Anápolis, após conversar com uma pessoa por telefone. Ao chegar ao local, foi surpreendido por homens encapuzados, que desceram de um carro e efetuaram diversos disparos. O empresário chegou a ser socorrido, mas morreu pouco depois no hospital.

A Polícia Civil apurou que o telefone usado para atrair Escobar pertencia a Bruna Vitória Rabelo Tavares, jovem assassinada semanas depois.

Novas mortes e suspeita de “queima de arquivo”

Em agosto de 2021, Bruna Vitória foi morta. No dia seguinte, três amigos dela, identificados como Gabriel Santos Vidal, Gustavo Lage Santana e Mikael Garcia de Faria, morreram durante uma abordagem da Polícia Militar. A versão inicial apontava troca de tiros, mas o Ministério Público sustentou que as vítimas foram executadas para assumirem a culpa pelo assassinato de Escobar.

A investigação indicou que policiais militares já vinham monitorando os jovens e que o objetivo seria encerrar a ligação entre o crime e as denúncias feitas pelo empresário.

Em novembro de 2023, a Justiça de Anápolis absolveu sumariamente os PMs Glauco Olívio de Oliveira, Englison de Azevedo Lopes, Adriano Azevedo de Souza, Rodrigo Moraes Leal e Thiago Marcelino, acusados pelas mortes dos três jovens, entendendo que eles teriam agido em legítima defesa. O Ministério Público recorreu da decisão.

Policiais tinham histórico de execuções

Segundo o MP e relatórios Polícia Civil, os militares denunciados já estiveram envolvidos em outras mortes registradas inicialmente como confrontos. Com o avanço das investigações, esses casos passaram a ser questionados. A acusação aponta semelhanças nas ocorrências, como monitoramento prévio das vítimas, versões contraditórias dos policiais e suspeitas de manipulação da cena do crime. Para os promotores, esse histórico indica que as mortes podem ter sido execuções, e não ações em legítima defesa, com o objetivo de eliminar testemunhas.

Situação atual

Em janeiro de 2026, a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás acolheu o recurso por unanimidade e determinou que os policiais sejam julgados pelo Tribunal do Júri, por entender que há indícios suficientes para que a sociedade decida sobre os crimes.

Com a decisão, o processo retorna à comarca de Anápolis, que fica responsável por marcar a data do júri popular Glauco, Englison, Adriano, Rodrigo e Thiago podem responder pelas mortes de Gabriel, Gustavo e Mikael. As defesas informaram que pretendem recorrer a instâncias superiores.

A reportagem tenta contato com a defesa de Cacai Toleto, mas não houve retorno até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.

Procurada pelo Mais Goiás, a Polícia Militar informou, por meio de nota, que adotou os procedimentos administrativos previstos em lei na época dos fatos e que acompanha o andamento do caso. Enquanto isso, os policiais atuam normalmente em suas funções.

Veja nota completa:

A Polícia Militar de Goiás (PMGO) informa que, à época dos fatos, foram adotados todos os procedimentos administrativos cabíveis, em estrita observância à legislação vigente.

Foi instaurado Processo Administrativo Disciplinar (PAD) Especial para apuração dos fatos, o qual encontra-se sobrestado, aguardando a conclusão da ação penal.

O caso encontra-se atualmente em tramitação na esfera judicial, instância competente para a condução das demais fases e deliberações processuais. Em primeira instância, houve absolvição sumária dos policiais militares envolvidos, motivo pelo qual permaneceram no exercício regular de suas funções. Contudo, a Justiça acolheu o recurso interposto pelo Ministério Público, determinando a submissão de cinco policiais militares a julgamento pelo Tribunal do Júri. Em razão da decisão de pronúncia, a Corregedoria da Polícia Militar adotará as providências administrativas cabíveis.

A PMGO segue colaborando com as autoridades competentes e cumprindo integralmente as determinações do Poder Judiciário.